ISSN 1806-9312  
Quinta, 18 de Abril de 2024
Listagem dos arquivos selecionados para impressão:
Imprimir:
2681 - Vol. 58 / Edição 2 / Período: Abril - Junho de 1992
Seção: Artigos Originais Páginas: 84 a 87
Traqueotomia. Análise retrospectiva de 120 pacientes.
Autor(es):
Jair Cortez Montovani, PhD*,
Onivaldo Bretan, PhD*

Palavras-chave: traqueotomia, insuficiência respiratória

Keywords: tracheotomy, respiratory insufficiency

Resumo: Cento e vinte traqueotomias foram revisadas em período de 15 anos compreendendo o período de 1976 a 1990. Nos primeiros anos as indicações principais eram por processo inflamatório obstrutivo respiratório agudo. Nos últimos anos uma mudança gradual das indicações para cirurgia reconstrutiva e trauma facial. Estenose subglótica foi observada em 6 pacientes após intubação orotraqueal e traqueotomia.

Abstract: One hundred twenty tracheotomies are reviewed over 15 year period 1976 - 1990. Early in the series acute inflamatory airway obstruction was the major indication for tracheotomy. In the last years tracheotomy prior to reconstructive surgery for major craniofacial trauma is becoming more frequent. Acquired subglotic stenosis was observed in six patients after long term orotracheal intubation but there was no case of post tracheostomy stenosis.

INTRODUÇÃO

Traqueotomia é conhecida há mais de dois mil anos e suas indicações bem conhecidas. Estas incluem combinações de parâmetros clínicos e laboratoriais, principalmente gasimétricos e foram discutidos por vários autores. 1,2,3,4.

MATERIAL E MÉTODOS

Este trabalho revisa 120 pacientes submetidos à traqueototnia. Todos estes procedimentos foram feitos pela Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Botucatu, nos últimos 15 anos. Foram excluídos do estudo os pacientes portadores de neoplasias cervicofaciais e os submetidos à traqueotomia em outros hospitais e posteriormente encaminhados ao nosso hospital.

Neste grupo de 120 pacientes, revisamos as indicações das traqueotomias em relação à causa primária da admissão dos pacientes no hospital, separando-os em grupos etários e sexo.

Após a revisão, colocamos os resultados em tabelas numeradas de 1 a 5.

RESULTADOS

Estudamos 40 pacientes do sexo feminino e 80 do sexo masculino. A idade variava de recém-nascido a 80 anos, sendo que cerca de 33% dos pacientes estavam no grupo etário de 20 a 39 anos.

Em relação à causa primária de indicação de traqueotomia, a doença infecciosa aguda predominava no grupo de 0 a 19 anos; sendo que no grupo de 20 a 39 anos a principal causa era politraumatismo, a maioria devido a acidentes com veículos automotores.

Observamos nos pacientes com traumatismos e traqueostomia, um amplo predomínio do sexo masculino em relação ao feminino.


TABELA 1- Distribuição dos paciente segundo grupo etário e sexo.



TABELA 2- Distribuição por grupo etário 0-19 anos e etiologia. 24 pacientes.




No grupo 40 a 59 anos, 14 pacientes relacionavam-se com doenças infecciosas agudas e 16 distribuíram-se entre traumas (5), acidente vascular cerebral (5) e seis, após complicações cirúrgicas ou entubação orotraqueal prolongada.

No grupo de 60 anos ou mais, 50% dos pacientes tinham como causas primárias doenças infecciosas agudas, inclusive duas indicações por tétano.

Quanto as complicações em si encontramos 6 pacientes com estenose traqueal após intubação.

DISCUSSÃO

Embora os termos traqueostomia é traqueotomia sejam usados indiferentemente por vários autores5,6, em nosso trabalho adotamos o termo traqueotomia como procedimento cirúrgico que abre a traquéia através das diferentes camadas da linha média do pescoço, sendo que a ferida cirúrgica cicatrizaria por segunda intenção, e a abertura mantida por cânula traqueal2,4.

A maioria de nossos procedimentos cirúrgicos foram precedidos de entubação orotraqueal, sendo a traqueotomia realizada como primeiro procedimento apenas em ferimentos de laringe, trauma facial e difteria. Cabe ainda observar que a entubação naso-traqueal apresenta inúmeras vantagens em relação à orotraquéal e à própria traqueotomia: como o uso de cânulas mais finas, tomando a decanulação mais difícil principalmente em crianças e pacientes com agitação psicomotora 7,8. Na entubação orotraqueal utiliza-se tubos de diâmetros maiores, podendo ocorrer deslocamento do tubo durante a fase inspiratória principalmente com o uso de ventiladores, traumatismo da parede traqueal e de entubação e retenção de secreção. Nos últimos anos estamos adotando a entubação naso-traqueal como rotina e para tanto necessitamos cada vez mais de uma melhor adequação e treinamento das equipes5,9. Mesmo assim encontramos apenas seis pacientes, com estenose traqueal após intubação correspondendo a 5%, não sendo diferente de outros autores que citam entre 4 a 8,5%10. Atribuímos estes resultados a condições citadas anteriormente da entubação oro-traqueal, mas devemos salientar outras causas como a própria doença básica, o tipo de material de intubação e o próprio ato de intubação em si.



TABELA 3- Distribuição por grupo etário 20-39 anos e etiologicos. 41 pacientes.



Apenas em 1 caso, após aderência da cuff à parede laríngea e traqueal, tivemos a formação de sinéquia e estenose subglótica. Este paciente fora anteriormente submetido à cirurgia para correção de fissura palatina e entubação oro-traqueal. Revisando os procedimentos adotados neste caso, descobrimos que o tubo fora esterilizado a quente com amolecimento do "cuff".

Em 2 casos a estenose subglótica desenvolveu-se semanas após a intubação o que já fora relatado em trabalho anterior9, sendo assim orientávamos todos os pacientes e seus familiares para retornarem ao ambulatório durante o primeiros 6 meses, para melhor controle dos mesmos.

Em relação às complicações da traqueotomia, fora as imediatas e mesmo assim de fácil previsão e correção, não tivemos outras complicações. Mesmo a decanulação que alguns autores citam de difícil execução, sendo esta mais comum em crianças, em nosso trabalho quase não a observamos, talvez por adotarmos um critério de decanulação progressiva e, se necessário, a sedarão e retirada da cânula enquanto a criança estava dormindo. É também verdadeiro que em 2 casos encontramos dificuldades na decanulação mas estas foram associadas a trauma extrínseco de laringe e conseqüentemente a causa etiológica em si.

Ainda sobre a estenose traqueal, não a encontramos após a traqueotomia. Relacionamos esta observação ao procedimento cirúrgico, sendo este realizado quase sempre pela mesma equipe cirúrgica e pelo mesmo tipo de técnica, realizando-se apenas a incisão vertical no 3°- e 4o anéis traqueais11. Podemos observar uma mudança em relação as indicações da traqueotomia sendo as causas etiológicas, como as traumáticas, mais evidentes nos grupos entre 20 a 39 2,12,13



TABELA 4- Distribuição em relação ao grupo etário 40-59 anos e etiologia.



TABELA 5- Distribuição dos pacientes segundo o grupo etário 800 anos ou mais e etiologia. 24 pacientes.



Quanto às doenças infecciosas agudas em nosso trabalho, as indicações foram principalmente nos grupos 0-19 e 60 anos ou mais. Já a análise do grupo 40 a 59 anos foi prejudicada, pois eliminamos deste trabalho inúmeros pacientes com doenças neoplásicas cervico-faciais submetidos a traqueotomia. Ainda assim observamos que, em relação às doenças infecciosas agudas, talvez a principal importância da traqueotomia e doenças infecciosas de vias respiratórias sejam a limpeza da árvore traqueobrônquica do que qualquer outra consideração.

Assim, os resultados satisfatórios destes 120 pacientes permitem-nos afirmar com convicção que a intubaçâo e traqueotomia, desde que realizadas por equipes com razoável nível de treinamento e preparo, minimizam as eventuais complicações, devendo como tal ser uma preocupação constante de qualquer serviço hospitalar.

BIBLIOGRAFIA

1. BENJAMIN, B.: Tracheotomy in infants and children. J.Otol Laryngol. Soc Aust. 3:254-9,1971.
2. CARTER, P.; BENJAMIN, B.:Ten-year Review of pediatric tracheotomy. Ann Otol Rhinol Laryngol. 92:398-400,1983.
3. COHEN, S.R.;EAVEY, R.D.; DESMOND, M.S.; MAY, B.C.:Endoscopy and tracheotomy in the natal period. Ann Otol Rhinol Laryngol 86:577-83,1977.
4. SHULTESS VON, G.: Tracheotomy: Complications and late sequelae. Arch. Otolaryng, 82:405-408,1965.
5. ANDREWS, M.J.; PEARSON, F.G.: Incidence and pathogeneses of tracheal injury following cuffed tube tracheotomy with assisted ventilation. Analysis of a two-year prospective study. Am Surg., 173(2):249-263; 1971.
6. LORÉ, J.M.: Tracheotomy. Arch Otolaryng, 68:727-738, 1958.
7. BENJAMIN, B; O'REILLY, B.: Acute epiglotittes in infants and children. Ann Otol Rhinol Laryngol, 85:565-72, 1976.
8. ZULLIGER, J.J.; SIIULLER, D.E.; BEACII, T.P.; GARVIN, J.P.; BIRCK, I I.G.; FRANK, J.E.: Assestment of intubation in croup and epiglottitis. Ann Otol. Rhinol Laryngol, 91:403-6,1982.
9. NORRIS, C.M.: Laryngeal and tracheal trauma in association with intubation. J.F.O.R.L., 23(2):163-167,1974.
10. MARHAK, G.; GREENDFAST, K.M.: Subglottic stenosis. Pediatric Clin North Am, 28:941-8, 1981.
11. WEBB, W.R.; OSDEMIR, A.; IKINS, P.M.; PARKER, F.B.: Surgical management of tracheal stenosis. Ann Surg., 179(5):819824,1974.
12. GERSON, C.R.; TUCKER, G.F.: Infant tracheotomy. Ann Otol Rhinol Laryngol, 91: 413-6, 1982.
13. MUHERYEE, D.K.: The changing concepts of tracheostomy. J. Laryngol Otol, 93:899-907, 1979.




* Professor Assistente Doutor, Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Botucatú - UNESP.
Trabalho realizado pela Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. UNESP. Botucatu, S.P., Brasil - CEP 18610.

Este trabalho mostra a experiência da Disciplina de Otorrinolaringologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, em um período de 15 anos.

Endereço do autor: Prof.Dr.Jair Cortez Montovani -
Depto. Oftalmologia e Otorrinolaringologia Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP Botucatu - SP - Brasil - CEP 18610.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


Imprimir:
Todos os direitos reservados 1933 / 2024 © Revista Brasileira de Otorrinolaringologia