ISSN 1806-9312  
Segunda, 27 de Maio de 2024
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2467 - Vol. 60 / Edição 1 / Período: Janeiro - Março de 1994
Seção: Artigos Originais Páginas: 48 a 53
Tratamento Endoscópico do Megaesôfago Chagásico - Relato de 70 casos
Autor(es):
Mareio Arruda *,
Dayse Luce de Oliveira **

Palavras-chave: esôfago, esofagoplastia

Keywords: esophagus, esophagoplasty

Resumo: Nos países Sul-Americanos, a Doença de Chagas é a principal causa de megaesôfago e megacolo adquirido. Para tratamento, existem várias técnicas. 0 procedimento apresentado pelos autores é a dilatação do esfíncter esofágico inferior com bolsa pneumática, responsável pela rotura de fibras musculares do esfíncter. Após o acompanhamento, no período de cinco anos, de 70 pacientes com diagnóstico de megaesôfago chagásico, a maioria submetida ao tratamento endoscópico através de dilatação com balão pneumático sob controle radioscópico, foi considerado tratamento paliativo, todavia uma boa opção para pacientes com idade avançada, sem condições cirúrgicas ou que não aceitam cirurgia.

Abstract: In the South-American countries, the Chagas disease is the mainly origin of megaesophagus and megacolo acquiring. There are many twhnics of treatment. The autores try to explain the dilatation of inferiorsfincter of the esophagus witlá pneuma tic baloon of Rusch, responsible for the rupture of the muscle fibras of thesfineter. Afterthe accompany of Chagasic megaesophagus, subjected to the endoscopic treatment throught the dilatation with pneumatic ballon of Rusch with radioscopic control, where considered paliative, althought a good choice to the patients with high age, without sutgery condition or that doesn't accept surgery.

INTRODUÇÃO

A Doença de Chagas ou Tripanossomíase Americana, nos países sul-Americanos, é a principal causa de megaesôfago e megacolo adquirido. No Brasil, a proporção de megaesôfago ehagásico, comparado com megaesôfago idiopático, é 20:1. Os Estados de Minas Gerais, São Paulo e Goiás têm contribuído com o maior número de casos conhecidos na literatura médica. Existem diferenças marcantes de prevalência do megaesôfago em áreas onde a Doença de Chagas é endêmica. Essas diferenças regionais podem ser atribuídas à existência de cepas diversas do T. Cruzi.

O primeiro caso de "aperistalse chagásica" foi publicado em 1670 por Sir Thomas Willis'. Em 1909 Chagas elucidou a Tripanossomiase Americana e desde então as descrições se tornaram mais completas. Nas áreas dilatadas e hipertrofiadas, e também no estômago e intestino delgado, foram encontradas alterações histológicas no plexo mioentérico do trata gastrointestinal, levando a lesões patológicas com diminuição e degeneração das células ganglionares e fibras nervosas, com infiltrado inflamatório crônico (1932). Essas alterações, provavelmente, são a causa do megaesôfago. Em 1956, em um estudo na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, verificou-se que em pacientes portadores de Doença de Chagas havia diminuição de células ganglionares no esôfago, porém o mega só aparecia após perda de mais de 90% delas. O esôfago iniciava manifestações morfológicas após perda de 50%'.

As alterações da motilidade do esôfago se traduzem clinicamente por disfagia; radiologicamente por dilatação, retenção do contraste e estreitamento do esôfago distal.

O megaesôfago chagásico é mais comum no sexo masculino e na faixa dos 30-40 anos. O início da disfagia ocorre antes dos 40 anos, em 80% dos casos. Bloqueio do ramo direito e extra-sistole ventricular são alterações cardiológicas observadas em 50% dos pacientes. As reações sorológicas da Doença de Chagas são positivas em 90% dos pacientes=, porém muitos pacientes soro-negativos apresentam manifestações clínicas inequívocas de Doença de Chagas, como megacolo e cardiopatia. As manifestações clínicas vão depender do estádio em que se encontra a afecção'. Para fins práticos, foi criada a divisão dos pacientes em 4 grupos (Quadro 1) com características clínicas e radiológicas bem definidas. Fundada no aspecto radiológico, essa classificação tinha inicialmente sentido morfológico, contudo a experiência mostrou haver correlação do aspecto radiológico com manifestações clínicas e achados endoscópicos e manométricos.





Além das alterações próprias do megaesôfago, registram-se os seguintes achados endoscópicos. esofagite de estase, esofagite de refluxo, estenose de esôfago, câncer de esôfago, hérnia hiatal, varizes esofagianas, leucoplasia, refluxo biliar duodeno-gástrico, gastrite crônica e úlcera gástrica'.

A associação de megaesôfago e carcinoma é de 9,28%, com comprometimento do estado nutricional geral, levando à má evolução e sobrevida curtas.

Empregada há mais de 70 anos, para enfraquecer o esfincter esofagiano inferior, a dilatação esofágica facilita o esvaziamento esofagiano. Instrumentos hidrostáticos, mecânicos ou pneumáticos têm sido empregados, porém a dilatação pneumática tem sido usada mais amplamente, levando em conta, principalmente, os custos e facilidade de manuseio'.



Figura 1 - Distribuição dos pacientes com Megaesôfago Chagásico, por idade e sexo.(49)



CARACTERÍSTICAS

- Esôfago com diâmetro normal, pouca retençã de bário. Esôfago tubular e aberto, com coluna aérea superior.

- Sintomas de disfagia mais pronunciados, dor esofagiana, esôfago com 3-5 cm de calibre, presença de ondas terciárias e regurgitações.

- Maior dilatação e menor atividade motora do esôfago, regurgitação mais freqüente, aspiração, hipertrofia de parótida.

-Atonia e alongamento do órgão. Regurgitação clinos tática noturna, complicações pulmonares, calibre d esôfago com 8-10 em.

A endoscopia nomegaesófago encontra, ainda, indicação no controle de dilatação forçada do cárdia'.

Os autores procuram estabelecer a correlação entre a melhora clínica, radiológica e endoscópica no grupo de pacientes com megaesôfago chagásico, escolhido para propedêutica com dilatação esofágica com balão pneumático sob controle radioscópico.

CASUÍSTICA E METODOLOGIA

No Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte foi realizado um estudo prospectivo de 70 pacientes portadores de megaesófago chagásico, variando de 18 a 87 anos, sendo 45 masculinos e 25 femininos.Não houve predominância de sexo por faixa etária (Fig. 1).

Os pacientes foram selecionados através de exame clínico, radiológico e endoscópico. Características bem definidas dos quatro grupos de megaesôfago chagásico, encontradas entre os nossos pacientes, são apresentadas nas figuras 2, 3,4 e 5 de Rxcontrastado. Após esofagoscopia,18 pacientes foram encaminhados diretamente à cirurgia e em 52 pacientes foi realizada a esofagodilatação. Destes, 48 foram esofagodilatados e em 4 pacientes este procedimento foi ineficaz, sendo eles encaminhados à cirurgia. Ressalta-se que, entre os esofagodilatados, 4 pacientes haviam sido submetidos a cirurgia prévia, sem sucesso.

Vários fatores foram considerados para indicação de tais procedimentos: idade do paciente, risco anestésico, preferência do paciente, problemas clínicos e influência risco-benefício.

O período de acompanhamento dos pacientes foi de 5 anos e o parâmetro de comparação foi melhora clínica, radiológica e endoscópica. O instrumento utilizado foi balão pneumático sob controle radioscópico.



Figura 2. Megaesôfago Chagásico Grupo 1



Figura 3. Megaesôfago chagásico Grupo II



Figura 4. Megaesôfago chagásicoGrupo III



Figura 5. Megaesôfago chagásico Grupo IV



Figura 6 - Resultado final dos 70 pacientes




Figura 7 - Resultado das 52 esofagoscopias com dilatações



Aconduta realizada foi uma dilatação esofágica e retorno em 30 dias para avaliação (procedimento ambulatorial). Os pacientes foram submetidos a novas dilatações com espaço mínimo de 30 dias e máximo de 6 meses.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Como resultado final dos 70 pacientes, observamos 68,6% de dilatações com evolução satisfatória (48 pacientes) e 31,4% (22 pacientes) com indicação de intervenção cirúrgica (18 encaminhados diretamente e 4 após esofagodilatação em sucesso) (figura 6).

Dos 52 pacientes que foram submetidos à esofagoscopia com dilatações, 48 foram esofagodilatados com sucesso e em 4 o tratamento foi ineficaz (figura 7).

A esofagodilatação não é isenta de riscos. Na ordem de gravidade, podem ocorrer: perfuração com mediastinite, sangramento intestinal, dor esofágica (pirose, epigastralgia), dor referida (escápula direta, auricular) etc.
Apesar das complicações descritas, em nosso serviço registraram-se apenas dor esofágica, pirose e dor referida para a escápula direta, que obtiveram melhora com Buscopan ou Baralgin EV.

CONCLUSÕES

O presente trabalho visa estabelecer, através deste estudo prospectivo do grupa de pacientes com diagnóstico de megaesôfago, a terapêutica de esofagodilatação através do balão pneumático sob controle radioscópico, como indicação para pacientes já submetidos a cirurgias prévias, porém sem sucesso; pacientes com idade avançada; em portadores de alto risco cirúrgica e anestésica (patologias debilitantes etc.) e para pacientes que recusam o tratamento cirúrgico.

Os autores enfatizam que o método proposto, apesar de não ser isento de riscos, é de fácil aplicação e controle e, além disso, apresenta excelente resultado clínico/radiológico/endoscópico.

REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA

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* Chefe do Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Departamento de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte - Belo Horizonte - Minas Gerais
** Residente do Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Departamento de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte - Belo Horizonte - Minas Gerais.

Endereço: SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE BELO HORIZONTE Praça Hugo Wemeck, s/n
30150-300 - Santa Efigênia Belo Horizonte - Minas Gerais Trabalho apresentado no I Encontro Médico da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, em 17/0911942.
Artigo aceito em 15 de setembro de 1993.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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