ISSN 1806-9312  
Segunda, 20 de Maio de 2024
Listagem dos arquivos selecionados para impressão:
Imprimir:
2460 - Vol. 60 / Edição 1 / Período: Janeiro - Março de 1994
Seção: Artigos Originais Páginas: 15 a 18
Estudo das Emissões Otoacústicas Evocadas em Adultos Jovens Audiologcamente Normais
Autor(es):
Gilberto Gattaz (1),
Marisa Ruggicri (2),
Priscila Bogar (3)

Palavras-chave: Otopatias, surdez, audição, audiometria

Keywords: Ear diseases, deafness, hearing, audimetry

Resumo: O estudo das EOAEs é o mais recente avanço na pesquisa de patologias otológicas e avaliação audiológica. Após a realização de 20 EOAEs em adultos jovens ouvintes normais, os autores mediram as amplitudes ao redor das freqüências de 500, 1000, 2000, 3000, 4000, 5000 e 6000 Hz, e a freqüência de maior amplitude para cada ouvido. O resultado do trabalho foi a elaboração de uma curva- padrão entre amplitude e freqüência das emissões em normo-ouvintes jovens.

Abstract: The study of OAEs is the most recent advance in the research of the audiology evaluation and ear-pathology. After the realization of20 evoked OAEs in normal hearing young adults, the authors measured the amplitude around the frequencies: 500, 1000, 2000, 3000, 4000, 5000 and 6000 Hz, and the frequency of Me major amplitude in each ear. The final result was the elaboration of a patter curve between the frequency and amplitude in OAE of normal hearing young adults.

INTRODUÇÃO

O registro das Emissões Otoacústicas Evocadas (EOAEs) é o mais novo método para a detecção de alterações auditivas de origem coclear. Em decorrência de todas as suas indicações, esse procedimento deverá caracterizar a década de 90 na área audiológica'. Consiste em um método objetivo, rápido, não invasivo, dispensando o uso de eletrodos, e que pode ser realizado em qualquer faixa etária, ressaltando-se sua indicação em recémnascidos já nos primeiros dias de vida'-s.

As Emissões Otoacústicas (EOAs) foram primeiramente observadas por David Kemp em 1978, o qual definiu-as como a liberação de energia sonora na cóclea, que se propaga na orelha média até alcançar o conduto auditivo externo°. Quatro tipos de otoemissões podem ser registrados: Emissões Otoacústicas Espontâneas, Evocadas (EOAE), Produto de Distorção e Estimulação Continuadas. No entanto, até a presente data, somente o registro das EOAEs teve sua aplicação clínica consagrada e tem sido utilizado como mais um importante procedimento na avaliação audiológica.

Este método não quantifica a Deficiência Auditiva, porém ele detecta a sua ocorrência, visto que as EOAEs estão presentes em todos os ouvidos funcionalmente normais e deixam de ser observadas quando os limiares auditivos normais encontram-se acima de 20-30 dBNA,6.

Probst (1990) refere uma incidência de 98% de EOAEs em indivíduos adultos audiologicamente normais. Kemp e cols obtiveram uma incidência de 100%. Os dados de diversos autores sustentam que as EOAEs são registradas em neonatos nesta mesma proporção8.9.

O descobrimento das EOAs contribuiu substancialmente para a formação de um novo conceito sobre a função da cóclea, mostrando que esta não é só capaz de receber sons, mas também de produzir energia acústica'. Esse fenômeno está relacionado ao processo de micromecânica da cóclea e o fato de as EOAs serem geradas na cóclea sugere que nesta se encontre um componente mecanicamente ativo acoplada à membrana basilar, através do qual o processo reverso de transdução de energia sonora ocorra. Essa propriedade tem sido recentemente atribuída às células ciliadas externas. Alguns autores têm sugerido que a motilidade das células externas, demonstrada in vitro, possa a ser a fonte geradora das EOAs11.



GRÁFICO 1 - Esse gráfico representa a distribuição das EOAEs em todas as frequências segundo a sua amplitude (N=20).



GRÁFICO 2 - Esse gráfico representa a media e o desvio padrão em dB das EOAEs nas diferentes frequências



O objetivo do presente trabalho é estudar a incidência e algumas características dos registros das EOAEs em uma população de indivíduos adultos, audiologieamente normais.

METODOLOGIA

Foram estudados 10 indivíduos (4 do sexo masculino e 6 do sexo feminino) com idade variando entre 17 e 23 anos (média de 22 anos).

Como critério de seleção, considerou-se ausência de patologia otológica, exame otoscópico normal, assim como avaliação audiométrica tonal e impedanciométrica dentro da normalidade. Todos os indivíduos foram testados bilateralmente (20 ouvidos), utilizando-se um audiômetro Maico MA22 e um impedanciômetro Interacoustics AZ7. A seguir, efetuou-se o registro das EOAEs bilateralmente, utilizando-se um equipamento IL088 (Otodynamics Ltd), em cabine acústica e obedecendo aos parâmetros originais de seu programa, referentes ao tipo de estímulo (Click), ao número total de estímulos (260 estímulos registrados), apresentados segundo a técnica não linear.



GRÁFICO 3



Cuidados foram tomados para obter-se adaptação ideal da sonda no conduto auditivo externo, evitando-se a produção de artefatos ou a contaminação por ruído.

O teste das Emissões Otoacústicas Evocadas apresenta o registro de dois traçados (A e B), correlacionados com o período de latência. A comparação desses traçados conferem areprodutibilidade do teste. O critério para estabelecer-se a presença das emissões foi uma correlação dos traçados, maior que 50%.

Em todos os indivíduos estudados, os limiares auditivos tonais não ultrapassaram 24dB em todas as freqüências testadas. A tabela I mostra um audiograma com a média aritmética desses limiares para cada freqüência.

O teste impedanciométrico foi realizado para excluir alterações da orelha média, que pudessem comprometer o registro das EOAEs. As curvas timpanométricas encontradas foram do tipo A segundo a ciassificaçã de Jerger. Os reflexos estapedianos estiveram sempre presentes com seus limiares dentro da normalidade.

A figura I mostra um registro típico das EOAEs em um adulto. No retângulo maior observam-se os traçados A e B sobrepostos, mostrando a correlação sobre os mesmos, e a sua reprodutibilidade está expressa em porcentagem, no quadro à direita. Eles representam a resposta coclear relacionada ao período de latência. Já no quadro acima, vê-se o espectro de respostas mostrando sua amplitude (expressa em dB), nas respectivas freqüências. A área escura denota o ruído ambiental ou produzido pelo paciente durante o teste. Na coluna de quadros mais à direita são apresentados dados sobre: a intensidade máxima do ruído, o número de estímulos registrados e rejeitados; a intensidade da resposta; a intensidade máxima do estímulo; a estabilidade da adaptação da sonda do conduto auditivo e o tempo de duração do teste.


Tabela I - média aritmética de limiares tonais nas diversas freqüências.



Em nosso estudo, pudemos registrar a presença das EOAEs em todos os ouvidos testados (N=20), obtendo-se uma reprodutibilidade média de 86,4% (desvio-padrão de 8,6%). Apenas 1 indivíduo apresentou uma baixa reprodutibilidade de 65%, em um dos ouvidos. Na tabela II são apresentados os valores máximos das amplitudes das respostas, respectivas a cada freqüência do espectro. Estes estão dispostos no gráfico I. O gráfico II mostra os valores médios com seus desvios - padrões. Nota-se que as maiores amplitudes de respostas ocorreram em torno de 1 KHz e 2 KHz, seguidos de 4 KHz, e diminuindo significativamente a partir de 5 KHz.

Todos os ouvidos testados apresentaram respostas em 1,2,3 e 4 KHz; 90% apresentaram respostas em 1,2,3,4 e 5 KHz, e 50% apresentaram emissões em 0.5,1,2,3,4,5 e 6 KHz (tabela II).

Analisando-se os quadros de espectros de respostas, verificase a presença de um maior pico de amplitude, o qual ocorreu em 830 e 3610 Hz, com amplitudes que variaram de -5,3 à +5,6 dB (tabela II e gráfico III). Em 16 ouvidos (80%), o maior pico situouse entre 800 a 2000 HZ (gráfico III).

Um indivíduo pode apresentar maior pico de amplitude em freqüências distintas em cada ouvido, como, por exemplo, o caso 6, que apresentou à direita em 830 Hz e à esquerda em 3610 Hz (tabela II).

Para um indivíduo cujos limiares tonais encontrem-se idênticos bilateralmente em determinada freqüência, as EOAEs podem apresentar amplitudes distintas na respectiva freqüência.

A duração do teste para o registro das EOAEs variou de 1 min 1 segundo a 1 minuto 14 segundos, para cada lado, perfazendo uma média de 1 minuto e 4 segundos.



FIGURA 1 - registro típico da EOAE (ver texto).



Observando-se o gráfico II, verifica-se que na população estudada há uma diminuição abrupta e progressiva das respostas nas freqüências de 5 KHz a 6 KHz. Somente em 50% dos ouvidos não se registraram respostas de b KHz. Considerando-se que 90% dos casos obtiveram respostas em 1,2,3,4 e 5 KHz, o teste das EOAEs demonstrou uma alta sensibilidade e especificidade para as freqüências acima.

Finalmente, o registro das EOAEs possibilita a avaliação da função coclear de maneira objetiva não invasiva, rápida (média de 1 minuto e 4 segundos) e de alta sensibilidade. Este teste vem aliarse à bateria de testes para a avaliação audiológica, auxiliando a realização do diagnóstico precoce da deficiência auditiva e a triagem auditiva, onde salientamos a sua aplicabilidade também em recém-nascidos.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

Os resultados puderam mostrar que as EOAEs estiveram presentes em 100% dos ouvidos testados (N=20), de uma população de adultos jovens na faixa etária de 17 a 26 anos, que apresentaram limiares auditivos tonais melhores que 25 dBNA. Consideramos como critério estabelecer a presença das EOAEs uma reprodutividade acima de 50% (correlação entre os traçados A e B). Estes dados estão de acordo com os de outros autores, embora tenhamos estudado uma população proporcionalmente menor. A média devalores de regrodutibilidade encontrou-se bem acima de 50%, mantendo-se em 86,4% com desvio-padrão de 8,5. Um único ouvido testado apresentou uma porcentagem menor (65%), apesar de possuir avaliação otoscópica e audiológica normais. Visto que as EOAEs devam ser geradas pelas células ciliadas externas, podemos levantar a hipótese de estarmos detectando precocemente um possível comprometimento dessas células, antes mesmo de ocorrerem alterações subjetivas dos limiares tonais. Contudo, os prováveis fatores etiológieos, neste caso, não nos foi possível identificar.

Também pudemos evidenciar que a presença das EOAEs oferece uma informação apenas qualitativa, indicando normalidade das estruturas pré-neurais. Ao analisar o espectro de respostas (freqüências X amplitudes), concluímos não haver relação entre o tamanho da amplitude e o limiar auditivo tonal (dBNA), nas freqüências correspondentes. Porém, é comprovado que a ausência das emissões é encontrada quando os limiares tonais estão acima de 30 dBNA4. A ocorrência do maior pico de amplitude em

REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA

1. Hall III, J.W. Otoacustic Emissions: The Audialagie Test Procedure of the 1990s. The Hearing Tournal, 45: 7, 1992.
2. Kemp, D.T.; Ryan, S.; Bray, P. Otoacustic Emission Analysis and Interpretation for Clinieal Purposes. Adv Audiol. 7: 77-98, 1990.
3. Kemp, D.T.; Ryan, S.; Bray, P. A Guide to Effective Use of Otoacustic Emissions. Ear and Hearing. 11: 93-105, 1990.
4. Kemp, D.T. e cols. Acustic Emission Cocheography: Pratical Aspects. Scand Audiol, Suppl. r5: 71-95, 1986.
5. Devries, S.M.; Decker, N. Otoacustic Emissions: Overview af Measurement Methodologies. Seminars in Hearing, 13: 15-22, 1992.
6. Bonfils, P. e cols. A Correlative Study of Evoked Otoacustic Emissions Properties and Audiometric Threashores. Arch Otorhinolaryngol. 245: 52-56,1988.
7. Probst, R. Otoaeustic Emissions: An Overview. Adv OtorhinolarLeol. 44: 1-91, 1990.
8. Plinkert, P.K.; Krober, S. Frucherkennung Einer CisplatinOtotoxizitaet Durch Evozierte Otoakustiche Emissionen. Lar~neo-Rhino-Otol, 70: 457-462, 1991.
4. Prieve, B.A. e cols. Otaacustics Emissions in an Adult with Severe Hearing Loss. Journal of peech and HearìngResearch.34: 379-385, 1991.
10. Lïm, D.J. Cochelar Micromechanics in Understanding Otoacustic Emission. Scand Audiol Sup$125: 17-25, 1986.
11. Norton, S.J. Cochelar Function and Otoacustic Emissions. Seminars in Hearing, 13: 1-14,1992.




(1) Professor Assistente Doutor do Curso de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação da Pontifrcia Universidade Católica de São Paulo
(2) Fonoaudióloga Pós-Graduanda (Mestrado) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Auxiliar de Ensino da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC
(3) Médica Pós-Graduanda (Doutorado) da Universidade de São Paulo. Médica Assistente de Clínica ORL do Hospital das Clínicas da USP

Endereço do Autor: Rua Cincinato Braga 59, 5° andar, cj Dl - São Paulo - SP, CEP 01333-011
Artigo aceito em 26 de junho de 1993.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


Imprimir:
Todos os direitos reservados 1933 / 2024 © Revista Brasileira de Otorrinolaringologia