Artigo publicado no Caderno de Debates da RBORL:
Vol.70 ed.1 de Janeiro-Fevereiro em 2004 (da página 09 à 14)
Autor: SINTONIA
Reportagem
Censo de ORL a serviço dos jovens otorrinolaringologistas
Muitos médicos otorrinolaringologistas reclamam dos entraves por que passam no inicio da carreira até alcançarem uma estabilidade profissional. Alguns convênios médicos só cadastram otorrinos após três anos de finalização da residência médica, dificultando ainda mais a vida do jovem especialista. O alto preço dos equipamentos e a concorrência também atrapalham o início da carreira. Uma das ferramentas que pode facilitar a Cida de quem está começando na especialidade é o Censo da SBORL, realizado em 2002. os dados contidos na pesquisa orientam o jovem otorrino sobre as áreas que já estão saturadas e aquelas que despertam para um futuro transmissor. Os detalhes mostram também a relação população-médico otorrino nos municípios do país. Com esse instrumento em mãos, os jovens podem estruturar sua carreira, escolhendo a área e as regiões com menos concorrência.

A atual distribuição de profissionais de ORL pelo território brasileiro segue a tendência do poder econômico do país. Região mais rica do país, o Sudeste concentra o maior numero de otorrinolaringologista brasileiros (3.745), com 64,2% dos profissionais. A região Sul vem em seguida, com 16%, abrangendo 934 médicos da especialidade. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a situação é outra. Juntas chegam a apenas 20% do número de otorrinos. A relação entre número de médicos e população também é mais baixa de que nos Estados mais ricos. No Sudeste existe 1 otorrino para cada 14. 394 pessoas. No Sul, 1 para 15.454. No Norte, esse número despenca: 1 para cada 38.138 pessoas. Ao todo apenas 497 municípios brasileiros - dos 5.507 existentes - possui atendimento do profissional do ORL.

A análise da pesquisa mostra que existe uma necessidade de melhorar a distribuição dos profissionais pelo território nacional. Também fica evidente que algumas áreas já estão sobrecarregadas, ou seja, não existe mercado de trabalho, por causa do número excessivo concentrado em determinada localidade. Esse é o caso de Campinas, por exemplo. Apesar de ser uma cidade com quase 1 milhão de habitantes, o terceiro maior município de São Paulo possui uma média de 1 otorrino para cada 7.065 habitantes, com 137 profissionais de ORL atuando na cidade. Situação pior ainda é encontrada em Porto Alegre. A capital gaúcha tem uma média de 1 otorrino para cada 4.856 pessoas. Mesmo capitais como São Paulo, Rio de janeiro e Belo Horizonte também já demonstram números de saturação.

A "densidade" ideal

Para o coordenador do Censo, o otorrinolaringologista Roberto Eustáquio Guimarães, o ideal seria que o jovem profissional procurasse uma cidade com uma proporção acima de 1 para 30 mil pessoas. "Nessas localidades, o otorrino será mais útil e, por causa disso, mais respeitado", diz. Roberto ilustra a situação: "Um otorrino em São Paulo é como uma formiga em um formigueiro, mas se ele for para um local sem otorrinos, ele passa a ser importante. Meu conselho é: caia fora das grandes cidades!"

Os dados do Censo comprovam as palavras do especialista. Na maioria das capitais brasileiras, fica evidenciado que o mercado já está saturado. No entanto, ao analisarmos os números, percebemos algumas brechas, principalmente em cidades próximas às capitais, com um grande excedente populacional, que não possuem nenhum otorrino sequer. Esse é o caso de Várzea Grande (MT), Ananindeua (PA), Camaçari (BA), Ribeirão das Neves (MG), além de Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos e Taboão da Serra, todas em São Paulo. Todos esses municípios localizam-se em regiões metropolitanas e possuem mais de 150 mil habitantes.

Nem as regiões turísticas escapam da "fuga" dos otorrinolaringologistas. Cidades como Ouro Preto (MG), com suas riquezas coloniais, Porto Seguro (BA), com seu agito, e Ubatuba, com suas belezas naturais, chamam atenção dos profissionais da área, já que nenhuma dessas localidades conta com o serviço otorrinolaringológico, segundo o Censo realizado pela SBORL.

Há também grandes cidades que são atendidas por apenas 1 profissional em ORL. Os casos mais "graves" localizam-se na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. O município de Duque de Caxias, com uma população de 770 mil habitantes, só possui um otorrino, o que transforma a cidade na de pior média de atendimento do país. A segunda pior também faz parte da Baixada Fluminense. Em Belford Roxo, há apenas 1 otorrino para uma população de 433.120 pessoas.

O censo também levantou dados importantes sobre as áreas de atuação da Otorrinolaringologia. Com esses números é possível traçar um painel da ORL no Brasil. O setor que mais atrai os profissionais da área no país é a Rinologia, com 21,2% dos médicos. Em segundo lugar, está a Otologia, com 15,2%. A ORL Pediátrica vem em terceiro no ranking, montado a partir dos dados do Censo, com 13,7%. A Laringologia foi apontada por 3,9% dos otorrinos; Cirurgia de Cabeça e Pescoço, por 2,9%; Cirurgia Estética da Face, por 1,3% e Cirurgia da Base do Crânio, por 0,2% dos especialistas. Cerca de 30% dos entrevistados marcaram mais de uma área de atuação e 10% manifestaram que atuam em outras áreas.

Cirurgia Estética em alta

Esses dados mostram que existem áreas da ORL que já estão saturadas. Mas também deixam claro que ainda há muito que investir em outras sub-especialidades. A Cirurgia Estética da Face, por exemplo, é uma das sub-especialidades onde existe uma grande tendência de crescimento em um futuro próximo. Por causa disso, a própria SBORL está investindo na criarão da Academia de Cirurgia Plástica da Face e na realização de vários cursos para residentes pelo Brasil. A idéia é capacitar os jovens profissionais para atuarem nessa área, aumentando o contingente de otorrinos em cirurgia plástica. "Só assim poderemos brigar com mais força pelos nossos diretos profissionais", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Rinologia e Cirurgia Plástica da Face, José Antônio Patrocínio.

A situação que envolve a classe médica nos últimos anos também está refletida na pesquisa que revela as médias de remuneração dos especialistas otorrinos. Desde 1996, sem aumentos nos honorários médicos, os profissionais que dependem das operadoras de planos de saúde tiveram perdas salariais acentuadas nos últimos anos. Cerca de 21 % dos otorrinolaringologistas recebem até R$ 5 mil, lembrando que essa remuneração é insuficiente para comprar equipamentos, montar e manter um consultório.

De acordo com a pesquisa, 42% dos médicos ganham entre R$ S mil e R$ 10 mil. A remuneração de R$ 10 mil a R$ 20 mil engloba 27% dos médicos pesquisados. Apenas 8% dos otorrinolaringologistas brasileiros tem faturamento superior a R$ 20 mil mensais. Dois por cento dos médicos não informaram a renda mensal.

Quanto á formação, 77% dos especialistas não são titulados. Apenas 13% fizeram o mestrado e só 7% têm título de doutor. Dos otorrinos que responderam as perguntas do Censo da SBORL, 2% concluíram a livre docência e só 1% tem pós-doutorado.

Para o diretor da Clínica Otorrino Center, de Belo Horizonte, Manuel Luís Cataldo, os dados do Censo 2002 são importantes porque provam que existe uma má distribuição dos profissionais pelo país. "Essa má distribuição é reflexo da situação sócio-econômica. Se formos fazer uma superposição de curvas da distribuição dos especialistas em relação a distribuição de renda, você vai ver que existe uma superposição", afirma.

Roberto Eustáquio, por sua vez, chama a atenção para as áreas onde os otorrinos encontram maior mercado: Cirurgia Estética Facial, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Cirurgia de Base do Crânio e Laringologia. "Rinologia e Otologia já estão com sua atuação máxima", enfatiza.

No caminho certo

No terceiro e último ano da residência médica em Natal, o médico Rogério Wanderley Pinto Brandão está dando uma atenção especial para os números do Censo. Rogério esteve recentemente em São Paulo, participando do Fórum de Residentes, que ocorreu no auditório da Shering-Plough. Na ocasião, Roberto Eustáquio apresentou parte do levantamento da pesquisa. "Acredito que estou indo no caminho certo", diz o futuro especialista. Rogério quer desenvolver trabalhos relacionados à área de Rinologia, mas com um enfoque maior em Cirurgia Plástica da Face (nariz) e na Cirurgia Endoscópica. "São áreas que possuem tendência de crescimento", aposta.

Segundo ele, é importante que os residentes em ORL se preocupem com suas escolhas para não comprometer o sucesso do trabalho no futuro. "E importante ter um senso crítico bastante apurado para saber o que é melhor para mim". O médico também vai fugir dos grandes centros, como aconselha o coordenador do Censo. "Quero me estabelecer em Campina Grande e levar para o interior da Paraíba toda a modernização da técnica cirúrgica em Otorrinolaringologia."

De acordo com o Censo de 2002, Roberto terá toda a chance para alcançar o sucesso profissional. Campina Grande, o principal município da Paraíba depois da capital João Pessoa, possui uma média de 1 otorrino para cada 29.505, bem próximo da "densidade" ideal sugerida por Roberto Eustáquio, de 1 médico ORL para 30 mil pessoas.


Proporção de otorrino por habitante em algumas capitais



Cidades com densidade baixa



Algumas cidades sem otorrinos (com mais de 50 mil hab)


Cidades com grande densidade


Fonte: Censo de ORL 2002

REPORTAGEM ELABORADA PELA SINTONIA
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