ISSN 1806-9312  
Sexta, 24 de Maio de 2024
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1991 - Vol. 42 / Edição 2 / Período: Maio - Agosto de 1976
Seção: Artigos Originais Páginas: 148 a 155
TUMORAÇÕES DAS GLÂNDULAS SALIVARES - ESTUDO DE 57 CASOS *
Autor(es):
** Luiz de Góes Mascarenhas
*** Rui Celso Martins Mamado
**** Jorge Nassif Noto
***** Gabriel Junqueira Leite
***** Hamilton Torres

Resumo: Os autores apresentam dados referentes a 57 casos de pacientes com tumorações de glândulas salivares (38 localizadas nas parótidas, 16 submandibulares e 3 em pequenas glândulas da cavidade oral). Fazem uma análise clínica quanto algumas características (evolução e dimensões das tumorações). Analisam a incidência quanto à idade, sexo e raça. São igualmente fornecidas considerações quanto aos achados histopatológicos bem como seqüelas de tratamento.

Cerca de 5% dos tumores da cabeça e pescoço são das glândulas salivares maiores, excluídos os que se localizam na pele (8), sendo a predominância maior na parótida, sobre as demais glândulas (2,4,5,6,8,9).

Os autores, na sua maioria, são concordantes no que se refere à prevalência de tumores benignos sobre os malignos, conquanto existia certa dificuldade quanto ao diagnóstico histopatológico das tumorações das glândulas salivares (2,3,5,6,8,10,11,13,14). Este fato fica patenteado quando se verifica que apenas em 1969, Gerughty e cols (9), conseguiram padronizar as características histopatológicas dos tumores mistos malignos.

Dentre os tumores benignos, os mistos são os mais numerosos, seguem se lhes em freqüência os tumores de Warthin, que são mais freqüentes no sexo masculino (1,3,8,11,13). Segundo Frazell (8), é provável a malignização dos tumores mistos.

Os tumores malignos incidem em idades mais avançadas, e tem um tempo de evolução maior que os benignos (8). Torna-se também importante a diferenciação dessas entidades patológicas com os pseudotumores (processo inflamatório, hiperplasias, etc.) (5,6).

O tratamento dos tumores das glândulas salivares é cirúrgico, e na vigência de nodos satélites, associa-se o esvaziamento cervical (1,3,4,7,8,10,11). A radioterapia é inoperante devido a radioresistência desses tumores (2,3,4,7,8,11,12).

O presente trabalho visa apresentar a casuística das tumorações de glândulas salivares atendidos no Serviço de Cirurgia Maxilo-buco-cérvico-facial e Endoscopia Peroral no período compreendido entre 1957 a 1975.

MATERIAL E MÉTODOS

De 1957-1975, foram atendidos no Serviço de Cirurgia Maxilo-buco-cérvico facial e Endoscopia Peroral do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 56 pacientes portadores de 57 -tumoraçõeso de glândulas salivares.
O estudo foi dirigido no sentido de avaliação das características clínicas, tratamento instituído e resultados obtidos.

Nesse levantamento, rotulado como tumorações estão incluídos tumores benignos, tumores malignos e processos inflamatórios. Desses, 53 foram tratados cirurgicamente, sendo que 10 pacientes não retornaram nos pós-operatórios; 7 pacientes, quando da primeira consulta, eram portadores de tumores recidivados. Em 8 casos não foi possível caracterizar o tipo histológico por extravio da peça operatória.

RESULTADOS

Foram encontradas 38 tumorações parotidianas (uma bilateral) 16 submandibulares e 3 em glândulas da cavidade oral. (tabela 01)

Tivemos uma incidência de 66,6% de tumores benignos, 12,2% de malignos, 7,0% de processos inflamatórios e 14,2% sem diagnóstico histopátológico. (tabela 01)

A idade média dos portadores foi de 46,5 anos para os indivíduos com tumores de parótida e de 33,9 anos para os com tumores de glândulas submandibulares, cujas idades variaram entre 21 a 82 e 15 a 74 anos respectivamente. (tabela 02)

A maior incidência de tumores das glândulas submandibulares ocorreu nos portadores do sexo feminino, com 70,0%. Quanto à incidência nas glândulas parótidas foi de 48,5% para o sexo masculino e 51,5% para o sexo feminino. (tabela 03)



Tabela 01: Distribuição das tumorações segundo localização e tipo histológico.



TABELA 02: Distribuição dos tumores segundo idade dos pacientes, localização e tipo histológico. - (Benigno B; Maligno M; Subtotal ST).



Tabela 03: Distribuição dos tumores segundo sexo, localização e tipo histológico.



Analisando os dados da tabela 04, notou-se que predominou a incidência em indivíduos da raça branca com 84,4%. (tabela 04)



Tabela 04: Distribuição dos tumores segundo-raça,localização e tipo histológico.



Com referência à análise dos nossos casos quanto aos sintomas, observamos que a dor foi referida por 17 pacientes à 19 consulta, predominando a queixa de abaulamento no local em todos os casos. Isto justifica o fato da maioria dos pacientes procurarem o médico algum tempo após o início da tumoração, como mostra a tabela 05. Desta tabela ficou excluído 1 paciente que não sabia referir na anamnese a data do início da sua queixa. Tivemos um caso em que o paciente tinha tumoração há 40 anos.



Tabela 05: Distribuição dos tumores segundo duração da história, localização e tipo histológica.



As tumorações mediam de 2 a 5 cm no seu maior diâmetro (tabela 06), em metade dos nossos pacientes, quando do diagnóstico.

Quanto à palpação, nódulos móveis e de consistência elástica foram os caracteres palpatórios mais encontradiços entre os tumores benignos, enquanto entre os malignos as características palpatórias eram de tumorações fixas e lenhosas.

O tratamento cirúrgico consistiu na exérese das tumorações, acompanhada ou não da glândula portadora, sendo que em 4 casos foi necessário o esvaziamento das cadeias nodais cervicais homolaterais.



Tabela 06: Dimensões dos tumores segundo maior diâmetro.



Tabela 07: Distribuição dos tumores segundo localização e tipo histológico.



Dos 53 casos submetidos à cirurgia para tratamento das tumorações das glândulas salivares, constatamos 17 casos de paralisias faciais, 1 caso de paralisia do hipoglosso e 1 caso de paralisia do nervo espinal. Dentre os 53 casos, em 24 não foram constatados paralisias e em 10 casos não obtivemos referências à paralisias. Dos 17 casos de paralisias faciais 2 não reverteram e se tornaram em paralisias permanentes; 6 pacientes não retornaram para o seguimento no pós-operatório; em 9 casos houve regressão e retorno da mímica facial.

Metástases em nodos linfáticos cervicais foram verificado em 4 casos e recidivo regional, em 2 casos.

Excluídos os processos inflamatórios, o exame histopátológico revelou 84,4% de tumores benignos, (tabela 07) e 78,9% destes correspondiam a tumores mistos (tabela 08). A incidência dos tumores malignos foi de 15,5% sendo o adenocarcinoma o mais freqüente (42,8%). (tabela 09). Foram diagnosticados 5 casos (11,1%), de tumor de Warthin. Entre os tumores benignos foi diagnosticado histopatologicamente um caso de Quimiodectoma de parótida. Este caso será tema de futura publicação em separado.



Tabela 08: Distribuição dos tumores benignos segundo localização e diagnóstico histológico.



Tabela 09: Distribuição dos tumores malignos segundo localização e diagnóstico histológico.



COMENTÁRIOS E CONCLUSÕES

Em nossa casuística, 73,3% eram portadores de tumores das glândulas parótidas, 22,2% das glândulas submandíbulares, 4,4% de glândulas menores, excluindo os processos inflamatórios e. os casos que não retornaram para tratamento após a primeira consulta.

Dos 10 casos de tumores das glândulas submandibulares, um era maligno e os demais benignos e neste grupo, o tempo de evolução não foi maior que 5 anos.

Encontramos 4 pacientes portadores de tumor de Warthin (11,1%), 3 pertenciam ao sexo masculino e dentre estes, 1 apresentava o tumor bilateralmente. Frazell (8) obteve em sua casuística 5,7% de tumor de Warthin, enquanto Tabb

e cols (13) obtiveram 9,2%, resultando pois, que em nossa casuística obtivemos uma percentagem relativamente maior.

Observamos que a média das idades dos pacientes portadores de tumor de Warthin foi de 62,8 anos e está acima da média das idades dos demais casos. Frazell (8) observou também que a média das idades dos pacientes portadores de tumor de Warthin era maior que a dos pacientes portadores de tumores benignos, porém esta idade era 55,5 anos; menor que a média etária dos nossos casos (62,8 anos).

Dentre os tumores das parótidas 81,8% eram benignos e 18,1% malignos. Notamos uma prevalência da região esquerda sobre a direita de 2:1, fato não referido nos trabalhos por nós consultados. Quanto às dimensões, não observamos diferenças significativas entre tumores malignos e benignos; porém a evolução nos pacientes portadores de tumores malignos foi de 11,1 anos, enquanto que para os portadores de tumores benignos foi de 6,2 anos; Frazell (8) obteve uma evolução de 3,2 a 4 anos para os tumores benignos e 6,7 a 9,3 anos para os malignos. Esses dados nos levam a admitir que os tumores malignos se instalam sobre uma parótida já anormal (tabela 10); ponto de vista também admitido por Conley e cols (5) e Frazell (8).



Tabela 10: Duração média dos sintomas e tamanho médio dos tumores benignos e malignos.



REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICA

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ENDEREÇO DO AUTOR:
Departamento de Cirurgia, Ortopedia e Traumatologia de Fac. de Medicina de Ribeirão Preto - U.S.P.

* Trabalho realizado no Serviço de Endoscopia Perorai e Cirurgia Maxilo-buco-cérvico-facial do Departamento de Cirurgia Ortopedia e Traumatologia da FMRPUSP.
** Chefe do Serviço de Endoscopia Perorei e Cirurgia.Maxilo-buco-cérvico-facial do Departamento de Cirurgia Ortopedia e Traumatologia de FMRPUSP.
*** Auxiliar de Ensino,
**** Ex-Residente.
***** Residentes de Cirurgia.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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