ABORLccfRevista Brasileira de Otorrinolaringologia

Trabalho Clínico

Vertigem posicional paroxística benigna: Envolvimento concomitante de diferentes canais semicirculares
Benign paroxysmal positional vertigo: Concomitant involvement of different semicircular canals

Autores:

ricardo schaffeln dorigueto (Doutorando (UNIFESP-EPM)) Otorrinolaringologista

Fernando Freitas Ganança (Doutor em Medicina (UNIFESP-EPM)) Otorrinolaringologista

Maurício Malavasi Ganança (Docente (UNIFESP-EPM)) Otorrinolaringologista

Andreza Tomaz Silva (Mestre em Ciências (UNIFESP-EPM)) Fonoaudióloga

Heloísa Helena Caovilla (Docente (UNIFESP-EPM)) Fonoaudióloga

Palavras-Chave
Labirinto, Canais semicirculares, Vertigem, Nistagmo posicional

Resumo
Objetivo: Avaliar o envolvimento simultâneo de canais posterior e lateral, anterior e lateral ou posterior e anterior, do mesmo lado ou do lado oposto, em pacientes com vertigem posicional paroxística benigna (VPPB). Método: Foram analisados os prontuários de 2.345 pacientes com VPPB. Resultados: A VPPB monocanal ocorreu em 2.310 casos (98,5%), unilateral em 2.058 (89,1%) e bilateral em 252 (10,9%). A VPPB multicanal ocorreu em 35 casos (1,5%). O comprometimento simultâneo de canal posterior e lateral do mesmo lado (23 casos) ou em lados opostos (nove casos) ocorreu em 32 casos (91,4%). O comprometimento simultâneo de canal anterior de um lado e posterior do lado oposto ocorreu em dois casos (5,7%), e de canal anterior de um lado e lateral do lado oposto em um caso (2,9%). Conclusão: A VPPB multicanal é rara, unilateral na maioria dos casos e o comprometimento simultâneo de canal posterior e lateral é mais comum do que o de canal anterior e posterior e o de canal anterior e lateral.

Keywords
Labyrinth, Semicircular canals, Vertigo, Nystagmus

Abstract
Purpose: To evaluate simultaneous involvement of posterior and lateral, anterior and lateral or posterior and anterior semicircular canals, in the same side or on the opposite side, in patients with benign paroxysmal positional vertigo (BPPV). Method: The files of 2,345 patients with BPPV were analyzed. Results: The monocanal BPPV occurred in 2,310 cases (98.5%), unilateral in 2,058 (89.1%) and bilateral in 252 (10.9%). The multiple canals BPPV occurred in 35 cases (1.5%). The simultaneous involvement of posterior and lateral canals in the same side (23 cases) or in opposite sides (nine cases) occurred in 32 cases (91.4%). The simultaneous involvement of anterior canal of one side and the posterior canal of the opposite side occurred in two cases (5.7%), and the anterior canal of one side and lateral of the opposing side in one case (2.9%). Conclusion: The multiple canals BPPV is rare, unilateral in the majority of cases and the simultaneous involvement of posterior and lateral canals is more common than anterior and posterior canals or anterior and lateral canals.

 

Instituição: Universidade Federal de São Paulo. Escola Paulista de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana.

Suporte Financeiro: CAPES

INTRODUÇÃO

A vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) é um quadro clínico freqüente, caracterizado essencialmente por breves episódios de vertigem na mudança de posição da cabeça.

A presença indevida de partículas de carbonato de cálcio nos canais semicirculares desencadeia tontura durante a movimentação cefálica. Schuknecht (1969) e Schuknecht, Ruby (1973) denominaram de cupulolitíase o depósito destas partículas na cúpula do canal semicircular posterior. Hall et al (1979) propuseram que as partículas estariam flutuando livremente no canal semicircular posterior (ductolitíase) ao invés de aderidos à cúpula e Parnes e McClure (1992) durante cirurgia de oclusão do canal semicircular posterior, em dois indivíduos, observaram a presença dessas partículas dentro do canal1,2,3,4.

Segundo as informações de Herdman (1997), Baloh et al (1995), Ganança et al (2000), Herdman (2002) e Ganança et al (2006), as características do nistagmo de posicionamento à prova de Dix, Hallpike (1952) e do nistagmo posicional à inclinação lateral da cabeça a partir da posição supina, apontam o labirinto doente, o canal semicircular afetado e permitem distinguir entre ductolitíase e cupulolitíase5,6,7,9,10.

Todos os canais semicirculares podem ser acometidos pela VPPB, mas na maioria dos casos apenas um dos canais é afetado. Herdman, Tusa (2002), Korres et al (2002) e Ganança et al (2006) referiram que a VPPB acomete com maior freqüência o canal semicircular posterior, mas também pode envolver o canal lateral e o canal anterior. Os distúrbios unilaterais são muito mais comuns do que os bilaterais, segundo Ganança et al (2000).  Leopardi et al (2003) relataram que a VPPB multicanal é rara e geralmente acomete o mesmo labirinto. Segundo Lopez-Escamez et al (2005), o nistagmo múltiplo à pesquisa do nistagmo de posicionamento e posicional sugere lesões combinadas que afetam mais de um canal semicircular ao mesmo tempo8,11,9,7,12,13.

O envolvimento simultâneo de canal posterior e canal lateral foi encontrada na VPPB por De la Meilleure et al (1996) em 16 (5,6%) casos; Suzuki et al (1999), em oito (12,3%) de 65 pacientes; Valenzuela et al (2000), em apenas um (1,7%) de 59 pacientes; Mosca e Morano (2001), em 13 (13,3%) de 98 pacientes; Bertholon et al (2002), em um paciente, ipsilateral; Leopardi et al (2003), em 35 (4,4%) de 794 pacientes; Bertholon et al (2005), em três casos de VPPB pós-traumatismo craniano; Steenerson et al (2005), em três (0,3%) dos seus 923 pacientes, e Imai et al (2006), em oito casos de VPPB, comentando que em dois o comprometimento era do mesmo lado. Cakir et al (2006) verificaram simultaneidade do acometimento de canal lateral e canal posterior do mesmo lado em três (1,8%) de 169 pacientes14,15,16,17,18,12,19,20,21,22.

Treze (5,0%) dos 259 pacientes com VPPB de Macias et al (2000) evidenciaram comprometimento de múltiplos canais. Munhoz et al (2001) descreveram um caso com envolvimento de canal posterior de um lado e de canal anterior do lado oposto. Sete (10,0%) dos 70 casos de Lopez-Escamez et al (2005) apresentaram comprometimento combinado de canal lateral e canal posterior, de canal lateral e de canal anterior ou dos três canais. Lopez-Escamez et al (2006) relataram envolvimento de canal anterior de um lado e do canal lateral do outro lado em um paciente. Moon et al (2006), em um estudo multicêntrico com 1692 pacientes, observaram 84 casos (5,0%) com dois ou mais canais envolvidos, sendo mais comum a combinação do comprometimento de canal semicircular posterior e lateral, encontrada em 67(79,8%) dos 84 casos; não mencionaram quais as outras combinações e prevalência23,24,25,13,26.

O interesse por esta pesquisa surgiu devido à observação de nistagmo de posicionamento e posicional, indicando o envolvimento simultâneo de diferentes canais semicirculares em pacientes com VPPB e pela escassez de informações específicas ou detalhadas na literatura.

O objetivo do presente estudo é avaliar o envolvimento simultâneo de canais posterior e lateral, anterior e lateral ou posterior e anterior, do mesmo lado ou do lado oposto, em pacientes com vertigem posicional paroxística benigna.

 

  MÉTODO

Esta pesquisa foi realizada sob supervisão XXXXXXXXXXXXXXXXXXXX, tendo sido aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa desta instituição (protocolo número 01363/06).

Para a seleção da casuística, foram analisados os prontuários de pacientes com diagnóstico de VPPB realizado pelo otorrinolaringologista, examinados de janeiro de 1999 a julho de 2006.

Fizeram parte da amostra, pacientes com hipótese diagnóstica de VPPB, baseada no relato de episódios de tontura rotatória à mudança da posição da cabeça, ao deitar-se para um lado ou para os dois lados, ao levantar-se ou ao olhar para cima, com ou sem náuseas e vômitos e presença de nistagmo de posicionamento e/ou posicional sugestivos de acometimento concomitante dos canais semicirculares posteriores e lateral, anterior e lateral ou posterior e anterior, do mesmo lado ou do lado oposto, com latência, vertigem, paroxismo e fatigabilidade.

A VPPB foi classificada em monocanal unilateral, quando apenas um canal semicircular (posterior, lateral ou anterior) estava comprometido em um dos labirintos e monocanal bilateral, quando o mesmo canal estava comprometido nos dois labirintos.

A VPPB foi classificada em multicanal unilateral, quando pelo menos dois canais semicirculares diferentes (posterior, lateral ou anterior) estavam comprometidos em um dos labirintos e multicanal bilateral, quando pelo menos dois canais semicirculares diferentes estavam comprometidos nos dois labirintos.

Todos os casos foram submetidos às avaliações da função auditiva, por meio de audiometria tonal liminar, audiometria vocal e imitanciometria, e da função vestibular, por meio de avaliação do equilíbrio estático e dinâmico, pesquisa do nistagmo posicional e de posicionamento, e da nistagmografia computadorizada, incluindo calibração dos movimentos oculares, nistagmo espontâneo e semi-espontâneo, movimentos sacádicos fixos e randomizados, rastreio pendular, nistagmo optocinético, auto-rotação cefálica e prova calórica com ar, de acordo com os critérios de Caovilla et al (1999)27.

A avaliação do equilíbrio estático incluiu as provas de Romberg, com os olhos abertos e depois fechados. A avaliação do equilíbrio dinâmico incluiu as provas de marcha e de Unterberger-Fukuda, com os olhos abertos e depois fechados.

De acordo com Ganança et al (2000), a pesquisa de nistagmo e/ou vertigem de posicionamento foi efetuada à prova de Dix-Hallpike e a pesquisa de nistagmo posicional à inclinação cefálica lateral para a direita ou esquerda a partir da posição supina7.

A pesquisa de nistagmo e/ou vertigem de posicionamento, à prova de Dix-Hallpike, realizada com o uso de lentes de Frenzel, foram determinados o ducto semicircular e o labirinto acometidos: o paciente sentado em uma maca virou sua cabeça 45º para o lado a ser avaliado e, a seguir, com o auxílio do examinador, foi ajudado a deita-se rapidamente para trás, mantendo a cabeça pendente e inclinada 45º para o lado avaliado por aproximadamente 30 segundos; após a extinção da vertigem e do nistagmo de posicionamento, o paciente retornou à posição sentada, sendo a manobra repetida para o outro lado.

Vertigem e nistagmo posicionais foram pesquisados à movimentação lenta do paciente, com a ajuda do examinador. O paciente passou da posição sentada para supina, girando a cabeça para a direita e, depois, girando a cabeça para a esquerda, voltando finalmente para a posição sentada. O paciente permaneceu 30 segundos nas posições cefálicas inclinadas para a direita e para a esquerda.

De acordo com McClure (1985), Brandt et al (1994), Herdman (1997), Baloh et al (1995), no comprometimento dos canais verticais, a ductolitíase foi caracterizada pelo nistagmo com duração de até um minuto e a cupulolitíase, por nistagmo com duração de mais de um minuto; o ouvido afetado foi indicado pela direção do componente rotatório, observada no pólo superior do olho. Nistagmo de posicionamento vertical para cima e rotatório anti-horário caracterizaram o comprometimento do canal posterior do labirinto direito; vertical para cima e rotatório horário, o do canal posterior do labirinto esquerdo. Nistagmo de posicionamento vertical para baixo e rotatório anti-horário com o ouvido direito para baixo caracterizaram o comprometimento do canal anterior direito; vertical para baixo e rotatório horário com o ouvido esquerdo para baixo, o do canal anterior esquerdo; por outro lado, vertical para baixo e rotatório anti-horário com o ouvido esquerdo para baixo caracterizaram o comprometimento do canal anterior direito; vertical para baixo e rotatório horário com o ouvido direito para baixo caracterizaram o comprometimento do canal anterior esquerdo28,29,5,6.

Nistagmo de posicionamento exclusivamente rotatório anti-horário ou horário indicou comprometimento de canal posterior ou anterior.

Nistagmo posicional horizontal indicou comprometimento do canal lateral, que foi geotrópico, quando a inclinação cefálica lateral para a direita produziu nistagmo horizontal para a direita e a inclinação para a esquerda produziu nistagmo horizontal para a esquerda, ou ageotrópico, quando a inclinação cefálica lateral para a direita produziu nistagmo horizontal para a esquerda e a inclinação para a esquerda produziu nistagmo horizontal para a direita. O nistagmo geotrópico mais intenso com a orelha direita para baixo indicou ductolitíase do canal lateral direito; o nistagmo geotrópico mais intenso com a orelha esquerda para baixo indicou ductolitíase do canal lateral esquerdo; o nistagmo ageotrópico mais intenso com a orelha direita para baixo indicou cupulolitíase do canal lateral esquerdo; o nistagmo ageotrópico mais intenso com a orelha esquerda para baixo indicou cupulolitiase do canal lateral direito.

     A nistagmografia computadorizada (Meta-4 ENG, Micromedical Technologies, Inc., USA) incluiu uma calibração dos movimentos oculares, para que todos os exames fossem feitos em igualdade de condições e para a medida correta da velocidade da componente lenta do nistagmo. Nistagmo espontâneo foi pesquisado no olhar de frente, com os olhos abertos e fechados; nistagmo semi-espontâneo, no desvio não superior a 30 graus do olhar para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo; movimentos sacádicos, ao olhar para um alvo que se moveu com padrão fixo e randomizado; rastreio pendular, à observação visual do movimento de um ponto luminoso à frente do paciente, nas freqüências de 0,1, 0,2 e 0,4 Hz; nistagmo optocinético, no acompanhamento visual de um ponto luminoso em movimento à frente do paciente, com velocidade de 30 graus por segundo; a auto-rotação cefálica (Vorteq, Micromedical Technologies, Inc., USA), ao movimento da cabeça no plano horizontal e, a seguir, no plano vertical, nas freqüências de 1 a 5Hz, e o nistagmo pós-calórico, após uma estimulação térmica com otocalorímetro otocalorímetro a ar (Neurograff Eletromedicina Ind. e Com. Ltda - EPT - Brasil) com ar a 18 e 42 graus centígrados em cada ouvido separadamente, com os olhos fechados e a seguir abertos, de acordo com os critérios de Caovilla et al (1999)27.

O equipamento de nistagmografia computadorizada incluiu um padrão de normalidade em sua memória. Os resultados dos diversos parâmetros nas diferentes provas à vestibulometria de cada paciente foram automaticamente calculados e comparados com os limites normais em cada teste, permitindo a imediata verificação de anormalidades da função vestíbulo-ocular.

Foram excluídos os pacientes que haviam sido submetidos anteriormente a alguma manobra de reposicionamento, e também os que apresentaram sinais de comprometimento do sistema nervoso central ou de outra vestibulopatia concomitante.

Foi utilizada análise descritiva simples dos dados por freqüências absolutas e relativas para caracterização do envolvimento simultâneo de diferentes canais semicirculares.

    RESULTADOS

Foram analisados os prontuários de 2.345 pacientes com hipótese diagnóstica de VPPB, examinados de janeiro de 1999 a julho de 2006, que não haviam sido submetidos anteriormente a manobras de reposicionamento e não apresentavam sinais de comprometimento do sistema nervoso central ou de outra vestibulopatia concomitante.

Foram excluídos 126 casos submetidos anteriormente a manobras de reposicionamento, 85 com outra vestibulopatia concomitante e 13 com comprometimento do sistema nervoso central.

A VPPB monocanal foi encontrada em 2.310 casos (98,5%), sendo unilateral em 2.058 (89,1%) e bilateral em 252 (10,9%).

A VPPB multicanal foi encontrada em 35 casos (1,5%), do gênero feminino em 23 e do masculino em 12, com idade entre 28 e 84 anos (média de 56 anos).

A tabela 1 apresenta os canais semicirculares simultaneamente comprometidos e a sua prevalência unilateral ou bilateral, de acordo com a etiologia, nos 35 casos de VPPB multicanal.

A VPPB multicanal foi unilateral em 23 casos (65,7%) e bilateral em 12 (34,3%).

Traumatismo craniano foi considerado como fator etiológico em nove casos e não foi identificada uma causa nos demais 26 casos.

O comprometimento simultâneo de canal posterior e lateral por ductolitíase do mesmo lado ou em lados opostos ocorreu em 32 casos (91,4%), por traumatismo craniano em nove e idiopático em 23. Canal posterior e lateral estavam comprometidos do mesmo lado em 23 casos (65,7%), por traumatismo craniano em sete e idiopático em 16; canal posterior de um lado e lateral do lado oposto estavam envolvidos em nove casos  (25,7%), por traumatismo craniano em dois e idiopático em sete.

O comprometimento simultâneo por ductolitíase de canal anterior de um lado e posterior do lado oposto ocorreu em dois casos (5,7%), idiopático em ambos, e por ductolitíase de canal anterior de um lado e lateral do lado oposto em um caso (2,9%), idiopático.

 

Tabela 1. Número e porcentagem de casos de vertigem posicional paroxística benigna multicanal de acordo com a etiologia

 

 

VPPB

Etiologia

Idiopática

Pós-traumática

Total

N

%

N

%

N

%

CPD + CLD

9

25,7

5

14,2

14

40,0

CPD + CLE

4

11,4

1

2,9

5

14,2

CPE + CLE

7

20,0

2

5,7

9

25,7

CPE + CLD

3

8,5

1

2,9

4

11,4

CPD + CAE

1

2,9

-

-

1

2,9

CPE + CAD

1

2,9

-

-

1

2,9

CAE + CLD

1

2,9

-

-

1

2,9

Total

26

74,3

9

25,7

35

100,0

 

Legenda:

VPPB: vertigem posicional paroxística benigna

 

CPD: canal posterior direito

CPE: canal posterior esquerdo

CAD: canal anterior direito

CAE: canal anterior esquerdo

CLD: canal lateral direito

CLE: canal lateral esquerdo

 

   DISCUSSÃO

O envolvimento simultâneo de diferentes canais semicirculares do mesmo lado ou do lado oposto em pacientes com VPPB tem sido mencionado na literatura, mas as informações são escassas, devido principalmente à raridade deste achado, realçada por Leopardi et al (2003)12.

A forma multicanal unilateral ou bilateral foi encontrada em 1,5% dos nossos casos de VPPB, envolvendo concomitantemente dois canais semicirculares diferentes. Macias et al (2000) e Moon et al (2006) evidenciaram comprometimento simultâneo de dois ou mais canais em 5,0% dos casos, e Lopez-Escamez et al (2005) em 10,0%23,26,13.

A VPPB multicanal foi unilateral em 23 casos (65,7%) e bilateral em 12 (34,3%), achado concordante com Leopardi et al (2003), que referiram a predominância unilateral da VPPB multicanal. Bertholon et al (2002) relataram a ocorrência ipsilateral em um paciente, Imai et al (2006) em 25% dos casos e Cakir et al (2006) em 1,8%12,18,21,22.

Em nossa casuística, traumatismo craniano foi considerado como fator etiológico em nove casos (25,7%) e nos demais 26 casos (74,3%) não foi identificada uma causa. Bertholon et al (2005) comentando que sob o ponto de vista fisiopatológico, é fácil conceber que um trauma craniano poderia induzir ao envolvimento concomitante de canais semicirculares diferentes, descreveram três casos de VPPB multicanal pós-traumatismo craniano. De acordo com estes autores, quanto maior o número de canais envolvidos, especialmente quando o acometimento é bilateral, maior é a possibilidade da origem traumática. Lopez-Escamez et al (2005) referiram a etiologia traumática em dois casos (14,0%)18,25.

Ductolitíase concomitante do canal posterior e do canal lateral foi observada em 32 dos nossos casos e do canal anterior em três; cupulolitíase não foi identificada em nenhum caso. Um caso de VPPB multicanal com cupulolitíase do canal anterior de um lado e de ductolitíase de canal posterior contralateral foi descrito por Munhoz et al (2001). Imai et al (2006) descreveram um caso clínico de ductolitíase de canal posterior e lateral do mesmo lado e outro com ductolitíase do canal posterior e cupulolitíase do canal lateral ipsilateral24,21.

O comprometimento simultâneo de canal posterior e lateral do mesmo lado ou em lados opostos ocorreu em 32 casos (91,4%), por traumatismo craniano em 9 e idiopático em 23. Os canais posterior e lateral estavam comprometidos do mesmo lado em 23 casos (65,7%), por traumatismo craniano em sete e idiopático em 16; canal posterior de um lado e lateral do lado oposto estavam envolvidos em nove casos (25,7%), por traumatismo craniano em dois e idiopático em sete. O envolvimento simultâneo de canal posterior e canal lateral foi citado por De la Meilleure (1996) em 5,6% dos casos, Suzuki et al (1999) em 12,3%, Valenzuela et al (2000) em  1,7%, Mosca e Morano (2001) em 13,3%, Bertholon et al (2002) em um paciente, Leopardi et al (2003) em 4,4%, Bertholon et al (2005) em três casos, Steenerson et al (2005) em 0,3%, Imai et al (2006) em oito casos de VPPB, Cakir et al (2006) em 1,8% e Moon et al (2006) em 79,8%14,15,16,17,18,20,21,22,26. 

O comprometimento simultâneo de canal anterior de um lado e posterior do lado oposto ocorreu em 5,7%, idiopático em ambos, e de canal anterior de um lado e lateral do lado oposto em 2,9%, idiopático. Munhoz et al (2001) descreveram um caso com envolvimento de canal anterior de um lado e de canal posterior do lado oposto. Lopez-Escamez et al (2006) relataram envolvimento de canal anterior de um lado e do canal lateral do outro lado em um paciente24,25.

Diante do que pudemos observar, a forma multicanal da VPPB é rara e unilateral na maioria dos casos. O comprometimento concomitante por ductolitíase de canais posterior e lateral é mais freqüente do que o de canais anterior e posterior e o de canais anterior e lateral. O reconhecimento da VPPB multicanal é essencial, não apenas para a devida caracterização diagnóstica desta variante da afecção, como também para selecionar de modo adequado as manobras terapêuticas indicadas de acordo com os canais comprometidos simultaneamente.

  CONCLUSÃO

A vertigem posicional paroxística benigna multicanal é rara, unilateral na maioria dos casos e o comprometimento simultâneo por ductolitíase de canal posterior e lateral é mais comum do que o de canal anterior e posterior e o de canal anterior e lateral.

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