Versão Inglês

Ano:  1979  Vol. 45   Ed. 1  - Janeiro - Abril - ()

Seção: Trabalhos Originais

Páginas: 51 a 56

 

MICROCIRURGIA TRANSNASAL: CORREÇÃO DA ATRESIA COANAL CONGÉNITA

Autor(es): Moacyr Saffer*
Amoni Ulisses Caldari**
Renato Heller***
Renato Kettner****

Resumo:
Os autores apresentam a utilização da microcirurgia para correção da atresia coanal congênita. É dado ênfase à segurança e rapidez do método.

INTRODUÇÃO

A primeira referência acerca da atresia coanal congénita data de 1755 feita por Roederer. Em 1851, Emmert descreveu uma tentativa cirúrgica, que consistiu na punção da obstrução óssea num menino de 7 anos, com a ajuda de um trocater curvo colocado através do nariz. Mais recentemente várias técnicas foram descritas, com diferentes vias de acesso. Em 1909, Brunk descreveu o método transpalatal e Uffenord introduziu o acesso transseptal. Em 1947, Wright, Shambaugh e Green utilizaram a via de acesso transantral. Em 1959 Beinfieid descreveu uma técnica trarisnasal. (11
Segundo a literatura a incidência situa-se em volta de um caso para 8.000 nascimentos. Acreditamos que essa incidência seja maior devido ao número de casos não diagnosticados ou não relatados. Não há predominância de sexo e há evidência de uma tendência familiar. 121

CONSIDERAÇÕES DIAGNOSTICAS

O diagnóstico não é difícil, desde que se pense nele. A atresia coanal por lâmina óssea constitui 90% casos. Os demais são membranosos.

Uma forte suspeita de atresia coanal existe, quando após provocar vasoconstrição da mucosa nasal; é impossível passar por um cateter fino através do nasofariínge. Deve ser feita uma palpação cuidadosa com uma haste fina de metal, envolta apropriadamente com algodão, introduzindo-a através da cavidade nasal. Essa manobra permite não só a localização da obstrução, como determina sua consistência. Uma resistência firme por tecido ósseo, poderá, ser facilmente distinguível de uma consistência flexível por atresia membranosa.

Cerca de 50% das crianças com atresia coanal tem outras anomalias mais sérias associadas, como cardiopatias congénitas, malformações da orelha, face, etc., 13,41.

CORREÇÃO CIRÚRGICA

Nos casos em que a obstrução é membranosa, uma simples perfuração intrariasal pode produzir boa ventilação. Entretanto, como na maioria dos casos a oclusão é devida a osso sólido, um procedimento cirúrgico mais definitivo é necessário.

O mais antigo procedimento cirúrgico feito às cegas por punção com trocater, ainda é usada em caráter de extrema urgência. Com esse método ocorrem muitas recidivas e há maior risco de acidentes.

Descreveremos aqui o método cirúrgico utilizado por nós em 4 (quatro) recémnascidos com atresia congênita bilateral. Todos os pacientes foram operados com menos de 12 horas de vida, em caráter de urgência. 0 objetivo dessa intervenção foi obtido em todos os casos, isto é, abertura de um orifício para passagem do ar através das fossas nasais em caráter de emergência, com o mínimo de traumatismo e o máximo de segurança. Três casos operados por essa técnica permanecem com essa abertura, serra sintomas de insuficiência respiratória. Um caso foi reoperado com 1 ano e 7 meses pela mesma técnica. 0 maior tempo de observação é de 5 anos e o menor é de 1 ano.

MÉTODO CIRÚRGICO

Utilizamos a via transnasal, com material de microcirurgia otológica e microscópio otológico.

Material:

1 - Caneta angulada com broca (broca 00 de diamante para evitar traumatismo de partes males).
2 - Um jogo de aspiradores angulados para ouvidos. 3 - Faca de incisão da membrana timpânica.
4 - Descolador de Rosen 45°.
5 - Espéculo auricular de Shea com braço fixador.



FIGURA 1 Material de microcirurgia otológica.



TÉCNICA CIRÚRGICA

Anestesia qeral com entubação endotraqueal. Posição de Rose (para amigdalectomia), com o cirurgião colocado na cabeceira do paciente.

Amplia-se a visão, com a retração da mucosa nasal com gotas de vasoconstritor tópico, o que também diminui o sangramento. Colocando-se o espéculo auricular de Shea, convenientemente fixado, e sob visão microscópica (10 aumentos) visualiza-se a obstrução nasal com facilidade, após aspiração das secreções mucosas sempre presentes.



FIGURA 2 Visualização da obstrução sob visão microscópica (10 aumentos).



Sob boa visualização pratica-se uma incisão em forma de cruz, com bisturi de perfuração, sobre a mucosa que recobre a lâmina ósseo atrésica. Com o descolador de Rosen, levanta-se a mucosa incisada e se expõe a lâmina óssea.

0 osso atrésico que obstrui a coaria é removido utilizando a caneta angulada com broca. Deve-se ter muito cuidado nesse tempo, para evitar manobras intempestivas sobre o nasofaringe da criança. 0 assoalho do nariz e o septo nasal posterior dão uma boa idéia de localização na fossa nasal, e servem como ponto de referência para o broqueamento.



FIGURA 3 Diagrama do broqueamento da lâmina óssea atrésica.



Após a ressecção da atresia óssea, os retalhos mucosos são espalhados sobre o orifício aberto (neo coana).



FIGURA 4 Orifício coanal aberto, espalhando-se os retalhos mucosos sobre o mesmo.



Terminada a abertura das duas coanas, procedemos a manutenção das mesmas. Coloca-se um tubo em forma de U, procedendo-se da seguinte maneira: Uma extremidade penetra na fossa nasal no sentido da ponta do nariz para o rinofaringe e volta no sentido contrário pela outra fossa nasal. Isto é feito com a ajuda de uma sonda de nelaton amarrada na sua extremidade (método de tamponamento posterior). O tubo fica com suas extremidades livres no orifício nasal anterior e uma abertura contornando o septo no rinofaringe.



FIGURA 5 - 0 tubo de polietileno colocado para manutenção dos orifícios coanais.



FIGURA 6 - Extremidades livres do tubo nos oríficios nasais anteriores.



Deve ser escolhido o maior diâmetro do tubo permitido pela abertura. As extremidades livres são suturadas entre si com 1 ponto de linho 000, evitando-se dessa forma o deslocamento do tubo. 0 tempo de permanência é de 6 a 8 semanas.


SUMMARY

The autoors presents a microsurgical tecnique to correct the congenital choanal atresia. It is safe one and rapid execution.

REFERÊNCIAS

1. BEINFIELD, H.H.: Bilateral Choanal Atresia in the Newborn. Arch. Otol., 73:659, 1961.
2. FERGUNSON, Charles F.: Congenital Choanal Atresia; W.B. Saunders Company; Pediatric Otolaryngology, Vol. II of Disorders of the Respiratory Tract in Children, Chapter Eighty-Six, Page 1002 , Philadelphia, 1972.
3. WINTER, Leo K.: Congenital Choanal Atresia. Anatomic, Physiological, and Therapeutic Aspects, Especially the Endonasal Approach Under Endoscopic Vision. Arch Otolaringol., VOL. 104, Page 72, Feb. 1978.
4. Neves Pinto, R.M. e De Farias, U.P.: Imperfuração Coanal Congênita e Síndrome de Apert. Rev. Bras. Otor., Vol. 43, n° 2, 1977




ENDEREÇO DOS AUTORES: Rua: Mostardeiro, 291 - cj. 302 . 90.000 - Porto Alegre/ R S

*Professor Assistente da Cadeira de O.R.L. da Fac. Católica de Medicina de Porto Alegre-RS
**Residente do 1° Ano de O. R. L. da Fac. Católica de Medicina de Porto Alegre/RS
***Residente do 2° Ano de O.R.L. do Hospital Ernesto Domelles - Porto Alegre/RS
****Residente do 1 ° Ano de O. R. L. do Hospital Ernesto Domelles - Porto Alegre/ R S Trabalho recebido para publicação em 4.1.79

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