ISSN 1806-9312  
Sexta, 24 de Maio de 2024
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1996 - Vol. 42 / Edição 2 / Período: Maio - Agosto de 1976
Seção: Artigos Originais Páginas: 181 a 183
OSTEOCONDROMA DE NARIZ
Autor(es):
* Gilvani Azor de Oliveira e Cruz
** Acir Mulinari
*** Angelo Adir Gadens
*** Carlos Celso Baithazar da Nóbrega
*** Carlos Roberto Ballin
*** Dominique Jacques de Zuttere

Os osteocondromas são os tumores ósseos benignos mais freqüentemente encontrados no organismo em geral. Sua presença na face, porém, é bastante rara e parece não existir nenhuma citação bibliográfica sobre osteocondroma em nariz nos últimos quinze anos. Dada a extrema raridade destes tumores é que se justifica a apresentação de um caso, por nós tratados cirurgicamente. De um modo geral, são tumores de crescimento lento e progressivo. São benignos histologicamente. Derivam do tecido cartilaginoso e apresentam também tecido ósseo em sua contextura.

CLINICA - A clínica está em função da localização, tamanho e elementos comprometidos pela lesão. No nariz, à semelhança dos condromas, o osteocondroma pode causar desvios do septo e da parede lateral do nariz. Dacriocistite e sinusite aparecem pela compressão e/ou obstrução dos meios de drenagem. O deslocamento do conteúdo orbitário é dado pela extensão do tumor através do etmóide. A presença do tumor pode causar obstrução nasal. As deformidades externas decorrem do crescimento exagerado da neoplasia. Dependendo do grau deste crescimento, há prejuízo da visão no que diz respeito aos campos mediais, devido ao obstáculo criado pelo tumor.

A dor é característica tardia e decorre da compressão e/ou estiramento de nervos. Deve ser interpretada com cautela, pois também pode significar indício de mal ignização tumoral.

DIAGNÓSTICO - Para diagnóstico clínico é indispensáveis rigorosa propedêutica loco-regional com exame de boca, faringe, laringe, rinoscopia anterior e posterior e palpação dos linfonodos cervicais. O exame médico geral deve ser sempre realizado. O raio X de face e de crânio, bem como estudo tomográfico exaustivo mostram a extensão aproximada do tumor.

A biopsia deve ser realizada para o diagnóstico histopatológico da lesão permitindo a sua diferenciação com os tumores malignos (condrossarcomas). Os exame laboratoriais clínicos não são específicos.

TRATAMENTO - O tratamento de eleição é o cirúrgico, pois os tumores derivados de tecido cartilaginoso e ósseo são rádio e quimioresistentes. O plano operatório definitivo somente poderá ser estabelecido durante o ato cirúrgico, pois aos RX a extensão tumoral não pode ser precisamente determinada.

RELATO DO CASO - S. E. M., 19 anos, brasileiro, solteiro, servente, residente no interior do Paraná, foi encaminhado ao nosso serviço em fevereiro de 1975.

Histórico - Há aproximadamente 3 anos houve aparecimento de pequeno tumor no dorso do nariz, acompanhado de discreta dificuldade respiratória, principalmente ao deitar-se. A lesão aumentou progressivamente de tamanho, causando há alguns meses dificuldade visual com relação aos campos mediais. Após mais ou menos dois anos e meio de evolução, passou a apresentar dor em pontada no nariz e cefaléia frontal diária que se acentuava com mudanças bruscas da posição da cabeça.

Exame loco-regional - Lesão em forma de calota com 3 (três) centímetros de diâmetro, de consistência dura, ocupando porção médio-lateral esquerda da pirâmide nasal, recoberta por pele íntegra, não aderente aos planos profundos. A rinoscopia anterior, presença de lesão nodular alta, localizada acima do corneto médio, recoberto por mucosa brilhante e íntegra. Septo nasal desviado para a direita e engrossado em sua porção superior. Lesão não visível à rinoscopia posterior. Exame de boca, faringe, laringe, ouvido e palpação cervical, sem evidências de qualquer outra alteração. Exame clínico geral sem qualquer anormalidade.

RX - Lesão expansiva nos ossos próprios do nariz, comprometendo septo nasal, fossa nasal esquerda, etmóide anterior e seio frontal esquerdo. O aspecto em favo de abelha com presença de calcificações sugeriu o diagnóstico radiológico de osteocondroma.

Biopsia do tumor - O exame microscópico revelou porções de tecido cartilaginoso e ósseo, levando ao diagnóstico histopatológico de osteocondroma.

Cirurgia - Operado em março de 1975. Realizado o acesso através de retalho nasal de base inferior. O tumor recobria a metade superior dos ossos nasais e parecia originar-se na altura da sutura naso-frontal. Não foi possível

a extirpação cirúrgica em monobloco devido a acentuada friabilidade do tecido. Foram também removidas as espinhas nasais do frontal, parte da parede anteromedial do seio frontal esquerdo, ossos nasais, ramo montante do Maxilar Esquerdo e porção alta do septo nasal. O retalho cutâneo foi moldado por tamponamento nasal e pontos transfixantes.

Resultado - O resultado imediato foi muito bom. O paciente não reatou qualquer sintomatologia dolorosa tanto no nariz como na região frontal. Apresentou perfeita função respiratória nasal. Desde a alta hospitalar, em março de 1975, não mais retornou para controle.

Comentários - Os osteocondromas dos ossos longos aparecem ao RX como lesões bem delimitadas e de aspecto em favo de mel com calcificações. O tumor descrito no nariz apresentou-se com aspecto radiológico semelhante.

2. A radicalidade da operação deve ser bem observada, pois parece que nas recidivas dos tumores de origem cartilaginosa há maior percentual de transformação maligna (condrossarcoma).

3. A escassez de referências bibliográficas sobre osteocondromas nasais não dá margem a interpretação prognóstica que terá o caso descrito.

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* Cirurgião de cabeça e pescoço e cirurgia buco-maxilo-facial.
** Patologista.
*** Acadêmicos de Medicina.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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