ISSN 1806-9312  
Quarta, 17 de Julho de 2024
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2711 - Vol. 58 / Edição 4 / Período: Outubro - Dezembro de 1992
Seção: Artigos Originais Páginas: 269 a 271
Broncoscopia: Revisão de dez anos em hospital de pronto socorro.
Autor(es):
Aírton Mafinsky*,
Manja Maria Pignataro Nicolini**,
Minam Marques Mason***

Palavras-chave: broncoscopia, tratamento de emergência

Keywords: bronchoscopy, emergency treatment.

Resumo: O estudo realizado faz um levantamento retrospectivo de 93 brancoscopias efetuadas em um período de 10 anos. A presença de corpo estranho (CE) nas vias áerias deve ser suspeitada sempre que houver tosse, estertores pulmonares, diminuição dos murmúrios vesiculares e cianose em crianças. A faixa etária mais suscetível é a de zero a 2 anos, e as sementes foram os CsEs mais freqüentemente encontrados. A broncoscopia é o procedimento de escolha, apresentando um alto índice de sucesso na retirada dos CsEs com um baixo índice de complicações.

Abstract: This study is retrospective review of 98 broncoscopies in a period of ]0 years. The presence of a foreign body (FB) in the airwy must always be suspected when there is coughing wheezing, decreased breath souds and cyanosis in children. The period of life more susceptible is from zero to 2 years old The seeds were the FB more frequenfy found. Broncoscopy is tire treatment of choice, with a high incidence of success and with few and no serious complications.

INTRODUÇÃO

Corpos estranhos nas vias aéreas são causa importante de morbidade e mortalidade nos dois extremos da vida, crianças e idosos. 1 A aspiração traqueobrônquica de corpos estranhos pode resultar em disfunção respiratória aguda, infecções pulmonares crônicas, atelectasias e morte. Qualquer objeto que uma criança coloque na boca pode ser aspirado. Estes podem variar de pequenas peças de brinquedos a parafusos, sendo que as sementes, grãos ou fragmentos vegetais são os mais freqüentes, geralmente radiolucentes e não identificados no raio X de tórax de rotina. A aspiração de corpo estranho deve ser, portanto, considerada em qualquer criança com problemas pulmonares inexplieados.

O objetivo dos autores foi realizar um levantamento retrospectivo das broncospias efetuadas no Hospital de Pronto Socorro Municipal de Porto Alegre em um período de dez anos (1980 - 1989).

MATERIAL E MÉTODOS

No período de Janeiro de 1980 a dezembro de 1989, 98 pacientes foram admitidos no Hospital de Pronto Socorro com o diagnóstico presuntivo de aspiração de corpo estranho e foram submetidos a broncoscopia com broncoscópio rígido, da marca Storz, com fonte de luz fria. Os autores revisaram seus registros hospitalares a fim de obter dados de história, diagnóstico e tratamento.

RESULTADOS

A idade dos pacientes variou de 9 meses a 74 anos de idade, distribuídos conforme a figura 1. Cinquenta e quatro pacientes eram do sexo masculino e 44 do sexo feminino.



FIGURA I- Idade.



A tabela I lista o motivo da consulta do encaminhamento do paciente. Além da suspeita de aspiração, muito freqüente, tosse e dispnéia foram importantes manifestações apresentadas pelos pacientes. Setenta e cinco por cento destes suspeitavam qual o tipo de objeto que havia sírio aspirado.

Vários pacientes nos quais inicialmente não é feito o diagnóstico de aspiração, são tratados para pneumonia ou asma 4 Em nosso levantamento a antibiotieoterapia foi o recurso mais freqüente aplicado previamente à brancoscopia. (vide tabela II )

Os achados observados ao exame físico estão na tabela III. Muitas vezes os pacientes apresentavam-se em bom estado geral, sem sinais de sofrimento respiratório agudo. Estertores pulmonares, cianose e diminuição dos murmúrios vesiculares foram os mais importantes dados obtidos ao exame do paciente. Um paciente apresentou orifício de entrada de projetil de arma de fogo no seio maxilar direito e de saída no palato mole, com posterior aspiração do mesmo.

O raio X de tórax foi o exame complementar usado no auxílio diagnóstico. Cinquenta e sete por cento dos pacientes tinham raio X sugestivo de presença de corpo estranho nas vias aéreas. Os achados radiológicos relatados foram atelectasias, hiperinsuflação pulmonar, focos de consolidação e visualização de objetos radiopacos.

Cinquenta e quatro por cento dos pacientes foram submetidos a broncoscopia nas primeiras 6 horas de admissão hospitalar.

As sementes foram o tipo de corpo estranho mais encontrado conforme mostra a figura II. Em 8 pacientes não foi encontrado corpo estranho algum.

O brônquio fonte direto foi, por razões anatômicas, o mais freqüente sítio de alojamento de corpos estranhos. (60% dos casos). O brônquio fonte esquerdo e a traquéia contribuíram com 16.3 % e 11.2 % dos casos, respectivamente.

As complicações pós operatórias foram infreqüentes e reversíveis, tendo-se registrado 6 casos de edema de glote, 2 casos de laringoespasmo, uma parada cardiorrespiratória e um episódio de hemorragia. Não houve óbitos.



TABELA I- Motivo da consulta.



TABELA II- Tratamentos prévios à broncoscopia.



DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

A aspiração de objetas estranhos é a maior causa de dano à via aérea em crianças, e uma causa comum de mortes acidentais nos primeiros anos de vida 3. A prevenção deve ser a principal preocupação ao lidar-se com este problema. O médico deve instruir os pais no sentido de evitar estes acidentes e os pais, par sua vez, devem proteger suas crianças de objetos que possam ser aspirados. Estes segundo a literatura, são na maioria das vezes sementes.1,2,4,5,9



FIGURA II- Tipos de corpo estranho encontrados.



TABELA III- Achados ao exame físico.



Não existe nenhum sinal ou sintoma específico de aspiração, e portanto o médico deve manter um alto índice de suspeita para que o diagnóstico seja feito :4 Wiseman5 sugere uma tríade, que consiste de tosse, estertores e diminuição dos murmúrios vesiculares pulmonares, altamente sugestiva de aspiração. O raio X de tórax é um método diagnóstico valioso nestes casos, mostrando atelectesias, hiperinsuflação pulmonar focos de consolidação e corpos estranhos radiopacos 2,3,4,5,6,8. Algumas vezes, porém, o exame é normal.

O tratamento de escolha é a broncoscopia. Nos casos aqui relatados, o procedimento foi realizado com broneoscópio rígido. Alguns autores defendem o uso do broncoscópio flexível em adultos. 10,12,14 Em crianças o broncoscópio rígido continua sendo o instrumento de escolha para a retirada de corpos estranhos. 7,8,9,10

O surgimento de novas técnicas e equipamentos para broneoscopia tem diminuído muito a morbidade e mortalidade deste procedimento. Atualmente, o grande índice de sucesso na retirada dos objetos e a raridade das complicações justifica plenamente o seu uso 11.

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* Médico chefe do Serviço de Otorrinolaringologia e Broncoesofagologia do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre.
** Médica residente do 2° ato do Departamento de ORL do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
***Médica residente do 2° ano do Departamento de ORL do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Instituição onde o trabalho foi realizado. Hospital de Pranto Socorro de Porto Alegre, localizado à Av. Osvaldo Aranha sn.

Endereço do autor responsável:

Av. Venâncio Aires, 1192 sala 12 - Porto Alegre - RS Informação sobre congresso:
Apresentado no XXX Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia e XXIII Congresso Brasileiro de Endoscopia Peroral, de 27 de outubro à 1 de novembro no Rio de Janeiro, RJ.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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