ISSN 1806-9312  
Quarta, 29 de Maio de 2024
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2452 - Vol. 66 / Edição 3 / Período: Maio - Junho de 2000
Seção: Relato de Casos Páginas: 267 a 270
LIPOMAS DA LARINGE. RELATO DE CASO E REVISÃO DA LITERATURA.
Autor(es):
Fernando Cervantes*,
Pedro P. Cintra*,
Eduardo Cervantes**,
Gustavo P. Ferreira**,
José A. Pinto***.

Palavras-chave: lipoma, laringe, microcirurgia

Keywords: lipoma, larynx, microsurgery

Resumo: Os lipomas da laringe constituem um grupo de patologias raras, representando aproximadamente 0,6% dos tumores benignos da laringe. Atualmente, existem menos de 90 casos descritos na literatura mundial. Os autores apresentam um caso de lipoma laringeo localizado na região supraglótica em um paciente do sexo masculino, queixando-se de dispnéia de decúbito, engasgos e sensação de corpo estranho na garganta. Enfatizam os métodos diagnósticos e o tratamento microcirúrgico realizado.

Abstract: Lipoma of the larynx are very rare benign laryngeal tumors (0,6%). Less than 901aryngeal lipoma have been described in the literature. The authors present a case of laryngeal lipoma localized in the supraglottic region in a male patient complaining of dyspnea in decubitus, choking and foreign body sensation in the throat. They emphasize the diagnostic method and the successfull microsurgical treatment.

INTRODUÇÃO

Os lipomas de laringe são tumores benignos, intrínsecos ou extrínsecos, mais freqüentemente encontrados na região supraglótica (pregas ventriculares). A localização glotica é a mais rara.

As manifestações clínicas decorrem da obstrução ao fluxo aéro-digestivo, com quadros de dispnéia, disfagia e/ou disfonia.

O diagnóstico dos lipomas da laringe é feito pelos exames radiológicos, especialmente tomografia e ressonância, e pela endoscopia da laringe.

No presente artigo, fazemos extensa revisão da literatura sobre os lipomas da laringe, abordando suas características macro e microscópicas, diagnóstico e diagnóstico diferencial e formas de tratamento, de modo a chamar a atenção elo leitor para esta pouco freqüente patologia.

Apresentamos o caso de um paciente com 74 anos de idade, com lipoma supraglótico.

REVISÃO

Os lipomas da laringe são tumores benignos, podendo ser classificados em intrínsecos e extrínsecos. Os intrínsecos têm como sítio de localização mais comum a prega ventricular, sendo freqüentemente encontrados na região supraglótica, que é a localização da maior parte da gordura laríngea, apesar do registro de um lipoma laríngeosubglótico6. Os extrínsecos são decorrentes de infiltração adiposa de lipomatoses cervicais. A localização glótica é a mais rara. Anatomicamente, podem ser pediculados ou submucosos.

Os lipomas pediculados podem causar obstrução aérea, havendo inclusive o relato de uma paciente adulta jovem que foi encontrada morta com uma tumoração saindo pela boca, diagnosticada posteriormente como um lipoma benigno pediculado2. Os lipomas submucosos deformam a laringe, podendo ocasionar obstrução parcial da via aérea, distúrbios fonatórios e ronco.

O diagnóstico dos tumores lipogênicos da laringe é amplamente facilitado pelos exames de imagem radiológica. Tipicamente, o tecido adiposo apresenta baixa atenuação à tomografia computadorizada e é menos denso que a água. Portanto, a tomografia não apenas revela a extensão do tumor, como também estabelece sua natureza lipomatosa3. Não há uma cápsula bem definida, mas a lesão é bem delineada pelo tecido mole circunvizinho. A ressonância magnética também possui valor diagnóstico5.

Histologicamente, os tumores se apresentam parcial ou completamente encapsulados. As células do lipoma são uniformes, variando um pouco na forma e no tamanho, mas sem apresentar atipia celular.

Os tumores não demonstram evidência de infiltração nem a presença de adipócitos atípicos e são caracterizados pela grande variabilidade de forma e tamanho, com núcleos hipercromáticos. Lipoblastos também não estão presentes. Na literatura, há relatos de variedades histológicas dos lipomas laríngeos benignos, como o lipoma mixóide, que é mais raro que o lipoma bem diferenciado1, e o lipoma de células fusiformes, com apenas uma descrição em toda a literatura revisada4.

No diagnóstico diferencial destas patologias entram outros tumores benignos, como o leiomioma, o condroma, o neurofibroma, o papiloma, o higroma cístico e o cisto parenquimal. No entanto, nenhuma destas lesões possui os baixos valores de atenuação à tomografia do lipoma. Na laringe, entretanto, a principal entidade a ser diferenciada do lipoma é um bem diferenciado lipossarcoma que, em contraste com o primeiro, é infiltrativo, possui evidências citológicas de pleomorfismo e atipia e contém lipoblastos8. Há o relato também de um lipoma laríngeo que, a princípio, recebeu o diagnóstico de laringocele1.

O tratamento de escolha para os lipomas laríngeos é o cirúrgico. Os tumores pequenos podem ser removidos endoscopicamente, enquanto que os maiores geralmente requerem uma abordagem externa, como laringofissura, faringotomia lateral e faringotomia anterior trans ou sub-hióidea6, 3, 5, 3, 8, 1. Alguns autores consideram ainda a apresentação anatômica da lesão: os submucosos se tratando por exposição laríngea lateral ou faringotomia lateral; e os pediculados, por via endoscópica1. No entanto, quando se planeja a abordagem cirúrgica, deve se levar em consideração não só o tamanho, mas também a localização do tumor6, 3, 7, respeitando o principio básico de tratamento para todas as lesões laríngeas benignas, que consiste na sua remoção completa e conservadora, isto é, preservando-se a função do órgão6. Independentemente do tipo de cirurgia empregada, a remoção completa da lesão é um fator muito importante no sentido de prevenir uma possível recidiva ou recorrência ou a sua eventual transformação para lipossarcoma2, 3, 4, 7. Entretanto, poucos casos de degeneração maligna de lipomas benignos foram descritos5.

APRESENTAÇÃO DE CASO

Paciente: F. C., com 74 anos ele idade, do sexo masculino, aposentado, com queixa de dispnéia ele decúbito, referindo que tinha um "negócio preso na garganta". Há reais ou menos cinco anos sentiu o problema, mas não tão intenso, com piora gradual nos últimos cinco meses. Apresenta disfagia à ingestão de alimentos líquidos e pastosos, com crises de engasgos e tosse. Tabagista moderado com antecedentes de neoplasia maligna intestinal (cirurgia seguida de quimioterapia há cinco anos).

À videolaringoscopia, observamos massa tumoral de 4x3 cm, localização no ligamento ariepiglótico esquerdo, projetando-se para o vestíbulo laríngeo, com base e mucosa normal (Foto 1). Pescoço sem alteração. Não foi realizado estudo radiológico pré-operatório.



Foto 1. Aspecto endoscópico de lipoma de laringe (pré-operatório).



O paciente foi submetido à microlaringoscopia sob anestesia geral, entubado, com exposição de massa tumoral lisa de 4x3 cm compreendendo todo o ligamento ariepiglótico esquerdo. Utilizando-se de microcautério, foi feita incisão mucosa e identificação de tecido adiposo que foi removido integralmente, com sangramento moderado e ressecção do excesso de mucosa.

O estudo histológico (Foto 2) revelou fibrolipoma e a recuperação foi excelente, com ausência dos sintomas e de seqüelas no pós-operatório (Foto 3).

DISCUSSÃO

Os tumores adiposos da laringe são raros; porém, devem ser considerados no diagnóstico diferencial dos tumores deste órgão, principalmente da região supraglótica, apresentando-se como massas individualizadas ou difusas, como as lipomatoses cervicais.

Podem manifestar-se com sintomas obstrutivos ou disfônicos, de acordo com sua extensão e localização.

Sua malignização é rara e o tratamento deve ser cirúrgico, através da via endoscópica ou cervical externa.

Em nosso caso, o paciente apresentava disfagia moderada com crises de engasgos e tosse, além de sensação de corpo estranho na faringe.

A ressecção cirúrgica foi feita através de microlaringoscopia, com recuperação completa do paciente.



Foto 2. Detalhe histológico de lipoma submucoso de laringe H&E x 100.



Foto 3. Aspecto endoscópico de lipoma de laringe (pós-operatório).



CONCLUSÕES

1. Entre os tumores benignos da laringe, os lipomas devem ser considerados no diagnóstico diferencial, principalmente os localizados na região supraglótica.

2. Os sintomas de disfagia, disfonia e dispnéia estão relacionados ao seu volume e localização.

3. O diagnóstico pode ser feito por endoscopia e pelos estudos radiológicos (tomografia e ressonância).

4. Sua malignização é rara.

5. O tratamento deve ser cirúrgico, através da via endoscópica ou cervical externa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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* Médico Otorrinolaringotlogista do Núcleo de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço de São Paulo.
** Médico Residente em Otorrinolaringologista do Núcleo de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço de São Paulo.
*** Diretor do Núcleo de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço de São Paulo.

Trabalho realizado no Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital e Maternidade São Camilo - São Paulo.

Endereço para correspondência: José Antonio Pinto - Alameda dos Nhambiquaras, 159-Moema-04090-010 São Paulo/ SP. Telefone/Fax: (0xx11) 573-1970 / 573-3497 / 571-5360 - E-mail: japorl@cepa.com.br
Artigo recebido em 25 de junho de 1999. Artigo aceito em 22 de julho de 1999.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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