ISSN 1806-9312  
Domingo, 21 de Abril de 2024
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3987 - Vol. 76 / Edição 2 / Período: Março - Abril de 2010
Seção: Relato de Caso Páginas: 272 a 272
Adenose Policística Esclerosante de Glândula Salivar Menor: relato de caso
Autor(es):
Clarissa Araújo Silva Gurgel1, Valéria Souza Freitas2, Eduardo Antônio Gonçalves Ramos3, Jean Nunes dos Santos4

Palavras-chave: doenças das glândulas salivares, mucosa bucal.

Keywords: salivary gland diseases, oral mucosa.

INTRODUÇÃO

A Adenose Policística Esclerosante (APE) é uma lesão incomum de glândula salivar descrita pela primeira vez por Smith et al.1, em 1996, cujos aspectos histomorfológicos assemelham-se a doenças fibrocísticas da mama1. Sua patogênese ainda é incerta, mas esta lesão é considerada como um processo pseudo-neoplásico ou reativo1-3. Recentemente, Skálová et al.4 demonstraram a clonalidade em seis casos de APE.

A APE acomete principalmente as glândulas parótida e submandibular, sendo pouco frequente em glândulas salivares menores2. Aqui, relatamos um caso de APE em glândula salivar menor, discutindo seus aspectos histomorfológicos.


APRESENTAÇÃO DO CASO

Sexo feminino, melanoderma, 82 anos procurou a nossa Clínica relatando dor em assoalho de boca durante a utilização da prótese total inferior. Ao exame intrabucal observou-se uma má adaptação das próteses superior e inferior e um nódulo ulcerado, avermelhado e firme, medindo 2cm em seu maior diâmetro. A paciente foi orientada a suspender a utilização das próteses e, após 15 dias retornou para reavaliação do nódulo, o qual estava inalterado. Com suspeita clínica de uma lesão eritroplásica, foi realizada uma biópsia incisional e o material encaminhado ao Laboratório de Patologia Cirúrgica. A lesão era caracterizada por nódulos fibrosos permeados por túbulos interconectantes, ora ectásicos ora com metaplasia apócrina (Figura 1). Alguns elementos ductais exibiam hiperplasia, bem como células mostrando atipias e vacuolização, acompanhados de infiltrado inflamatório mononuclear esparso. O exame imunoistoquímico mostrou os elementos túbulo-acinares positivos aos anticorpos CKAE1/AE3, EMA, S-100, actina de músculo liso, GCDFP-15 e Ki-67, sendo que este último marcou em menos de 1% das células. Estrógeno, Progesterona e CK 34?E12 foram negativos. O diagnóstico foi de APE em assoalho bucal, sendo a paciente, posteriormente, submetida exérese total da lesão. Após 24 meses, não há sinais de recidiva.


Figura 1. Adenose Policística Esclerosante - Aspecto nodular da lesão após excisão cirúrgica. Na histologia, observar nódulo fibroso permeado por túbulos interconectantes, por vezes ectásicos.



DISCUSSÃO

Aproximadamente 35 casos de APE foram descritos na literatura até o presente, com apenas quatro acometendo glândula salivar menor. Portanto, este é o quinto caso de APE em glândula salivar menor.

Por ser uma lesão pouco descrita, não há dados clínicos característicos da APE. Na série de 9 casos de Smith et al.1, a idade média dos pacientes acometidos por esta lesão foi de 28 anos, com discreta predileção pelo sexo feminino. Gneep et al.2 observaram uma idade média de 44.5 anos e uma discreta predileção por homens. A presença de um aumento de volume nodular, conforme observado em nosso caso, de crescimento lento é um dos os aspectos clínicos mais comuns3.

Os aspectos histomorfológicos descritos no presente caso enquadram-se naqueles definidos para a APE. A lesão era composta de nódulos fibrosos permeados por túbulos interconectantes, ora ectásicos ora com metaplasia apócrina, apresentando também atipia e vacuolizações celulares1-3,5. Segundo Cheuk, Chan3, os aspectos histopatológicos da APE ainda são pouco conhecidos e, muitas vezes, esta lesão é diagnosticada como uma neoplasia maligna, destacando-se entre estas o carcinoma ductal1,2,5, cistadenocarcinoma, carcinoma de células acinares, carcinoma mucoepidermóide1. Sialoadenite esclerosante também tem sido incluída1,2-5.

A imunoistoquímica para as proteína S-100 e Actina de músculo liso, no caso apresentado, demonstrou a presença de células mioepiteliais nos elementos túbuloacinares da lesão1,2. A presença destas células demonstra que apesar da atipia celular observada na APE, os ductos glandulares estão funcionalmente normais2. A positividade para citoqueratinas e EMA, nas células ductais e acinares, também foi demonstrada por Gneep5. A imunomarcação para receptores de estrógeno, progesterona e GCDGP-15 tem sido descrita3,5,6, sugerindo a participação de fatores hormonais na patogênese da APE6. Neste caso, foi observada positividade para GCDFP-15, mas o estudo imunoistoquímico de outros casos é necessário para a definição do perfil histogenético da APE.

O tratamento da APE consiste em exérese da lesão, com margens de segurança. A proservação deve ser criteriosa, pois recorrências são comuns2,6.


COMENTÁRIOS FINAIS

O diagnóstico da APE deve ser cuidadoso, especialmente pela semelhança histomorfológica com diferentes neoplasias malignas de glândula salivar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Smith BC, Ellis GL, Slater LJ, Foss RD. Sclerosing polycystic adenosis of major salivary glands: A clinicopathologic analysis of nine cases. Am J Surg Pathol. 1996;20(2):161-70.

2. Gnepp DR, Wang LJ, Brandwein-Gensler M, Slootweg P, Gill M, Hille J. Sclerosing polycystic adenosis of the salivary gland: a report of 16 cases. Am J Surg Pathol. 2006;30(2):154-64.

3. Cheuk W, Chan JKC. Advances in salivary gland pathology. Histopathology. 2007;51(1):1-20.

4. Skálóva A, Gnepp DR, Simpson RHW, Lewis JE, Janssen D, Sima R et al. Clonal nature of sclerosing polycystic adenosis of salivary glands demonstrated by using the polymorphism of the Human Androgen Receptor (HUMARA) Locus as a marker.AmJ Surg Pathol. 2006;30(8):939-44.

5. Gnepp DR. Sclerosing polycystic adenosis of salivary gland: a lesion that may be associated with dysplasia and carcinoma in situ. Adv Anat Pathol. 2003;30(4):218-22.

6. Skálová A, Michal M, Simpson RHW, Stárek I. Sclerosing polycystic adenosis of parotid gland with dysplasia and ductal carcinoma in situ. Virchow Arch. 2002;440(1):29-35.









1. Mestre, Professora Substituta.
2. Mestre, Professora Assistente.
3. Doutor, Professor Adjunto IV.
4. Doutor, Professor Adjunto IV.

Universidade Federal da Bahia Faculdade de Odontologia Laboratório de Patologia Cirúrgica.

Endereço para correspondência:
Jean Nunes dos Santos Faculdade de Odontologia - UFBA Avenida Araujo Pinho 62 Canela Salvador
BA 40110-150.

FAPESB - convênio 200/04

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da BJORL em 24 de agosto de 2007. cod. 4738.

Artigo aceito em 16 de dezembro de 2007
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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