ISSN 1806-9312  
Sexta, 24 de Maio de 2024
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589 - Vol. 5 / Edição 5 / Período: Setembro - Outubro de 1937
Seção: - Páginas: 431 a 434
ABCESSOS DA LINGUA
Autor(es):
DR. ANTONIO BERENGUER (1)

Trago à apreciação dos colegas de especialidade estas duas observações, principalmente por se tratar de casos de relativa raridade em clínica.

Estou com Mangabeira-Albernaz quando diz que a lingua, achando-se situada em um dos locais do organismo em que a riqueza microbiana é tão grande, devia ser um órgão sujeito a infecções de toda natureza, sobretudo as piogênicas, o que na realidade não acontece na prática, pois elas são até certo ponto de observação invulgar.

Durante 5 anos de permanência na Clinica Oto-rino-laringológica da Bahia e quási 5 anos de clínica nesta vasta zona, sómente agora nos foi dado encontrar êstes dois casos, que podemos enquadrar, um entre os abcessos agudos da língua e o outro, dada a sua lenta evolução, entre os abcessos crônicos.

Não quero trazer aos colegas um estudo minucioso dos abcessos da língua, pois já o foi feito pelo ilustrado colega acima citado, e sim as singelas observações por mim encontradas e que, dada a sua raridade, achei conveniente trazer a lume.

Ainda estou com o supra dito colega nas causas mais comuns na formação do abcesso do corpo da língua, pois, pelo menos nos dois casos que tenho oportunidade de apresentar, são francamente produzidos por traumatismo, como verão nas observações que se seguem.

Quanto à localização dos mesmos, estou ainda com Mangabeira-Albernaz, em oposição à chamada - "lei de Killian", em que os abcessos do corpo da língua ou se formam sobre um dos bordos linguais ou na espessura de uma das suas metades, como abcesso intersticial que é, e que podemos provar pelos dois casos que apresentamos, um francamente do bordo direito da língua como claramente poderão verificar pela gravura que apresento e o outro em plena espessura de uma das suas metades, e que no caso é a esquerda.

Acompanhando a universal classificação dos abcessos linguais, apresento os meus dois casos que podemos enquadrar perfeitamente um entre os abcessos cronicos (o primeiro) e o outro entre os agudos (o segundo), de acôrdo com a prolongada ou rapida evolução, respectivamente.

O diagnóstico é relativamente fácil, pelo menos nos dois casos que se me apresentaram, como poderemos vêr, pela gravura de um deles que apresento.

Penso não podermos nunca confundir o abcesso com uma glossite super-aguda, como tambem tive oportunidade de vêr em minha clínica. Esta, embora, apresentasse um quadro realmente impressionante, cedeu com relativa facilidade por meio de gargarejos quentes e uma empôla de propidon.

A terapêutica tem que ser forçosamente e cirúrgica, pois, como verão nos meus casos, tentei a terapêutica médica sem resultado satisfatório.

Aconselho a abertura larga dos mesmos, tendo o cuidado de verificar a anatomia regional, principalmente no meu segundo caso, para não lesar os vasos linguais.

Como auxiliar da terapêutica cirúrgica, principalmente por se tratar de intervenção de curta duração, tive a idéia de empregar as injeções endovenosas de evipan sódico da Casa Bayer, cujo resultado foi muito satisfatório, pois a anestesia por infiltração é bem desagradavel em um orgão muito sensível, como é a língua, principalmente em pleno período inflamatório.

Eis, um dos pontos para que chamo a atenção dos colegas. Estou certo, ficarão satisfeitos com a forma de anestesia, porque nada sofrerá o paciente, e ha a grande vantagem do mesmo ficar sentado, clareando de modo preciso o campo operatório e evitando a descida de sangue para a faringe.

1.ª Observação. Abcesso cronico do corpo da lingua.

Vespaziano N., 31 anos, pardo, brasileiro, lavrador, casado. Ficha oto-rino-laringo-estomatológica N.° 1709.

Apresentou-se a consulta em 8-12-936, queixando-se de que ha cêrca de 2 mêses mais ou menos, trabalhando na roça, encontrou uma casa de abelhas, e, que ao colocar um dos favos na bôca, sentiu uma forte picada de um destes insetos, o que foi confirmado pela expulsão do mesmo. Oito dias após, sentiu um caroço na língua, do tamanho de uma ervilha, que doía um pouco.

Ha 3 dias atrás, sentiu que este machucou o supra-dito caroço e no dia seguinte já quasi não podia fechar a bôca.

Abundante salivação viscosa. Febre 37°,8.

Ao exame, nota-se a língua bem aumentada de volume na sua metade esquerda e uma ligeira flutuação ao lado esquerdo do septo lingual, ha mais ou menos 3 centímetros da ponta da língua. Prescrevi-lhe gargarejos quentes e apliquei-lhe 3 c.c. de protinjectol, em nada adeantando.



Fig. 1.



Obs. n.° 2

Abcesso da língua, cujo fóco de flutuação se acha no bordo direito.


No dia seguinte fiz anestesia por infiltração pela escurocaina e pratiquei uma abertura larga do abcesso, dando escoamento a pequena quantidade de pús inodoro.

O doente queixou-se muito das picadas da agulha ao praticar a anestesít. Dois dias após a abertura do abcesso, dava alta ao doente, inteiramente curado.

2.ª Observação. Abcesso agudo do corpo da língua.

Guido Q., 26 anos, branco, italiano, lavrador, casado. Ficha Oto-rino-laringo-estomatológica N.° 1881.

Apresentou-se em nosso consultório queixando-se de que há 8 dias, comendo peixe sentiu que uma espinha lhe havia picado a língua. Dois dias após, sentiu fortes dores no meio da língua e, com mais dois dias, não mais suportava as dores e a bôca não podia mais se fechar devido ao grande volume da língua.

Febre de 38°,9. Grande quantidade de secreção salivar se escoava pelas comissuras labiais.

Após o emprego de bochechos com sôro bem quente e uma injeção de propidon, volta ele ao consultório, no dia seguinte, no mesmo estado, queixando-se de nada poder engulir.

Lembrando-me das queixas do doente anterior sobre as injeções para infiltração anestesica, tive a idéia de recorrer as injeções endovenosas de evipan sódico de 0.50 centgrs., cujo resultado me surpreendeu, pela completa anestésia e o bem-estar para o doente.

O paciente ficou sentado em uma cadeira de curativos, e quando entrou em sono profundo coloquei o abre-boca de Whitehead, fiz a tração da língua com uma pinça em coração e com um fino bisturi pratiquei a abertura do abcesso, alargando-o em seguida com uma pinça de Kocher, abrindo-a.

A incisão deu saída a regular quantidade de pús, fétido, bem diferente do do caso anterior. Coloquei uma mecha de gaze rivanolada. Nos dias que se seguiram, novos curativos e, no quarto dia após a intervenção, saía o doente completamente curado.

Como se vê, as duas pequenas observações que trago a lume, nada têm de extraordinário, a não ser quanto à relativa raridade e ao emprego do evipan sódico, como anestésico ideal para casos tais.

BIBLIOGRAFIA

1) - TESTUT-LATAR)ET - (8.ª ed.) - Anatomie Humaine.
2) - VALÉRIO, AMÉRICO - "Dois casos de abcesso da língua". - Brasil Médico. - 11 de Outubro de 1924.
3) - MANGABEIRA-ALBERNAZ, P. - "O abcesso da língua'. - "Brasil Médico. 28-Abril-1934. N.º 17. - Pag. 289.
4) - DUNET et MICHON, - cit. por Lécène et Lériche - Therapeutique Chirurgicale. Vol. II. - Pag. 123.
5) - MORAL, HANS. Colab. no Tratado "La escuela odontológica Alemanha". Tomo 1. - Enfermidades quirurgicas de la Boca, Dientes Y Maxilares. - Pag. 608. Trad. hespanhola da 4.ª Ed. Alemã. 1936.

RÉSUMÉ

Dr. Antonio Berenguer. "Les abcés de la langue".

L'Auteur rapporte deux observations, une d'abcés aigu et l'autre d'abcés chronique de la langue.

L'A., après rappeler la relative rareté de ces tas, est d'avis qu'on doit ouvrir largement l'abcés.
Il condamne l'anesthésie locale par infiltration et montre les avantages de l'anesthésie générale par la voie veineuse avec l'evipan sodique. Bayer.




(1) Chefe da clinica oto-rino-laringo-estomatologica da Santa Casa de Mirasol. Estado de S. Paulo.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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