Versão Inglês

Ano:  2012  Vol. 78   Ed. 5  - Setembro - Outubro - ()

Seção: Artigo Original

Páginas: 27 a 37

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Os pais conhecem as queixas auditivas de seus filhos?

Are parents aware of their children's hearing complaints?

Autor(es): Keila Alessandra Baraldi Knobel1; Maria Cecília Marconi Pinheiro Lima2

DOI: 10.5935/1808-8694.20120005

Palavras-chave: audição, criança, hiperacusia, pais, zumbido.

Keywords: child, hearing, hyperacusis, parents, tinnitus.

Resumo:
A acurácia dos pais sobre a audição dos filhos é variável e pode diferir das queixas das crianças.
OBJETIVO: Investigar as queixas auditivas de crianças e as impressões dos pais a respeito da audição das crianças.
MÉTODOS: 477 crianças (2º ao 5º ano do ensino fundamental) foram entrevistadas e seus pais responderam a pesquisa em casa.
RESULTADOS: Vinte e nove porcento das crianças referiram dificuldade para entender fala no silêncio, 36,1% tinham história de um a três otites e 12,7% de quatro ou mais otites, 21,7% tinham zumbido contínuo (associação com exposição a sons intensos, p = 0.0007), 3,8% tinham zumbido pulsátil e 2,9% tinham alucinações auditivas. Vinte e oito e meio porcento referiram incômodo com sons intensos (associação com a queixa de zumbido, p = 0,0142, e com gênero, p = 0,0029) 10,4% haviam feito avaliação audiológica, e os fatores determinantes foram história de otites (p < 0,001) e preocupação dos pais com a audição dos filhos (p = 0,043). As respostas dos pais e de seus filhos foram significativamente diferentes.
CONCLUSÕES: As queixas auditivas das crianças são prevalentes e relevantes, mas a maioria delas nunca teve a audição avaliada e a maioria dos pais não sabe das queixas de seus filhos. Intolerância a sons e alucinações auditivas deveriam ser consideradas em avaliações clínicas e audiológicas.

Abstract:
The accuracy of parents' impressions about their child's hearing status is variable and may not correspond to the child's complaints.
AIM: To investigate children's self-reported hearing symptoms and parents' impressions about it.
METHODS: 477 children (2nd to 5th grades of elementary schools) were interviewed and parents answered a survey at home. There were 393 matches between the children's interview and the parent's survey.
RESULTS: 29% of the children reported trouble in understanding what people said, 36.1% had history of 1-3 ear infections, 12.7% had four or more ear infections, 21.7% had continuous tinnitus (positive association with history of exposure to loud sounds, p = 0.0007), 3.8% had pulsatile tinnitus and 2.9% had auditory hallucinations. 28.5% of the children were annoyed by loud sounds (associated with tinnitus, p = 0.0142, and gender, p = 0.0029) 10.4% had had audiological tests, and the determinant factors were history of ear infections (p < 0.001) and parents' concern about their child's hearing (p = 0.043). Parents and their own child's responses were significantly different.
CONCLUSIONS: Children's auditory complaints were prevalent and relevant, but most of them had never had an audiological evaluation and most parents were not aware of their child's complaints. Sound intolerances and auditory hallucinations should be considered in clinical and audiological examinations.

INTRODUÇÃO

Comunicação ocorre de várias formas, mas a comunicação verbal é o principal modo utilizado no sistema educacional. Por essa razão, a identificação precoce de qualquer nível de perda auditiva proporciona aos alunos a oportunidade para intervenção precoce e para prevenir os efeitos adversos da perda auditiva sobre a fala, linguagem, aprendizado e desfechos acadêmicos da criança1,2

A prevalência de perda auditiva em crianças depende de quão rigorosos são os critérios usados para defini-la1,3,4 e das das condições de vida e acesso a atenção à saúde2,5. Segundo a Organização Mundial de Saúde3, a prevalência de perda auditiva entre crianças em idade escolar varia entre 0,05% a 7,7%; entretanto, estudos mais recentes encontraram prevalências de 14%6, 14,9%7, 18,4%8, 19,5%9 e 24%10. Resumindo, um número considerável de crianças padecem de dificuldades auditivas e precisam ser identificadas para receberem assistência adequada. Em países nos quais a triagem auditiva para crianças em idade escolar não é feita de rotina, as crianças só podem contar com a atenção prestada a elas pelos adultos. Entretanto, estudos têm demonstrado que a preocupação dos pais no tocante à audição de seus filhos possui baixa sensibilidade e muito baixo valor preditivo positivo para a detecção de perda auditiva, especialmente naqueles casos mínimos ou discretos4,11,12.

Outro sintoma auditivo que é comum entre crianças é o zumbido13. Zumbido é uma percepção auditiva fantasma, pois é uma percepção não relacionada a uma fonte externa14-16. A prevalência de zumbido entre crianças varia entre 6% a 59%6. Apesar dos dados divulgados de prevalência, atribuídos a importantes diferenças em metodologia de coleta de dados, critérios diagnósticos e grupos etários6, há um consenso de que seja mais alto entre crianças com distúrbios otológicos ou história de exposição a sons muito altos4,6,17-20. As crianças parecem se sentir menos incomodadas por zumbido do que adultos, mas as crianças que queixam de zumbido devem ser ouvidas com seriedade, uma vez que isso pode representar um sinal de afecção otológica que pode afetar as vidas das crianças, como já é relatado acontecer com adultos18.

Alucinação auditiva (AA) é um tipo diferente de percepção auditiva fantasma. Quando a percepção possui as mesmas qualidades de uma real, significando que a pessoa não a reconhece como percepção distorcida, ela é chamada alucinação auditiva (AA)21. A prevalência de AA em estudos com bases populacionais envolvendo adolescentes da população em geral está por volta de 6%22,23, apesar de que o número de pais que relataram alucinações em seus filhos foi de menos de 1%22. Em uma pesquisa de acompanhamento, Dhossche et al.22 relataram que, oito anos depois, eles encontraram 6% dos adolescentes (de um total de 914) da população em geral com queixa de alucinação. Nenhum indivíduo foi diagnosticado com esquizofrenia. Entretanto, AA já foi associada a distúrbios psiquiátricos não-psicóticos, tais como fobias específicas, distúrbios depressivos, distúrbios de abuso de substâncias, distúrbio de estresse pós-traumático e fobia social. Achado similar foi relatado em 16 (de um total de 90) crianças não-psicóticas (5-12 anos de idade) que relataram AA em clínicas psiquiátricas24.

Hiperacusia é definida como reduzida tolerância a sons convencionais, mesmo em baixas intensidades25. Incômodo ou desconforto causado por sons específicos pode ser chamado fonofobia (medo de som) ou misofonia (desgosto por sons)26. Há muito pouca informação publicada sobre a prevalência, possíveis causas associadas e prognóstico de reduzida tolerância sonora na infância. Uma relação entre hiperacusia e zumbido foi descrita em adultos25-27 e em crianças28. Segundo Coelho et al.28, 50% das crianças com hiperacusia também se queixaram de zumbido e, daquelas sem hiperacusia, 17,8% relataram ter zumbido.

Resumidamente, estudos populacionais têm demonstrado que um número significativo de crianças têm pelo menos uma queixa auditiva que pode ter efeitos potencialmente negativos sobre a comunicação, desfechos sociais e o próprio bem-estar emocional da criança. Os objetivos do presente estudo foram avaliar as impressões dos pais sobre a audição de seus filhos, a prevalência de queixa de perda auditiva, zumbido, AA e reduzida tolerância sonora entre crianças frequentando entre o segundo e quinto ano do ensino fundamental e investigar possíveis fatores de risco associados às queixas. O presente estudo é parte de um estudo maior que também buscou informação sobre o conhecimento, hábitos, preferências e comportamentos protetores das crianças com relação à exposição sonora de alta intensidade29.


MÉTODO

Desenho


Estudo prospectivo transversal, conduzido em escolas do ensino fundamental da cidade de Campinas, no sudeste brasileiro, com 1,1 milhão de habitantes. Os dados foram coletados entre abril e novembro de 2010.

A pesquisa começou após um teste piloto com 60 crianças e seus pais. Selecionamos as perguntas do questionário que melhor serviriam à pesquisa no tocante às crianças e aos pais.

Critérios de seleção

Em Campinas, há 72.326 estudantes entre os segundo e quinto anos do ensino fundamental30. Sessenta por cento delas estão distribuídas nas 98 escolas públicas estaduais, e 15% estão em aproximadamente 180 escolas particulares. É importante enfatizar que no Brasil há escolas públicas gratuitas nas esferas estadual e municipal, e escolas particulares. Com algumas poucas exceções, as escolas públicas têm poucos recursos educacionais e, por isso, as crianças de famílias de renda mais alta geralmente frequentam as escolas particulares. As crianças frequentam a escola durante os períodos da manhã ou tarde. As crianças entre os 2º e 5º anos estão entre 6 e 10 anos de idade.

A cidade é dividida em cinco regiões. A escolha das escolas foi feita em ordem alfabética para cada região. Após contato telefônico, muitos diretores dessas escolas se recusaram em nos receber e, assim, entrávamos em contato com a escola seguinte da região seguindo a ordem alfabética. Usando esses critérios, selecionamos 13 escolas: sete públicas estaduais, três escolas públicas municipais e três escolas particulares. Nas escolas maiores, com mais de uma turma por ano, a turma foi também escolhida de acordo com sua letra (2º, 3º, 4º e 5º anos, turma C, por exemplo). Nas escolas menores, entrevistamos os alunos dos turnos da manhã ou da tarde.

Com esses procedimentos, selecionamos uma amostra de 753 crianças. As crianças com história de distúrbios mentais ou psiquiátricos foram excluídas da pesquisa. Os pais (mãe, pai ou cuidador) receberam o formulário com o consentimento informado e o questionário (descritos nas avaliações) para serem preenchidos em casa. Os professores recolheram os formulários e questionários, e os entregaram ao pesquisador, que foi à escola para fazer as avaliações. Entrevistamos 477 crianças. Considerando o número de indivíduos na amostra selecionada, e o número de crianças entrevistadas, a taxa de exclusão foi de 36,8%. As exclusões foram causadas por não devolução do formulário de consentimento informado (71,4%), recusas dos pais (23,2%), e a ausência das crianças na escola no dia da entrevista (5,4%). Uma vez que algumas pesquisas foram devolvidas em branco, obtivemos as pesquisas respondidas pelos pais de 393 crianças entrevistadas.

Procedimento

As entrevistas com as crianças foram conduzidas durante o horário escolar. Todas as crianças concordaram verbalmente e foram individualmente entrevistadas em particular pelo primeiro autor e na sala mais silenciosa disponível na escola. Foi tomado todo o cuidado para garantir que as crianças entendessem as perguntas e tivessem tempo suficiente para respondê-las. O entrevistador não expressou aprovação, nem desaprovação com relação à resposta da criança em qualquer momento durante a entrevista.

Avaliações

A pesquisa junto aos pais buscou informação sobre as impressões dos mesmos com relação ao comportamento auditivo e queixas afins das crianças, história de exposição a sons de alta intensidade, o número de episódios de otites média e informações afins (oito itens, Apêndice A). A entrevista das crianças consistiu de um questionário com perguntas abertas direcionadas, apresentadas verbalmente pelo entrevistador sobre informação demográfica, queixa de dificuldade de audição em ambientes silenciosos, percepções auditivas fantasmas, incômodo com sons e informação sobre exames auditivos prévios (cinco itens, veja o Apêndice B). Muitas crianças e adultos descrevem seus zumbidos como sons de insetos, tais como abelhas ou pernilongos, tons e ruídos. Entretanto, para ser considerado um zumbido, essas percepções auditivas fantasmas precisam ser reconhecidas pela pessoa como "sons" produzidos por seus próprios ouvidos ou cabeça. Por outro lado, se a pessoa não reconhecê-lo como percepção distorcida, é então chamado de alucinação auditiva (AA)21. Por essa razão, crianças que relatam ouvir barulho de insetos, tons ou ruídos ao seu redor, mas que conseguiam identificar de onde vinham, acreditando vir de fora de seus corpos, foram consideradas como portadoras de AA. Não havíamos planejado incluir pergunta sobre o nível de incômodo das percepções auditivas, mas uma discussão dos resultados parciais mostrou sua importância. Por esse motivo, somente um subgrupo de participantes (239 crianças das escolas públicas) responderam essa pergunta.

Análise estatística

Houve uma análise de conteúdo das perguntas que incluiu descrições. Tais respostas foram codificadas antes da análise estatística. A análise estatística foi feita por meio do SAS (versão 9.1) e o nível de significância estabelecido foi de 5%.

A homogeneidade e outros fatores associados à exposição foram analisados usando-se o teste do qui-quadrado para diferenças de porcentagens e o Teste Exato de Fisher para frequências absolutas (n < 5). A análise das concordâncias das medidas comparando os questionários dos pais e das crianças foi alcançada usando-se o Teste Simétrico. Ele avalia quão diferentes foram as respostas.

Ética

Esse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob protocolo número 940/2009. Obtivemos consentimento por escrito de todos os pais e consentimento verbal de todas as crianças.


RESULTADOS

Amostras das escolas públicas e particulares foram semelhantes em gênero e idade; porém, o Teste Qui-Quadrado mostrou diferença significativa entre as escolas com relação ao nível educacional dos pais (Tabela 1).




Vinte e nove por cento das crianças relataram alguma dificuldade para entender o que as pessoas falavam e 0,6% falaram que sempre tiveram alguma dificuldade. Segundo informação dos pais, 36,1% das crianças tinham história de uma a três infecções de ouvido; 12,7% haviam tido quatro ou mais infecções de ouvido e 2,5% não sabiam. O número de infecções prévias de ouvido não esteve relacionado ao nível educacional dos pais (p = 0,639, Teste Qui-Quadrado).

Apesar das queixas auditivas e da história de infecções de ouvido, somente 10,4% haviam sido submetidos a exames audiométricos, e quase 2/3 delas eram de escolas particulares. A Tabela 2 mostra a relação entre o exame audiométrico feito e o nível de educação dos pais, as queixas das crianças e dos pais, e passado de infecções de ouvido.




Excluindo os dados faltosos de 13 crianças, o número de indivíduos com percepção auditiva fantasma foi de 135 (28,4%). Após classificar as percepções, encontramos três categorias: zumbido contínuo, como um toque de telefone ou ruído surdo (hum) contínuo (n = 103/21,7%), zumbido pulsátil (n = 18/3,8%) e AA (n = 14/2,9%).

A Tabela 3 mostra o número e o gênero das crianças e as descrições de suas AA. Por causa do pequeno número de indivíduos com AA, não fizemos os testes paramétricos. História prévia de infecções otológicas e exposição a ruídos muito intensos, gênero e nível educacional dos pais foram examinados com vistas a investigar a associação dos mesmos à dificuldade auditiva e ao zumbido (contínuo e pulsátil) (Tabela 4).






Com relação à pergunta sobre sons que incomodavam a criança, 59,4% negaram serem incomodadas com sons; 28% se sentiam incomodados com sons muito altos (ruído ou música), 2,9% sons de intensidade (pitch) alta; 1,0% sons corporais produzidos por outros (ronco, som produzido ao se limpar a garganta, deglutir); 3,5% sons de arranhadura (em ferro, quadro negro, poliestireno...) e 4,7% se referiram a outros tipos de sons, como o varrer de uma vassoura, amassar um copo de plástico, arrastar de cadeira, lixa, etc.

A Tabela 5 mostra as relações de infecções otológicas prévias, exposição a sons altos, zumbido, nível educacional dos pais e gênero com incômodo sonoro por sons de pitch baixo e alto. As concordâncias entre as respostas das crianças e aquelas de seus pais estão mostradas na Tabela 6. As células tracejadas se referem à concordância entre as respostas dos pais e das crianças. Um teste simétrico analisa quão diferentes são.






DISCUSSÃO

O presente estudo investigou queixas de crianças frequentando do 2º ao 5º ano do ensino fundamental e a percepção dos pais a esse respeito.

No Brasil, os alunos não pagam para frequentar escolas públicas. A renda das famílias não foi analisada, mas a significativa diferença no nível educacional dos pais de crianças que frequentam escolas públicas e dos pais daquelas de escolas particulares (p < 0,0001) parece ser influenciada por outras variáveis socioeconômicas, tais como acesso à saúde, moradia, nutrição, etc. Por esse motivo, decidimos analisar a variável nível educacional dos pais entre as queixas de hipoacusia e não o "tipo" de escola. As idades das crianças foram semelhantes entre as escolas, mas houve mais meninos do que meninas (p = 0,049), que corresponde à distribuição de gênero na cidade para essa faixa etária30.

Dificuldades auditivas

Pesquisadores anteriores associaram dificuldades auditivas a infecções otológicas e baixa renda2,31. Apesar da maior parte das crianças brasileiras que frequentam escolas particulares serem de famílias com renda maior que as outras, a história de infecção auditiva prévia não foi significativamente diferente entre as crianças de escolas públicas e aquelas de escolas particulares (p = 0,2000, Teste Exato de Fisher). Contrário a outros estudos2,32, não encontramos associação entre as dificuldades auditivas das crianças e passado de infecções otológicas, provavelmente devido a diferenças de metodologia. Em nosso estudo, pesquisamos as queixas de dificuldade auditiva, não a perda auditiva em si, avaliada por ambos os estudos2,32 usando audiometria de tons puros, timpanometria e otoscopia. Também coletamos o número total de infecções otológicas que a criança teve durante sua vida, enquanto procurávamos dados específicos, tais como "otite média tratada com antibióticos", "mais de três episódios de otite média em um ano"2 e "otorreia"2,32. Holgers & Pettersson33 descobriram que o risco de perda auditiva subjetiva aumenta com o aumento da exposição ao ruído. Apesar de ter havido associação entre as dificuldades auditivas e história de exposição a ruído de alta intensidade em nosso estudo, parece haver uma variável confundente afetando a dificuldade auditiva, uma vez que qualquer número de exposições a sons altos (de nenhuma a mais de quatro) resultou em maior porcentagem de crianças com queixas auditivas.

Apesar dos sintomas auditivos, somente 10,4% das crianças haviam sido submetidas a exame audiométrico, sem associação estatística com o nível educacional dos pais (p = 0,2094) ou queixa de dificuldade auditiva por parte da criança (p = 1,000). Somente se a criança fosse capaz de descrever o teste auditivo, ela seria considerada como já tendo sido avaliada. Um exame auditivo prévio esteve associado à história de infecção auditiva (p < 0,0001) e queixa dos pais sobre a audição do filho (a) (p = 0,043). Não interrogamos os pais a respeito de porque eles não levaram o filho (a) a uma avaliação auditiva. Assim, não podemos dizer se os pais levaram os filhos para uma avaliação auditiva porque estavam muito preocupados com o comportamento auditivo de seus filhos, ou se expressaram sua preocupação para com a audição de seus filhos porque (talvez) os filhos haviam tido resultados ruins em exames auditivos solicitados por um profissional de saúde.

O teste simétrico mostrou significativas diferenças entre as respostas dos pais e de seus filhos. Na Tabela 5, percebemos que entre as 116 crianças que tinham dificuldades de escutar no silêncio, somente 45 (38,8%) tinham pais que estavam cientes de suas dificuldades. Apesar de termos encontrado 29,6% de crianças com alguma queixa auditiva (0,6% com problemas mais evidentes), não podemos diretamente transpor isso para perdas auditivas verdadeiras, uma vez que não avaliamos a audição deles; os valores preditivos de suspeita dos pais com relação a distúrbios auditivos ainda precisam ser discutidos4,34-36. Apesar desses pontos fracos, concordamos plenamente com Cone et al.4 que a preocupação de um cuidador com relação ao desenvolvimento da audição da criança seria razão suficiente para a solicitação de avaliação auditiva.

Zumbidos e AA

Estimativas de prevalência de zumbido e reduzida tolerância sonora depende das definições adotadas e da forma com a qual as perguntas são apresentadas à criança. Para ter uma melhor avaliação dos sintomas, tentamos identificar todas as percepções sonoras fantasmas e perturbações sonoras, e então classificá-las. Zumbido foi relatado por 28,4% das crianças e foi similar aos achados relatados por Mills et al.19 (29%) e Raj-Koziak et al.37 (33%), mas muito maior do que os achados relatados de 9,2% por Holgers17 (12%) e inferiores àqueles de Coelho et al.6 (37,5%) para a mesma faixa etária.

Percebemos significativa associação entre zumbido e a história de exposição a sons de alta intensidade6,17,38, que é preocupante, uma vez que há evidência de que o zumbido pode representar sinal precoce de perda auditiva induzida por ruído20.

Somente 51% dos pais relataram que seus filhos tinham zumbido. Assim, apesar do fato de que metade das crianças não falou com os pais que tinha zumbido, consideramos que nossos resultados trazem dúvidas com relação ao pressuposto de que é raro que crianças queixem de zumbido espontaneamente para seus pais19,37,39.

Em nossa amostra, 13 crianças (2,7%) relataram percepções auditivas fantasmas que foram compatíveis com AA (Tabela 3). É um valor menor do que aquele relatado por outros estudos22-24, mas ainda mostra que o sintoma não é incomum na infância. Somente uma criança apresentou AA verbalmente hostil, na qual ela queixou ouvir "seu falecido tio dando ordens a ela". Outra criança relatou que ouvia vozes conversando juntas, mas disse que não era possível compreender coisa alguma; era mais como um ruído de bolhas. Assim, exceto por uma criança, as outras AA nessa amostra foram predominantemente não ameaçadoras24,40.

Incômodo sonoro

Identificamos que quase a metade das crianças tinham algum incômodo sonoro. É claro que nossos dados não são suficientes para diagnosticar crianças com hiperacusia, nem com fonofobia, mas nossos resultados geralmente são praticamente os mesmos obtidos por Coelho et al.28, que avaliaram o Nível de Desconforto com a Intensidade (NDI) de crianças na mesma faixa etária. O estudo deles indicou que, entre as crianças com NDI, no mais baixo 5º percentil (abaixo de 90 dB NA), 42% se sentiam incomodadas por sons; 3,2% tinham hiperacusia e 9% tinham fonofobia. Nosso estudo também corrobora que há uma associação entre zumbido e o incômodo causado por sons (p = 0,0142) e que há maior ocorrência da queixa entre meninas (p = 0,0029), ambos encontrados previamente em estudos com crianças28 e adultos41.

Limitações

Uma limitação de nosso estudo foi a taxa de exclusão de 36,8%, que reduz a potência epidemiológica do estudo. Mesmo assim, a taxa de exclusão foi semelhante entre as escolas públicas e privadas, e não alterou a idade geral nem a distribuição por gênero.

A tentativa de encontrar possíveis relações entre queixas auditivas e o número de tipos de exposições ao ruído pode ter sido limitada porque crianças relataram exposição a ruídos e não temos dados sobre quão frequente ou infrequente foram tais exposições. É também possível que algumas crianças não se lembrem de haverem sido submetidas a um exame audiométrico.

Caminhos futuros

Para identificar as crianças que devem ser submetidas a uma completa avaliação otológica e auditiva, é importante ter o acompanhamento intenso dos pais e professores sobre os comportamentos auditivos e desenvolver programas de triagem auditiva. Além disso, precisamos estimular as crianças a falarem por si ou, pelo menos, precisamos começar a ouvir suas queixas e, se as crianças tiverem queixas auditivas, zumbido, AA ou se sentirem incomodadas com sons, algo precisará ser feito.

Também sugerimos a necessidade premente de programas de triagem auditiva e assistência à saúde auditiva de crianças em idade escolar. Idealmente, exames otológicos e auditivos deverão ser incorporados a consultas pediátricas de rotina, especialmente para crianças em idade de alfabetização.


CONCLUSÃO

Dificuldades em se entender o que as crianças dizem, reduzida tolerância sonora, zumbido e alucinações auditivas são queixas comuns de crianças. Apesar da relevância dessas queixas auditivas, a maioria dos pais não estava cientes das queixas de seus filhos, e mesmo quando estavam, a maioria das crianças não foi submetida a uma avaliação audiológica. Intolerância Sonora e AA deveriam ser consideradas em exames clínicos e audiológicos.


AGRADECIMENTOS

Esse trabalho recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp 2009/15825-0).A organização financiadora não teve qualquer participação no projeto e condução desse estudo; na coleta, análise e organização dos dados; ou na preparação, revisão, ou aprovação do manuscrito. Agradecemos muito a análise estatística conduzida por Sirlei Moraes.


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1. Doutora (Pesquisadora, Pós-Doutoranda da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas).
2. Doutora (Professora Assistente do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas).

Enderço para correspondência:
Keila Alessandra Baraldi Knobel
Rua Tessália Vieira de Camargo, nº 126, Cidade Universitária "Zeferino Vaz"
Campinas - SP. Brasil. CEP:13083-887
E-mail: keila.knobel@gmail.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da BJORL em 7 de dezembro de 2011. cod. 8938.
Artigo aceito em 15 de janeiro de 2012.
Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp 2009/15825-0).




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