ISSN 1806-9312  
Sexta, 24 de Maio de 2024
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587 - Vol. 5 / Edição 5 / Período: Setembro - Outubro de 1937
Seção: Trabalhos Originais Páginas: 405 a 418
A PROPOSITO DE ALGUNS CASOS DE MIIASE NASAL (1)
Autor(es):
DR. CAPISTRANO PEREIRA (2)

E' objecto de nossa presente comunicação o estudo clinico de três casos de miíse nasal, observados em doentes que foram internados em nosso serviço no Hospital São João Baptista, em Nictheroy, e a proposito dos quais aproveitamos para focalizar o assunto em questão.

Em paiz de clima quente como o nosso, situado entre o Equador e o Tropico de Capricórnio em sua quasi totalidade, devem as miíases particularmente interessar e, si rebuscarmos a literatura medica nacional, aí encontraremos a afirmativa da asserção anteriormente feita.

De facto, é nos paizes tropicais que mais observados tem sido os casos desta infestação parasitaria e com preponderância nas épocas de postura das moscas - os meses mais quentes do ano - não fazendo excepção á regra o nosso paíz, em que, de norte a sul, de leste a oeste, com maior ou menor intensidade, tem sido constatada a infestação humana pelas larvas dos muscideos.

Nem mesmo as Capitais, com seu indice de civilização avançado, têm sido poupadas no quadro nosográfico desta doença, citando-se casos como o de Cerqueira Falcão, em que se constatou a molestia ter sido contraída no coração da cidade de São Paulo, no largo de São Bento, ou como dois dos por nós observados, nas cercanias de Nictheroy, no Saco de São Francisco e em São Lourenço ou, ainda, como os de Evandro Chagas, Olympio da Fonseca, Cezar Pinto e outros, nesta cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Logico que nas zonas rurais, em que o homem se emprega no lidar com os animais ou no cultivo da terra, exposto ás intemperies, dormindo ao relento, tendo não raro por leito a relva e por teto a frondosa copa de uma arvore agreste, sem os cuidados de higiene que jamais lhe ministraram, portador de molestias cronicas purulentas que, pelo mau cheiro que exalam, atraem as moscas, logico que nas zonas rurais a intensidade da infestação seja maior, como maior tambem a carência de recursos para seu tratamento, possibilitando assim a eclosão de complicações graves, não raro mortais.

Embora diversas sejam as especies de dípteros capazes de facultativa ou obrigatoriamente deporem suas larvas ou seus ovos, para evolução larvar, no homem, a tendencia hodierna é para se admitir seja a Cochliomyia ou Lucilia hominivorax de Coquerel - vulgarmente conhecida por mosca varejeira - a principal responsavel pelo desenvolvimento da miíase cavitária no Brasil e quiçá na América do Sul. Assim o atestam as onze observações do Instituto Oswaldo Cruz, todas de Cochliomyia hominivorax, embora, anteriormente aos estudos de Cusching e Patton, muitas estivessem diferentemente classificadas, tendo sido, no entanto, graças ao material conservado, possivel a corrigenda.

Além da Cochliomyia hominivorax, têm sido observado, em nosso paíz, no homem, larvas de Dermatobia hominis vulgarmente denominada berne. Esta especie, entretanto, não deposita os ovos diretamente no homem e sim em insetos varios, como o Culex, a Mosca domestica e a Cochliomyia macellaria.

Além disto, enquanto as larvas da Cochliomyia hominivorax se apresentam em grande numero (até 100, 200, 300) - no plural - as da Dermatobia hominis ficam no singular, isto é, uma apenas causando a miíase.

Em publicações varias, nacionais e estrangeiras, se nos deparam referencias á Cochliomyia macellaria (e num, nacional, á Cochliomyia mallária, que atribuímos a um erro de impressão), entretanto, como faz atentar Cezar Pinto em sua parasitologia, a ser proximamente publicada, esta especie não causa a miíase, sinão excepcionalmente, no homem, desenvolvendo-se as larvas, tão somente, em tecidos em putrefação.

Dada, entretanto, a sua semelhança com a hominivorax, com a qual, até aos estudos recentes de Cusching e Patton (1933), era confundida, talvez a classificação das larvas tenha sido produto de engano, por se não atentar bem aos detalhes morfológicos, especialmente aos da cauda, em que as traquéias ou espiráculos respiratórios, pouco pigmentados na especie ma- cellaria, se apresentam muito pigmentados na hominivorax, etc.

Devemos, não obstante, admitir a possibilidade da Cochliomyia macellaria produzir a miíase no homem, porem, em casos muitos excepcionais, em que tecidos previamente necrosados se prestem ao desenvolvimento larvar desta especie.

Citam-se, ainda, casos de infestação no homem por larvas de Sarcophaga carnaria, Calliphora vomitoria, Sarcophaga Georgina, Sarcophaga wolfahrti, principalmente na Europa, na Ásia (Índia) e na África (Somália).

No Brasil, entretanto, não existem estas especies de muscideos e os casos de miíase observados e atribuídos á Sarcophaga carnaria devem ser considerados como produto de engano na identificação da especie - salvo melhor juizo.

Das diferentes especies de Sarcophagas tidas como agente etiologico das miíases, a sternodontis é a que se encontra no nosso paíz, com tudo, na literatura medica que compulsamos, não deparamos referencia alguma á esta especie produzindo infestação no homem.

O Oestrus ovis, muito encontrado no Brasil, principalmente nas zonas pastoris do sul do paíz, tambem, ainda não foi identificado como produtor da miíase no homem, apesar de ser assim considerado na Europa - donde o importamos - na África e na Oceania.

Os muscideos, atraídos, principalmente, pelo mau cheiro de infecções cronicas (otites purulentas; afecções do vestíbulo nasal - eczemas, ulcerações, etc. ; rinites purulentas, ozenosas e sifilíticas; sinusites; amigdalites; infecção dentaria ou gengival; blenorréa; feridas mal cuidadas, etc.), maxime si encontrarem facilidade de penetração (por exemplo: narinas dilatadas, largas da raça negra - como pondera Odrozola, dada a frequencia da miíase nesta raça - labio lepurino ou divisão palatina - caso interessante de Salles da Cunha, comunicado ao Instituto Brasileiro de Estomatologia) podem, os muscideos, depositar seus ovos nas narinas, nos ouvidos, na bocca, nos orgãos genitais, nas feridas, etc., ovos que, atingindo á maturação, á fase larvar, originariam a miíase no organismo humano.

No caso, ainda não constatado no nosso meio, da miíase ser produzida pela Sarcophaga sternodontis, em vez de ovos seria a postura em fase de larva, já que este muscideos é larviparo
e não ovíparo como os demais.

Facto interessante: as moscas não penetram no interior das fossas nasais e sim depõem no vestíbulo nasal seus ovos que, segundo o conceito classico, seriam impulsionados pelo ar, na inspiração, indo se alojar nos meatos, onde o calor humido favorece o seu desenvolvimento. Acreditamos, entretanto, que o mecanismo normal não seja este, já que uma substancia aglutinante propria faz o ovo aderir ao local em que é o mesmo deposto e, assim raciocinando, julgamos que o ovo permaneça no vestíbulo nasal até que, horas após, a larva se liberte, procurando então sítios mais apropriados pelo calor e humidade ao seu desenvolvimento, e onde as vamos encontrar: meatos medios, seios, etc.

Explica-se, por esta migração, o caso observado e relatado por Giuseppe Franchini de evolução simultânea, em uma menina, de miíase nasal e gastro-intestinal, naturalmente pela deglutição de ovos ou larvas que foram levados para o orofaringe pela corrente respiratoria.

As larvas, provindas da maturação dos ovos, se desenvolvem, fixando-se á mucosa, da qual se nutrem, ulcerando-a, destruindo-a, eliminando-a em fragmentos, assim como invadem e destroem o arcabouço ósseo das fossas nasais e dos seios paranasais, nos quais penetram, em demanda a sítios mais humidos, atingindo não raro ao endocrânio e ás vértebras cervicais - caso de Desgranges - ou vindo se exteriorizar, atravez de varios e múltiplos orifícios, na face - caso de Pery Alves de Campos - ou, ainda, produzindo abcessos por. morte de larvas durante a migração - caso de Gabriel Porto, de abcesso temporal esquerdo, consequente á rinomiíase.

Não são raros os casos de destruição do septo nasal, dos seios etmoidais, dos ossos proprios do nariz - nariz em sela - pelas larvas dos muscideos, bem como de complicações mortais, endrocraneanas, como o caso de que, ha tempos se ocupou a imprensa leiga, de um menino, no Meyer, morto por meningite ou complicação craneana outra, em consequencia de nasomiíase, caso este, aliáz, que não encontramos registrado na literatura medica que manuseamos.

No periodo de evolução da miíase nasal, o doente se queixa, inicialmente, apenas de irritação nasal, de esternutações constantes, de sensação de prurido intenso, de formigamento, para que E. Pierre, em sua tése inaugural, chama particularmente a atenção.

Depois aparecem dôres frontais, na raiz do nariz, corrimento soro-sanguinolento, ou sanguinolento fétido, de fetidez característica, com eliminação de fragmentos de pituitária, de cartilagem, de sequestros e, não raro, de larvas (Maximo nas esternutações mais violentas). A obstrução nasal se estabelece com seu cortejo sintomatico, a respiração se torna bucal, a voz anasalada, podendo-se notar, ainda, epistaxis, ligeira elevação da temperatura, nefrite cronica, edema da palpebra, do véo do paladar, do nariz e mesmo da face, assim como, embóra mais raramente, erisipéla, gangrena da face, flegmão da orbita, da fossa temporal, septicemia, meningite, estado de torpor, de ansiedade, espasmos, crises epilectiformes, deformidades por destruição dos tecidos e mesmo por destruição completa do nariz e parte da face (como no caso de Patterson), etc.


Não são raros os casos de morte, estimando Yount e Sudler em 22% a mortalidade por nasomiíase, enquanto nas demais miíases o indice de mortalidade, segundo os mesmos autores, seria de 15 %.

Verdade é que este trabalho - "Human myiasis from the screw-worms Fly" - foi publicado em 1907, e a estatistica de mortalidade, si ainda não se alterou, estamos certos de que melhorará sensivelmente, reduzindo-se a cifras insignificantes, desde que seja convenientemente vulgarizado o processo Prado Moreira, de tratamento, de que dentro em pouco nos ocuparemos.

Naturalmente que as condições físicas do paciente, o estádio da infestação, o aparecimento de complicações, entrem como factores no estabelecimento do prognostico.

A miíase póde se localizar tambem nos ouvidos (cita-se um caso interessante de otomiíase em que as larvas eram eliminadas pela boca, depois de atravessarem a trompa de Eustáquio - caso de Samson, de Orembourg), nas palpebras, no saco lacrimal, na boca, na amigdala palatina (casos raros e interessantes de Luiz Brandão Filho, de hemorragia tonsilar rebelde, e de Jeney e Lösincz publicado no "Zeitschrift für Hals, Nasen und Orenheillnmd"), na pleura, na traquéia, no intestino, nos orgãos genitais (caso de César Pinto, localizado no clitóris), no couro cabeludo e face (caso fatal de César Pinto), nos labios e pescoço (in César Pinto), etc.

O diagnostico de miíase nasal é, em geral, facil. Praticando-se a rinoscopia anterior, após ligeira retração e anestesia da mucosa (néo-tutocaina e adrenalina, por exemplo) verifica-se a presença, quasi sempre no meato médio, de massa branca acinzentada com movimentos vermiculares: são larvas que se movem sob a ação da luz refletida.

Citam-se, é facto, alguns casos de localizações raras e de diagnostico difícil, como o de Pedro Falcão em que uma larva de Dermatobia hominis se desenvolveu no vestíbulo nasal, aí permanecendo cêrca de quarenta dias (!), com produção de "borraina saliente que dificultava e mesmo impedia" a rinoscopia anterior.

Deve-se verificar a extensão da lesão produzida na pituitária, bem como a presença de possíveis complicações: invasão das cavidades paranasais, do endocraneo, a presença de meningite, de septicemia, de nefrite cronica, etc., afim que a terapeutica se coadune com o caso.

Uma vez eliminadas as larvas, deve-se pesquisar a causa predisponente: ozena, sifilis nasal, rinites ou sinusites purulentas, etc., afim que seu tratamento seja instituído; evitando-se assim recidivas, muitas vezes frequentes, como no caso retrocitado de Gabriel Porto, em que mais duas infestações foram observadas no mesmo doente, portador aliáz de rinite atrofica ozenosa.

A classificação da larva deve ser feita, sempre que possível, por técnico, para que possamos determinar com segurança as especies que realmente produzem a miíase no Brasil.

Nos nossos casos, não fomos felizes neste particular, entretanto, encontramos, ao depois, o auxilio prestimoso do Prof. César Pinto, parasitologista de incontestavel mérito, e esperamos não fiquem os casos que, por ventura, de futuro, se nos apresentem, sem a classificação indispensavel do genero e especie do díptero causador da molestia.

As larvas para o exame - estamos certos de que o Prof. César Pinto atenderá solicitamente a qualquer colega - devem ser conservadas parte em serragem (vidro de boca larga, fechado com rolha de cortiça) e parte em formol a 10 %, alcool ou mesmo aguardente.

Depois de relatarmos resumidamente as observações dos casos por nós observados, faremos, concluindo, o estudo da terapeutica.

1.ª OBSERVAÇÃO:

A. M., pardo, casado, de 44 anos de idade, servente de pedreiro, natural de Campos (Est. do Rio) e residente em São Lourenço, Nictheroy. Baixou ao Hospital São João Baptista, de Nictheroy, em 21 de Julho de 1937, á tarde.

No dia seguinte (22), pela manhã, foi examinado no nosso serviço, naquele hospital.

Queixava-se, havia dez dias, de constante formigamento, como que bichos andando no nariz (sic) e corrimento nasal sanguinolento fétido, constante (trazia sempre o lenço enxugando o nariz). Dificuldade na respiração, insônia, anorexia, emagrecimento.

Informa que antes disto, e ha muito tempo, já notara mau cheiro nasal e secreção amarela.
Praticada a rinoscopia anterior, notamos a presença, na fossa nasal esquerda, de inumeras larvas, que se moviam, naturalmente pela ação, da luz refletida pelo nosso espelho.

A fossa nasal direita apresentava-se normal, assim como o septo nasal nas suas duas faces. Nenhum sinal de complicação.

Feito o diagnostico de miíase nasal, mandamos fosse injetado um centigramo de cianureto de mercurio (1 cc. de ciargil) intravenosamente e aproveitamos o caso para uma aula pratica aos nossos alunos da Faculdade Fluminense de Medicina (da qual somos livre-docente).

Prosseguíamos no nosso trabalho, no ambulatorio, quando o paciente nos procurou, uma hora após mais ou menos, informando que varias larvas haviam sido eliminadas, vivas.

Constatado o resultado terapeutico pelo processo Prado Moreira - era o primeiro caso que observávamos - chamamos, mais uma vez, a atenção dos presentes para a simplicidade e eficiência deste processo e mandamos que, no dia imediato, mais dois centigramo de cianureto de mercurio fossem injectados intravenosamente, nada prescrevendo ao doente.

Pela rinoscopia anterior praticada no dia 24, não notamos mais nenhuma larva, e sim apenas secreção purulenta no meato medio esquerdo é a mucosa bastante alterada. Indicamos instalações de oleo gomenolado a 5 % e pedimos radiografia dos seios da face na incidencia mento-naso-film.

A radiografia feita no hospital em 28 de Julho revelou opacidade completa do seio maxilar esquerdo e espessamento da mucosa do seio maxilar direito. Frontais e etmoidais - de transparência normal.

No dia 30 de julho praticamos a punção diameática do seio maxilar esquerdo que revelou puz fétido, enquanto no direito a punção foi negativa: água de lavagem branca.

Foram feitas varias lavagens do seio esquerdo, sempre revelando puz, enquanto o doente se preparava para a intervenção, fortificando-se, pois era grande o seu estado de abatimento geral e extraindo algumas raizes dentarias infectadas.

Em 11 de Outubro corrente, foi por nós operado, sob anestesia local, auxiliado pelo nosso interno, acadêmico Baptista Pereira, de sinusite maxilar esquerda, pelo processo de Caldwell-Luc.

Apezar de atentarmos bem, não encontramos nenhuma larva morta no seio maxilar, notando apenas de extraordinario a exagerada fetidez do puz, e o espessamento grande da mucosa que sangrava mais que o comum, não tendo sido necessario, entretanto, tamponamento.

Foram feitas três lavagens antes de ser dada alta ao doente, revelando-se as duas ultimas sem puz.

Em 25 de Outubro - alta curado.



Radiografia de A. M., feita em 28-VII-937
Incid. mento-naso-film.
Hosp. S. João Baptista.



2.ª OBSERVAÇÃO:

J. P., pardo, de 40 anos de idade, casado, lavrador, natural e residente em Laranjeiras, est. do Rio.

Baixou ao Hospital São João Baptista, de Nictheroy, em 4 de Setembro de 1937, por se queixar de bicheira (sic) no nariz, saindo de vez em quando uma larva com o corrimento sanguinolento que apresentava e que, informavam, era fétido não obstante o doente não acusar mau cheiro,

Tendo este doente baixado no sábado ás 11 horas da noite, o enfermeiro de serviço que acompanhara o outro caso, resolveu esponte sua injectar intravenosamente 2 cc de ciargil imediatamente.

Foram eliminadas nesta noite e no dia imediato muitas larvas vivas, não se notando mais nenhuma no dia 6 de Setembro, segunda feira, quando o examinamos.

Pela rinoscopia, constatamos apresentar o paciente rinite atrofica ozenosa, com destruição quasi total do septo nasal e grande atrofia dos cartuchos.

Prescrevemos lavagens nasais alcalinas, instilações de argirol, vitaminoterapia e, posteriormente, instilações de acetilcolina, que vimos empregando com resultados animadores na ozena.
Em 25 de Setembro - alta curado da miíase e devendo continuar o tratamento da ozena, em casa.

3.ª OBSERVAÇÃO:

P. S., preto, de 45 anos de idade, casado, residente no Saco de São Francisco, Nictheroy.

Baixou ao Hospital em 30 de Setembro de 1937, em estado de miséria organica lastimável.

Informa que durante algum tempo teve bichos (sic) no nariz, com fetidez, corrimento sanguinolento e como não lhe fosse possivel baixar logo ao hospital, fizera inalações de amônia, a conselhos de um seu vizinho, tendo sido eliminadas muitas larvas esbranquiçadas.

Continua, entretanto, com dificuldade na respiração e crosta no nariz e, embora não sinta, todos dizem que tem mau cheiro nasal. Baixou ao Hospital São João Baptista, mais devido ao seu estado geral que pela doença do nariz.

Pelo exame praticado não notamos nenhuma larva - alias o doente informara que nada mais sentira quanto á miíase desde o uso da amônia - e constatamos ser o paciente portador de rinite atrofica ozenosa, com crosta amarelo-esverdeadas, fétidas, e destruição parcial do septo nasal e os cartuchos bem atrofiados.

Pedimos radiografia dos seios da face, pois, pelo exame, pareceu-nos ter o processo ozenoso atingido os seios maxilares e solicitamos sua transferência para a enfermaria de clinica medica.

Prescrevemos-lhe apenas lavagens alcalinas e instilações de argirol.

Entretanto, poucos dias após, antes de fazer a radiografia, o doente falecia no hospital em consequencia de cardiopatia e neufropatia que apresentava e de que se achava em tratamento.

Deixaremos as considerações, que as observações que vimos de relatar sugerem, para as conclusões finais, passando ao estudo da terapeutica.

O tratamento das miíase vem de longa data preocupando os medicos e, por isto mesmo, fecundo é o manancial onde vamos encontrar os meios terapeuticos mais variados para debelarmos esta infestação humana.

O processo brasileiro de Prado Moreira, entretanto, marca uma etapa decisiva neste capitulo da patologia humana, tal a simplicidade e eficiência do mesmo. Consiste em se injetar o oxi-cianureto ou o cianureto de mercurio intravenosamente, na dose de um a dois centigramas, repetindo-se a injecção segundo a necessidade do caso.

Elysio do Prado Moreira, mineiro de nascimento, clinico no interior do Estado de São Paulo, na cidade de Pompéia - e mais uma vez devemos, nós outros das grandes capitais, prestar reverentes a nossa homenagem a estes anônimos batalhadores dos rincões de nossa grandiosa Pátria; os medicos do interior - Elysio do Prado Moreira; repetimos, teve a idéia de injetar na veia o oxi-cianureto de mercurio em um caso grave de miíase naso-faringe, obtendo a cura.

A observação veio á luz nas "Publicações Medicas", de Setembro de 1933, e múltiplas trabalhos de varíos autores foram posteriormente publicados, confirmando a eficiência daquele processo terapeutico e, facto interessante, até o momento nenhuma contradita foi levantada em oposição á eficácia deste metodo simplista.

As vantagens do emprego do oxi-cianureto ou do cianureto de mercurio são múltiplas e resaltam á primeira vista.

Ao lado da facilidade de aplicação, bem diversa dos metodos outros como veremos dentro em pouco, sobresae a eficiência do tratamento - nem sempre constatada nos outros processos - a eliminação das larvas vivas, evitando-se assim complicações possíveis pela retenção de corpos mortos nos tecidos, e, principalmente, a ação uniforme de dentro para fóra, isto é, o anti-septico parasitário que é o mercurio sendo transportado por via sanguinea e agindo indiferentemente em todas as localisações das larvas, não respeitando anfractuosidades, cavidades ou recessos.

Assim no caso de nasomiíase, por exemplo, o mercurio agirá tanto nas fossas nasais, como nos seios, no endocraneo, nos tecidos, etc., diversamente dos demais metodos em que as larvas procuram ganhar a profundidade dos tecidos ou se ocultar nas anfractuosidades dos meatos ou nas cavidades paranasais e, mesmo, endocraniana, acossadas, perseguidas pelas lavagens, instilações ou insuflações irritantes e repetidas dos antisepticos propostos.

A vantagem maior, portanto, do metodo é a via sanguinea adaptada e pretendemos observar, em nossos serviços, si antisepticos outros não agiriam da mesma forma eficientemente si se utilizar a mesma via de introdução no organismo.

A titulo de mera curiosidade citaremos, a seguir, alguns dos meios terapeuticos aconselhados para o tratamento da nasomiíase e que se nos depararam nas publicações que compulsamos:

1.º) LAVAGENS NASAIS COM: - sublimado corrosivo (bicloreto de mercurio) a 1 ou 2 %; hipoclorito de sodio; infusões de tabaco (muito usadas na Índia) ; agua cloroformada
a 25 % (em jacto, principalmente) ; agua clorada; infusão de folhas de beladona; benzina; permanganato de potassio a 1 por 4.000; agua boricada a 4%, etc.

2.°) INSTILAÇOES NASAIS DE: cloroformio (perigoso não só pela sincope branca que póde acarretar, como irritação dolorosa, inflamatoria da pituitária) ; oleo fenicado; azeite de olivas (procurando-se encher as fossas nasais para dificultar a respiração das larvas), etc.

3.°) INSUFLAÇÃO DE PÓS: veratrum sabadilla (empregado no Perú), iodofórmio,etc.

4.°) INHALAÇOES DE: cloroformio, éter, cloretila, fenol, benzina pura (Pierre, tése de 1888), etc.

5.°) EXTRAÇÃO MECANICA: das larvas com pinças, com ou sem anestesia geral ou local.

6.°) ILUMINAÇÃO INTENSA LOCAL, afim que as larvas se exteriorizem, para depois serem apreendidas com pinça, entretanto, lembramos que as larvas, sejam de Dermatobia hominis (antiga cyaniventris), sejam de outros gêneros, apresentam fototropismo negativo e, talvez, o factor sorte tenha actuado nos casos observados.

Alem do tratamento curativo acima descrito, devemos nos referirá terapeutica profilatica, geral e plastica.

1) PROFILAXIA:

a) Sendo as infecções cronicas (ozena, sifilis, sinusites, etc.), causa predisponente, como vimos anteriormente, estas devem ser tratadas convenientemente afim de se evitar a infestação ou as
recidivas. Durante o tratamento de doenças rebeldes ou incuráveis, o doente deve fazer uso de antisepticos desodorizantes, Maxime durante o sôno, á noite.

b) Evitar dormir ao relento, ao ar livre.

c) Cuidar da higiene do corpo: banhos, vestes, dentes, etc.

d) Cuidar da higiene da habitação: ventilação, insolação, evitar, no campo, proximidades de locais para engorda de animais, etc.

e) Destruição, dentro das possibilidades, dos fócos de muscideos: latas velhas, agua estagnada, etc.

2) GERAL:

O tratamento geral e sintomatico se restringe a tônicos, hipnoticos, sedativos, etc., de acôrdo com o caso em particular.

3) PLÁSTICO:

Dissemos que deformidades poderiam se apresentar em consequencia da destruição pelas larvas do arcabouço ósseo das fossas nasais e dos seios, a cirurgia plastica se fazendo necessaria para a correção dos mesmos, mas, em se tratando de plastica do nariz... preferimos que tenham a palavra os especialistas no assunto.

CONCLUSÕES:

1.ª - E' mister se faça a identificação das larvas por técnico, afim que se estabeleça com segurança quais as especies que realmente produzem a miíase no homem, em nosso paíz.

2.ª - A Cochliomyia hominivorax parece ser a principal responsavel pela miíase a larvas múltiplas, embora tambem possam produzi-la, no Brasil, a Sarcophaga sternodontis, o Oestrus ovis e, excepcionalmente, a Coehbomyia macellaria.

3.ª - A Dermatobia hominis é a responsavel pela miíase tipo furunculosa a larva unica.

4.a - Faz-se necessario se intensifique a profilaxia desta infestação-parasitaria, maxime entre os habitantes das zonas rurais, ministrando-lhes os ensinamentos indispensaveis de higiene e tratando as infecções cronicas purulentas.

5.ª - O processo brasileiro Prado Moreira, de tratamento, é incontestavelmente eficiente e deve ser divulgado o mais possivel.

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(1) Comunicação apresentada á Socied. Medic. Cirurg. do Rio de janeiro, em 26 de Outubro de 1937.
(2)Docente na Fac de Medic. da Universid. do Brasil e na Fac. Fluminense de Medic. - Chefe do Serviço de Otolaringologia do Hospital S. João Baptista, Nictheroy e do Centro Saúde Cinco, Rio - Laureado com Medalha de Ouro pela Faculd. Nacional de Medicina.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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