ISSN 1806-9312  
Quinta, 24 de Outubro de 2019
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4534 - Vol. 79 / Edição 6 / Período: Novembro - Dezembro de 2013
Seção: Relato de Caso Páginas: 790 a 790
Paracoccidioidomicose em laringe: Relato de casos
Autor(es):
Claudiney Candido Costa1; Valeriana de Castro Guimarães2; Marina Neves Rebouças3; Edson Junior de Melo Fernandes4

DOI: 10.5935/1808-8694.20130141

Palavras-chave: combinação trimetoprima-sulfametoxazol; laringe; paracoccidioidomicose; sulfametoxazol.

Keywords: larynx; paracoccidioidomycosis; sulfamethoxazole; trimethoprim-sulfamethoxazole combination.

INTRODUÇÃO

A paracoccidioidomicose é uma afecção sistêmica grave, causada pelo Paracoccidioides brasiliensis (P. brasiliensis). Trata-se de um fungo dimórfico térmico geralmente adquirido por via respiratória pela inalação de conídios no ar. A infecção é insidiosa, de caráter crônico, caracterizada pelo surgimento de lesões na cavidade oral e nasal, faringe, laringe, gengiva, língua, palato mole, glândulas suprarrenais, fígado, ossos, trato gastrointestinal, pulmões, pele, linfonodos e sistema nervoso. A disfonia, dispneia, odinofagia, disfagia, perda ponderal, febre e tosse podem apresentar-se como os sintomas iniciais da doença. Homens acima dos 40 anos, tabagistas e/ou etilistas são os mais acometidos1-3.

No presente relato, os autores descrevem três casos de pacientes com paracoccidioidomicose laríngea, atendidos em um hospital público no Centro-Oeste do Brasil.


RELATO DOS CASOS

Caso 1

Sexo masculino, 56 anos, tabagista há 40 anos e ex-etilista, procedente de Aragarças, TO, com lesão epiglótica. Na videolaringoscopia, lesão úlcero-vegeto-infiltrativa em face anterior de epiglote, com fixação da cartilagem (Figura 1A). A tomografia computadorizada apresentou cavitações com nódulos em ápice pulmonar compatível com processo granulomatoso crônico. Realizada biopsia ambulatorialmente.

Caso 2

Homem, 60 anos de idade, sexo masculino, tabagista procedente e natural de Santa Rita do Araguaia, GO, com queixa de disfonia, dispneia grave e emagrecimento há 3 meses. A videolaringoscopia evidenciou lesão úlcero-vegeto-infiltrativa de prega vocal direita e banda ventricular direita, com extensão para toda comissura posterior com fixação de pregas. Paciente submetido à traqueostomia de urgência. Realizou-se biópsia de laringe sob anestesia geral.

Caso 3

Sexo masculino, 60 anos, tabagista, procedente de Goiânia, GO, com queixa de disfonia há seis meses com piora nos últimos meses. Na videolaringoscopia, lesão úlcero-vegeto-infiltrativa em pregas vocais com fixação parcial das mesmas. Realizou-se a biópsia sob anestesia geral. Sem melhora do quadro clínico, investigou-se estenose traqueal, sendo esta confirmada por meio da broncoscopia.



Figura 1. Videolaringoscopia. A: Lesão úlcero-vegeto-infiltrativa em face anterior da epiglote; B: Histopatologia: H.E. 200x Granuloma; C: PAS 100x Fungos Paracoccidioides; D: Grocott 400x Formação de brotamento tipo Mickey Mouse.



Nos três casos, exames histopatológicos identificaram processo granulomatoso com fungos, compatível com P. brasiliensis (Figuras 1B-D), adotando como tratamento sulfametoxazol e trimetoprima.


DISCUSSÃO

O diagnóstico da doença baseia-se no quadro clínico e na identificação do P. brasiliensis presentes no exame anatomopatológico das lesões1,2,4. Nos casos descritos, os pacientes apresentaram lesões na região laríngea, sendo adotada a biópsia incisional, apresentando um resultado histopatológico sugestivo da infecção por P. brasiliensis1,3,5. Lesões encontradas nos casos de paracoccidioidomicose são semelhantes às neoplasias de laringe, sendo necessário o diagnóstico diferencial e, portanto, a conduta estabelecida é o exame histopatológico4.

Trabalhadores rurais apresentam maiores riscos, pois a doença acomete na maioria indivíduos, que por sua atividade permanecem em contato com vegetais e a terra2,3. Corroborando com a literatura, nos casos relatados os pacientes são procedentes de regiões endêmicas para P. brasiliensis, do gênero masculino, tabagista e ex-etilista e dois desenvolviam atividades agrícolas.

Em um estudo realizado por Machado Filho et al.3, 104 indivíduos com diagnóstico da doença foram avaliados. Destes, aproximadamente 40% apresentaram lesões laríngeas, sendo as pregas vocais e a epiglote as estruturas mais acometidas.

A literatura descreve os nódulos pulmonares como os achados radiológico mais comum2,6. Em um dos casos apresentados, a tomografia computadorizada evidenciou áreas de cavitações com nódulos em ápice pulmonar.

Nos três casos, o tratamento foi realizado ambulatorialmente e optou-se pela associação sulfametoxazol e trimetoprima, devido à facilidade de administração (via oral), melhor aderência e tolerabilidade6. A manutenção medicamentosa, bem como o acompanhamento periódico ao ambulatório até a melhora clínica dos quadros, foram seguidas, como sugerem alguns autores6.


COMENTÁRIOS FINAIS

O paracoccidioidomicose deve ser lembrado no diagnóstico diferencial de pacientes com lesões laríngeas, especialmente aqueles que residem ou residiam em áreas endêmicas de P. brasiliensis.


REFERÊNCIAS

1. Lopes Neto JM, Severo LM, Mendes RP, Weber SAT. Sequelae lesions in the larynxes of patients with paracoccidioidomycosis. Braz J Otorhinolaryngol. 2011;77(1):39-43.

2. Freitas RM, Prado R, Prado FL, Paula IB, Figueiredo MT, Ferreira CS, et al. Pulmonary paracoccidioidomycosis: radiology and clinical-epidemiological evaluation. Rev Soc Bras Med Trop. 2010;43(6):651-6. PMID: 21181017 DOI:http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822010000600010

3. Machado Filho J, Rego AP, Chaves ALF, Miranda JL, Silva CC. Considerações relativas à Blastomicose Sul-americana. Da participação laríngea e brônquica em 104 casos: resultados endoscópicos. Hospital (RJ). 1960;(58):645-58.

4. Sant'Anna GD, Mauri M, Arrarte JL, Camargo H Jr. Laryngeal manifestations of paracoccidioidomycosis (South American blastomycosis). Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 1999;125(12):1375-8. PMID: 10604418 DOI: http://dx.doi.org/10.1001/archotol.125.12.1375

5. Benard G, Campos AF, Netto LC, Gonçalves LG, Machado LR, Mimicos EV, et al. Treatment of severe forms of paracoccidioidomycosis: is there a role for corticosteroids? Med Mycol. 2012;50(6):641-8. DOI: http://dx.doi.org/10.3109/13693786.2011.654135

6. Wanke B, Aidê MA. Chapter 6-paracoccidioidomycosis. J Bras Pneumol. 2009;35(12):1245-9. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132009001200013











1. Doutor em Medicina Otorrinolaringologia (Professor adjunto e Chefe do Serviço de Otorrinolaringologia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás
2. Doutora em Ciências da Saúde. (Fonoaudióloga Epidemiologista. Serviço de Otorrinolaringologia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO)
3. Otorrinolaringologista. (Médica otorrinolaringologista. Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO)
4. Médico (Médico residente. Serviço de Otorrinolaringologia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO)

Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás.

Endereço para correspondência:
Claudiney Candido Costa
Primeira Avenida, s/nº. Setor Leste Universitário
Goiânia - GO. Brasil. CEP: 74.605-020
E-mail: orlccp@uol.com.br


Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) do BJORL em 11 de junho de 2012. cod. 9260. Artigo aceito em 28 de julho de 2012.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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