ISSN 1806-9312  
Quarta, 17 de Julho de 2024
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919 - Vol. 36 / Edição 1 / Período: Janeiro - Abril de 1970
Seção: - Páginas: 31 a 33
Audiometria Cortical*
Autor(es):
Dr. Rodrigo de Souza Spinola**

Consiste a audiometria cortical num método objetivo de exame através do qual podemos determinar o limiar auditivo daqueles pacientes nos quais é impossível efetuar-se uma audiometria convencional. Assim é que podemos testar crianças desde o nascimento, retardados mentais (crianças e adultos), pacientes com perda auditiva funcional e afásicos.

Baseia-se a audiometria cortical no aparecimento de um potencial na cortex, como decorrência de um estímulo auditivo súbito. Êste potencial, que é melhor recolhido no vertex, será chamado, aceitando sugestão de Bancaud, Bloch e Paillard, de potencial V. É o potencial V uma resposta lenta, difusa e não específica da cortex a quase todo estímulo sensorial (auditivo, táctil, visual e somato sensorial) feito de maneira súbita. Constitui-se de muitas componentes com diferentes períodos de latência, sendo as mais estáveis as seguintes: 1.º) unta pequena deflexão positiva P1 com período de latência fique varia entre 50 e 70 milissegundos; 2.º) uma deflexão negativa N1, com período de latência em tôrno de 100 milissegundos ; 3.º) uma outra deflexão positiva P2 cujo período de latência oscila entre 175 e 200 milissegundos ; 4.º) uma onda negativa N2, com período de latência de aproximadamente 300 milissegundos. Próximo do limiar, o período de latência de algumas das componentes torna-se mais longo. A deflexão inicial P1 aparece mais freqüentemente quando se emprega o estímulo táctil.

Não obstante êste potencial já fôsse conhecido há bastante tempo - P. A. Davis o havia descrito em 1939 - apenas com o advento dos computadores, pôde êle ser extraído da atividade cerebral espontânea e, desta forma, utilizado sistemàticamente na determinação dos limiares auditivos. Como sabemos, a atividade cerebral se faz ao acaso o mesmo não acontecendo com o potencial que está relacionado com o estímulo auditivo e apresenta um determinado período de latência de tal forma a permitir que seja estocado pelo computador, enquanto que o potencial resultante da atividade cerebral vai sendo rejeitado. No fim da programação (60 estímulos) apenas o potencial V será registrado.

Um aparelho foi especialmente construido para êste tipo de teste e consta essencialmente de cinco unidades a saber: 1.º) um audiômetro convencional; 2.º) um programador; 3.º) um eletroencefalógrafo; 4.º) um computador e 5.º) um registrador. O audiômerro, sob o contrôle do programador, automàticamente efetua uma série de estímulos (com intervalo e duração regulares) através de um fone ou alto-falante. O aparelho automàticamente processa o sinal elétrico que é captado por eletrodos adequadamente colocados na cabeça do paciente, sendo que o eletrodo ativo se situa no vertex, o de referência no lóbulo de uma das orelhas e o terceiro eletrodo (que é o terra) na testa. O computador coleta e analisa aquela porção de eletroencefalograma que se segue a cada estímulo e no fim de cada programação, uma onda, que representa a média das respostas aos estímulos, é inscrita num gráfico. A presença de amplitudes e períodos de latência característicos nos dão a indicação que não estamos diante de artefatos mas sim diante de uma resposta da cortex provocada pelo estímulo sonoro. O sinal recolhido pelos eletrodos é inicialmente ampliado por um eletroencefalógrafo com dois canais, um dos quais se conecta com o computador, enquanto que o outro canal se conecta com o registrador (sem passar pelo computador) de tal forma que uma das penas inscreverá a atividade espontânca cortical, sendo que outra das penas do registrador que está em contato com o computador inscreverá sómente o potencial V o qual já foi separado da atividade cerebral espontânea.

Procedimento

O paciente a ser testado fica situado no interior da câmara acústica. A seguir - os eletrodos são colocados nas posições acima referidas, isto é, no vertex (eletrodo ativo), no lóbulo de uma das orelhas (eletrodo de referência) e finalmente o terceiro eletrodo (terra) colocado na testa. Uma pasta é usada para melhorar o contato dos eletrodos. Êstes se conectam a um preamplificador (que também está no interior da câmara acústica) ligado por sua vez ao eletroencefalógrafo. Os fones são então ajustados convenientemente em ambas as orelhas.

A seguir fazemos a nossa programação. No momento estamos usando 60 estímulos com um intervalo de um segundo entre um estímulo e o outro, sendo que a duração de cada estímulo é de 200 milissegundos. Iniciamos o teste pela freqüência de 1000 Hz e com a intensidade de 210 dB nível de audição padrão ISO 1964. Se obtivermos resposta vamos gradativamente diminuindo a intensidade de 20 dB até o ponto em que não conseguimos identificar o nosso potencial V. O mesmo procedimento é feito para as demais freqüências. De um modo geral, testamos as freqüências que interessam a palavra falada, isto é, desde 500 Hz até 3000 Hz. Eventualmente outras freqüências poderão ser restadas. O teste pode ser feito em cada orelha, ou então, em ambas.

Indicação da audiometria cortical

Sabemos que quanto mais precocemente determinarmos uma disacúsia numa criança, tanto melhor para a sua reabilitação. Nisto a audiometria cortical leva vantagem, pois, além de nos dizer se a criança é disacúsica nos dá o grau desta disacúsia. Retardados mentais, simuladores e pacientes com perda auditiva funcional também podem ser testados com a audiometria cortical.




* Conferência realizada durante o XVIII Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia - P. Alegre.
** Assistente Pesquisador da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de S. Paulo.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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