ISSN 1806-9312  
Segunda, 20 de Maio de 2024
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2748 - Vol. 64 / Edição 6 / Período: Novembro - Dezembro de 1998
Seção: Artigos Originais Páginas: 644 a 646
Insuficiência Respiratória Aguda e Edema de Reinke.
Autor(es):
Gerson S. Maahs *
Silvia C. B. Alves** ;
Christinane. Kindermann***,
Rômulo H. Marques****.

Palavras-chave: cardas vocais, doenças da laringe, edema da laringe, insuficiência respiratória

Keywords: vocal cords, laryngeal discares, laryngeal edema, respiratory Insufficiency

Resumo: O edema de Reinke tem sido objeto de pouca atenção pela literatura médica. Trata- se de um edema acumulado no espaço de Reinke, da lâmina própria das pregas vocais. É descrito como uma alteração benigna, tendo como sintomatologia básica a disfonia e sendo raras as complicações. Os autores apresentam um caso de edema de Reinke associado a laringite, que desenvolveu quadro de insuficiência respiratória aguda como complicação, necessitando de cricotireoidostomia de urgência. Este trabalho relata uma complicação rara do edema de Reinke, bem como uma revisão literária sobre a patologia.

Abstract: The Reinke's edema lias been object of sinais attention in the medicai literature. lt's an edernatous fluid accumulates in potencial submucosalvocal folds. We a benign condition, that lias the disphonia as the main indication and the complications are uncommon. The autoors present one case of Reinke's edema and upper respiratory infection with laryngitis, that developed respiratory insufficience as complication. This text reports a Reinke's edema complication and a literature review about this patology.

INTRODUÇÃO

Acordite poliplóide ou degeneração poliplóide elas cordas vocais caracteriza-se por uma lesão edematosa que se estende ao longo ele uma ou ele ambas as pregas vocais'.

Histologicamente, a patologia está localizada na camada superficial da lâmina própria, entre o epitélio e a cariada submucosa (Ia prega vocal. Esta camada é conhecida cone) espaço de Reinke, sendo por isso a patologia amplamente conhecida como edema de Reinke.

O sintoma mais clássico é a disfonia, surgindo reais comumente na vida adulta e acometendo pessoas ele ambos os sexos. Segundo a maioria elos estudos, a ocorrência mais freqüente, rias não exclusivamente entre as mulheres, sugere a participação de um cofator hormonal.

O diagnóstico é realizado com o auxílio do espelho laríngeo (laringoscopia indireta), através do qual se visualizara as pregas vocais apresentando uma franja epitelial flutuante e pálida; o epitélio e seus vasos elevam-se sobre as faces superiores das pregas vocais e são tão delgados que mostram O soro acumulado no espaço de Reinke3. Atualmente, a vídeo laringoscopia proporciona uma melhor análise das pregas vocais, graças a observação ela endolaringe com boa iluminação, permitindo assim uma melhor descrição da mucosa.

O tratamento clássico consiste no esvaziamento das cordas vocais, através de Lima incisão longitudinal sobre a face superior das cordas edemaciadas e aspiração do conteúdo do espaço. Isto resulta na cicatrização do espaço para prevenir o re acúmulo de líquido. Os fatores agravantes relacionados à patogenia, corno tabagismo e abuso vocal, devem ser removidos,sendo que a terapia vocal pré e pós-operatória é essencial para prevenir a recorrência da patologia`.

APRESENTAÇÃO DO CASO

Paciente M.E.F., do sexo feminino, com 70 anos de idade, natural ele Sapucaia (RS) e procedente de Osório (RS), com queixa ele disfonia há vários anos e história pregressa ele asma brônquica. Em dezembro de 1996, após quadro de infecção ele vias aéreas superiores de etiologia vinil, foi atendida era caráteremergencial, no interior do Estado, com insuficiência respiratória aguda. O diagnóstico primário suposto foi ele mal asmático; porém, não apresentava exame físico pulmonar compatível e não respondia ao tratamento tradicional cola broncodilatadores. Levada a UTI, foi entubada, com melhora posterior ela elispnéia. Submetida, então, a cricotireoidostomia, e encaminhada ,r este Serviço em Porto Alegre, com diagnóstico suposto ele neoplasia maligna. Na consulta eletiva, em janeiro ele 1997, persistia quadro ele disfonia sem outras queixas otorrinolaringológicas. Ao exame físico, apresentava cânula metálica número os posicionada acima da cricóide, mantendo adequada ventilação pelas vias aéreas naturais na oclusão manual (a cânula. À televideoendoscopia rígida de 70 graus, observava-se lesão hiperplásica com importante componente edematoso em ambas as pregas vocais, compatível com o diagnóstico de edema de Reinke (Figuras 1 e 2). Foi submetida ao tratamento cirúrgico do edema e fechamento da ostomia.

DISCUSSÃO

Aetiopatogenia da cordite poliplóide não está completamente esclarecida e os fatores envolvidos são discutidos pela literatura médica. Alguns autores acreditam que um fator exclusivo às mulheres, provavelmente ele caráter hormonal, esteja envolvido, o que explicaria o comprometimento feminino maior.


 
Figuras 1 e 2. Exame opr televideoendoscopia rígida de 70 graus demosntrando componente edematoso nas pregas vocais bilaterais.



Outros estudos relacionam a lesão inflamatória a um processo irritativo crônico da laringe, como tabagismo e/ou abuso vocal, que funcionariam corno fatores causais primários; a irritação persistente ou o trauma alterariam a permeabilidade dos capilares, resultando em extravasamento de sangue e liquido tissular no espaço de Reinke, que se resolveria de forma inadequada pela pobre drenagem linfática das pregas vocais.

A evolução do edema de Reinke é controversa, sendo às vezes relacionada à leucoplasia e ao carcinoma in situ. Segundo um estudo realizado por Nielsen (1986), através da revisão da patologia de 120 pacientes com cordite polipóide e tratados com microcirurgia da prega vocal, cerca de 25% de displasia leve e menos de 1% de displasia moderada foram revelados e somente um paciente desenvolveu carcinoma pós-operatório, demonstrando um baixo percentual de malignização. Por outro lado, esse mesmo estudo revelou que 112 pacientes eram tabagistas cole consumo superior a 20 cigarros por dia. A ocorrência de alterações malignas nos pacientes com edema de Reinke estaria relacionada à presença do tabagismo como fator patogênico comum a ambas as patologias, e não à evolução da lesão inflamatória para aquele tipo de ocorrência.

Quanto às complicações, o edema de Reinke é descrito como patologia benigna que raramente cursa com agravamento do estado do paciente. A literatura é pobre na citação dos tipos de complicação encontrados, sendo que alguns autores chegam a relatar que o edema de Reinke nunca cursa com dispnéia como sintoma secundário4.

Todavia, o caso relatado demonstra a possibilidade de complicação do edema de Reinke, pois a paciente apresentava

lesão inflamatória incipiente, há vários anos, e evoluiu com quadro de insuficiência respiratória aguda- pós-infecção viral, simulando um quadro obstrutivo por neoplasia, necessitando de cricotireoidostomia para tratamento de urgência.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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* Membro do Serviço ele Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital São Lucas, da PUC-RS.
** Acadêmica em Graduação no Sexto Ano ele Medicina da PUC-PR.
*** Médica Residente do Serviço de Otorrinolaringologia e Cirurgia ele Cabeça e Pescoço do Hospital São Lucas, da PUC RS.
**** Acadêmico em Graduação no Sexto Ano ele Medicina da Universidade ele Santa
Maria /RS.

Tema livre apresentado como pôster na VIII jornada Sul-Brasileira de Otorrinolaringologia, em Canela RS, de 29 à 31 de outubro de 1997; e apresentado :oralmente na 12 e Reunião da Sociedade Brasileira de Otologia, Rio ele Janeiro /RJ, de 15 a 18 ele novembro ele 199-7.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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