ISSN 1806-9312  
Segunda, 20 de Maio de 2024
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2293 - Vol. 56 / Edição 2 / Período: Abril - Junho de 1990
Seção: Artigos Originais Páginas: 60 a 63
Otoplastia para orelha em abano
Autor(es):
Jayme Nogueira Costa*
Myriam Marajó Dal Secchi**
Jayme Nogueira Costa Filho***

Palavras-chave:

Keywords: external ear

Resumo: Das malformações da orelha, a mais encontrada é a orelha em abano, que ocorre durante a 129 a 16° semana de gestação, a anti-hélix falha em dobrar, e a hélix fica saliente. Várias técnicas cirúrgicas são utilizadas para correção. Os autores analisam a técnica que consiste em múltiplas incisões na cartilagem que determinam a quebra da mota, que é responsável pela deformidade e mostram os resultados que na maioria dos casos foram bons.

Introdução

Várias técnicas cirúrgicas são utilizadas para correção de orelha em abano. É necessário considerar a orelha como uma unidade estética indivisível composta de numerosos detalhes anatómicos, verificar o tipo de deformidade, realizando um planejamento pré-operatório em cada caso.



Fig. 1 - Pavilhão auricular - Características.



Considerações anatômicas:

O ouvido externo deriva embriologicamente das porções mandibulares e hióides dos arcos branquiais. Da porção mandibular derivam trágus, crus e hélix, fundo da concha. Da porção hióidea origina-se o restante das estruturas, ou seja, 85% do pavilhão auricular (Fig. 1). O pavilhão auricular é uma estrutura fibrocartilaginosa, coberto de pele, exceto em sua porção posterior, onde existe uma fina camada variável de tecido conectivo separando a pele da cartilagem. O suprimento arterial é através das artérias temporal superficial e auricular posterior, e a inervação pelo facial (auricular posterior), plexo cervical (grande auricular e pequeno occipital), ramo auricular do vago e ramo auriculotemporal do mandibular(l.2.3.4). A orelha obedece a certos parâmetros: ângulos e distâncias de normalidade quanto à fixação ao crânio. O ângulo formado entre a orelha e o crânio (ângulo céfalo-auricular) mede aproximadamente entre 20* e 30°, o ângulo entre a concha e escafo (ângulo escafoconchal) mede geralmente em torno de 90°, podendo ir a 105° segundo Barsky, e ou 120° conforma Stenstrõm. A orelha normal vista por trás, observa-se que a concha forma com o crânio um ângulo de 90° (ângulo céfalo - conchal), (Fig. 2). As modificações nestes ângulos (especialmente no escafo-conchal) são normalmente acompanhadas de diminuição da anti-hélix e um aumento marcante no tamanho da concha, e também por ma série de outras malformações associadas(3,5). O crescimento da orelha se completa quando o indivíduo atinge 7 ou 8 anos de idade, sendo que aos 3 anos já cresceu 85% e seu tamanho, mas continua crescendo com a idade, de maneira quase receptível. As dimensões adultas as são de 6,5 cm de altura por ,5 cm de largura, sendo que a largura é aproximadamente 55% da altura. A idade ideal para correção de relha em abano, é de um ano antes a criança iniciar a escola primária. a fase pré-escolar a deformidade sa quase despercebida, e as alterações emocionais são minimizadas (0,6)



Fig. 2 - Ângulos e distâncias de normalidade quanto à fixação.



Figura 3 - Incisão da pele da região retroauricula, estendendo-se da altura da cauda da anti-hélix até a cruz superior verticalmente e lateralmente, de forma que determine uma boa exposição.



Patogenia

As malformações da orelha mais veras não são freqüentes como: agenesia, microtia e macrotia; a mais encontrada é a orelha em abano. Até o final do 32 mês de vida embrionária, a orelha começa a apresentar sua forma definitiva sendo que grande número de malformações ocorrem neste período(4). A orelha em abano é embriologicamente uma deformidade herdada, de acordo com a Lei Mendeliana, por um fator dominante. As causas são: a) hereditariedade; b) injúrias intra-uterinas que podem ser encontradas em muitos casos, como: cordão umbilical ao redor da cabeça da criança, pode ser responsável por deformidade unilateral, se durante a décima-segunda a décima-sexta semanas de gestação, a anti-hélix falha em dobrar, a hélix persiste muito saliente, é a deformidade de orelha em abano(7).

Técnica de Reconstrução

As primeiras tentativas cirúrgicas para correção de orelha em abano, visaram o fechamento do ângulo entre a concha e a mastóide, através da ressecção em elipse da pele na região retroauricular como procedimento único, sendo Dienffenbach, o primeiro a fazer referência a esta técnica, em 1845. Os objetivos da técnica para correção da deformidade são: a reposição ou reconstrução da anti-hélix e da cruz superior para formação da fossa triangular. Em 1910 Luckett descreveu a deformidade básica da orelha em abano, explicando a alteração por um aumento do ângulo escafo-conchal e não do ângulo entre a concha e a mastóide (céfalo-conchal). Sua técnica consistia em incisar a pele da região retroauricular e retirar uma elipse de cartilagem ao longo da junção escafo-conchal, suturando os bordos cartilaginosost4i. As técnicas para orelha em abano são variáveis, não há uma única ideal, sendo necessário associá-las, dependendo do caso, para reproduzir uma orelha normal. Os autores utilizam com modificações em casos específicos a seguinte técnica: em crianças, a cirurgia é realizada sob anestesia geral, colocada em decúbito dorsal, realiza-se a assepsia e colocação de campos cirúrgicos, infiltração com anestésico +vasoconstrictor que é feita na parte posterior da orelha. A incisão da pele da região retroauricular a partir da altura da cauda da anti-hélix até a cruz superior verticalmente, e lateralmente tomando por base a anti-hélix, de forma que sua margem determine uma boa exposição (Fig. 3), a pele é removida juntamente com tecidos moles da região até a cartilagem (Fig. 4), em seguida, usa-se agulhas hipodérmicas que são introduzidas transfixando-se a cartilagem da região anterior até a posterior, onde foi removida a pele, sempre seguindo a anti-hélix que se pode visualizar perfeitamente em sua parte anterior moldada (Fig. 5). Estas agulhas transfixadas são vistas posteriormente, e são umedecidas em azul de metileno, demarcando exatamente a parte mediana da anti-hélix. Esta primeira incisão é de extrema importância para o seguimento das outras incisões paralelas a esta primeira, sempre tendo o cuidado de não ir muito profundamente, pois a transfixação da cartilagem determinará bordos muitos agudos (Fig. 6), algumas vezes é necessário remover a porção caudal da anti-hélix, ou as incisões devem ir até a cruz superior, e às vezes realizar incisões verticais na altura da hélix, o importante é quebrar a mola da cruz superior até a cauda da anti-hélix, a pele é suturada posteriormente com mononylon em sutura contínua. (Fig. 7). Finalmente, a anti-hélix é moldada anteriormente, fixando-se com catgut cromado 40 e algodão umedecido em colódio elástico, superior e inferiormente a anti-hélix, geralmente de 3 a 4 suturas (Fig. 8), gases são colocadas das anterior e posteriormente à orelha e realiza-se curativo como em mastoidectomia, antibióticos e antinflamatórios são usados, e o curativo é removido depois de 10 dias.



Fig. 4 - Remoção da pele, juntamente com tecidos moles da região até a cartilagem.



Fig. 5 - Introdução de agulhas hipodérmicas, tranfixando a cartilagem da região anterior até a porterior. A ponta da agulha é umidecida com azu de metileno.



Fig. 6 - Incisão na cartilagem da parte mediana da anti-hélix, em seguida realização de várias incisões paralelas à primeira.



Fotos 1, 2, 3 - Pré-oeratório



Fotos 4, 5, 6 - Pó-oeratório



Figura 7 - sutura contínua com Mononylon na região posterior.



Figura 8 - Moldagem da anti-félix - anteriormente, fixando-a com catgut cromado 4-0 e o algodão.



Conclusão

A técnica usada com algumas modificações mostrou que as incisões múltiplas para quebrar a mola dão bons resultados na maioria dos casos.

Summary

The authors show the technique of strip incisions through partial thickness of cartilages for correction of prominent ears by Pierce, Klabund and Bergerson and lhe utilization of some modifications in specific cases during 25 years.

Bibliografia

1 - Becker, O. - Principles of Otolaryngologic Plastic Surgery, Am. Acad. Ofphth. Otolaryngol., 89-105,1958.

2 - Dotto, G.; Hakme, F. - Orelha em abano correção cirúrgica pela associação de técnicas. Rev. Bras. de Cirurgia, 71: 333-341, 1981.

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4 - Tanzer, R.C.; Converse, J.M. - Deformity of lhe auricle. Plast. and Reconstruct. Surg. 1073-1082,1964.

5 - Storck, R.; Corsett, A.J.; Ribeiro, F.R.C. - Orelha em abano. Anais do Simpósio Brasileiro de Contorno Facial de Cirurgia Plástica S.P. 235-238, 1983.

6 - Lopes Filho, O.C. - Otoplastia. Temas de Otorrinolaringologia. Ed. Manole, 02: 147-166,1977.




* Chefe do Serviço de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto - SP. Professor Assistente do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto -S.P.
** Ex-Residente do Serviço de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto-S.P.
*** Residente do Serviço de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto - SP.

Trabalho realizado no Serviço de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto - S.P. - Av. Saudade n.º 456 - Ribeirão Preto - S.P.

Endereço do Autor. Jayme Nogueira Costa - Rua Rui Barbosa n° 1141 - Ribeirão Preto - SP. - CEP: 14.100
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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