ISSN 1806-9312  
Quarta, 29 de Maio de 2024
Listagem dos arquivos selecionados para impressão:
Imprimir:
1936 - Vol. 63 / Edição 4 / Período: Julho - Agosto de 1997
Seção: Relato de Casos Páginas: 362 a 364
MIXOMA DE ANTRO MAXILAR.
Autor(es):
Guilherme Pilla Caminha*,
Ana Aparecida de Santiago*,
Jorge Alexandre Gobbi Manfrin**.

Palavras-chave: mixoma, antro maxilar

Keywords: myxoma, maxillary antrum

Resumo: Mixomas de antro maxilar são tumores raros, particularmente em crianças. Apesar de serem circunscritos, freqüentemente são mais extensos do que aparentam e, por isso, tendem a recidivar, apesar de sua natureza benigna. Os autores apresentam um caso e discutem os aspectos patológicos dessa entidade.

Abstract: Myxomas of the maxillary antrum are rare tumors, particularly in children. Although circumscribed, they are often more extensive than apparent and so tend to recur despite their benign nature. The authors present a case and discuss pathologic aspects of this entity.

INTRODUÇÃO

Mixomas de antro maxilar são tumores raros, particularmente em crianças. Usualmente são encontrados no coração, pele, tecidos subcutâneos e certos ossos4. O fato de tumores de seios paranasais serem incomuns e de seus sintomas mimetizarem doenças inflamatórias pode gerar demora no diagnóstico até que a patologia seja extensa.

No presente relato, apresentamos um caso em criança e discutimos as características patológicas e tratamento desta entidade.

CASO CLINICO

N.J.S.N., com 14 anos de idade, do sexo masculino e branco, consultou-se no Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, apresentando aumento de volume da região maxilar direita, iniciada havia sete meses, e dor contínua em hemiface direita. Nos três meses que antecederam a consulta, a dor intensificou-se e houve aumento progressivo do volume da região maxilar direita. Na apresentação, ao exame físico, mostrou bom estado geral e estava afebril. À rinoscopia anterior, mostrou: abaulamento da parede lateral da fossa nasal direita; rinoscopia posterior ,sem alterações; à palpação da face evidenciou-se tumoração endurecida e indolor da região maxilar direita; e a palpação cervical foi sem linfadenomegalias. O restante do exame otorrinolaringológico foi sem alterações.

A tomografia computadorizada mostrou lesão expansiva com infiltração e erosão ósseas, ocupando a totalidade do seio maxilar direito com dente incluso (Figuras 1 e 2). Decidiu-se, então, realizar esvaziamento cirúrgico, baseado no exame de congelação, que indicou a presença de pólipo inflamatório com um dente incluso. Ao exame macroscópico, evidenciou-se lesão friável, com tecido pardo-claro e elástico, e, ao corte, aspecto mixóide e áreas mucóides e ósseas. O diagnóstico foi, mixoma de antro maxilar.

A tomografia computadorizada de controle mostrou espessamento do revestimento mucoso do seio maxilar direito por infiltração, que se associou à erosão das paredes ântero-lateral e inferior deste seio. Nas revisões pós-cirúrgicas, o paciente não refere sintomas e não apresenta sinais de recidiva.

DISCUSSÃO

O termo mixoma foi criado por Virchow (1863), que acreditava que estas lesões, da mesma forma que o cordão umbilical, continham mucina2. Por suas características histológicas, ele achava que representavam tumores do mesênquima, muito indiferenciados.

Muitas dessas lesões têm sido relatadas na literatura mundial como casos individuais e têm sido classificadas como mixomas, fibromixoma ou mixofibroma3.

Embora várias revisões, que incluem crianças e adultos, apontem preponderância feminina, parece não haver predominância em crianças7.

Raramente, mixomas de ossos têm ocorrido além das maxilas. Stout8, em 1948, relatou 49 mixomas estudados pessoalmente; 10 vistos em ossos, incluindo cinco na mandíbula, três na maxila, um na clavícula e um na região metatársica. Em 1958, Zimmerman e Dahlin9, em revisão de 2276 neoplasias ósseas primárias, descreveram 26 tumores mixomatosos das maxilas e não encontraram mixomas ósseos fora do esqueleto facial. Ghosh et al.10, em 1973, relataram 10 mixomas, sendo seis na mandíbula e quatro na maxila, em estudo de 8.723 neoplasias ósseas primárias. Fu e Perzin3, em 1977, em estudo clínico-patológico de tumores não epiteliais da cavidade nasal, seios paranasais e nasofaringe, encontraram somente seis mixomas, todos envolvendo o antro maxilar. Esses estudos demonstraram a raridade desta entidade.

Esses tumores crescem lentamente e são, usualmente, assintomáticos. Aumento da região afetada é, freqüentemente, o motivo para o paciente procurar auxílio e, às vezes, esse aumento pode levar a considerável tamanho. Mobilidade dentária pode ser observada, decorrente da perda da estrutura adjacente de suporte.

O diagnóstico de mixoma é feito patologicamente pela exclusão de outras lesões que podem apresentar áreas mixóides. Essas lesões incluem tumores das células de Schwann, lipossarcomas mixóides bem diferenciados, rabdomiossarcomas e várias neoplasias fibroblásticas e condroblásticas3.

A verdadeira histogênese desses tumores tem sido objeto de debates entre vários autores. Thoma e Goldman, em tentativa de facilitar, classificaram essas lesões em mixoma odontogênico ou osteogênico7. Os defensores da origem odontogênica citam o fato de este tumor ocorrer quase que exclusivamente nas maxilas. Histologicamente, assemelha-se à papila dentária e, ocasionalmente, dentro dele encontram-se restos odontogênicos. Outros postulam que esse tumor origina-se de restos mesenquimais localizados no osso alveolar.

Microscopicamente, identificam-se escassas células estreladas e fusiformes em estroma mucóide com colágeno. Embora de baixa celularidade, alguns exemplos demonstram discreto aumento uniforme de células e morfologia fusiforme, sendo denominadas fibromixoma.

Macroscopicamente, a lesão pode ser simples ou multinodular, com aspecto liso, brilhante, pálido e de coloração que vai de cinzenta a esbranquiçada. A consistência vai de macia a moderadamente firme, dependendo da fibrose secundária.



Figuras 1 e 2. Tomografia computadorizada pré-operatória.



Radiograficamente, não mostra contornos bem definidos e apresenta áreas osteolíticas uni ou multiloculares, radiolucentes e com padrão interno trabecular. Entretanto, este padrão deve ser diferenciado de displasia fibrosa, ameloblastoma, granuloma central gigante, doença de Paget, cisto, fibroma e condromas. Freqüentemente, está associado à presença de dentes impactados.

Em cabeça, e pescoço, os mixomas usualmente localizam-se na parede anterior do seio maxilar. A maioria dos autores concorda que estes tumores mixóides, ocorrendo em ossos faciais, são lesões' localmente agressivas e que não metastatizam, mas podem recorrer se não corretamente excisados. O tratamento pode variar da simples curetagem, até a ressecção radical, em lesões extensas.

Como são neoplasias com potencial para crescimento continuado e capacidade de destruição óssea, devem ser adequadamente removidos inicialmente, ou a recorrência poderá vir a ser problema significativo.

Contrariamente à maioria dos tumores benignos, os mixomas não são tumores encapsulados e seus limites clínicos e radiológicos aparentes podem não representar seus verdadeiros limites identificados na histologia. A textura gelatinosa e levemente friável que apresentam talvez aumente sua capacidade infiltrativa. Essa textura pode dificultar sua remoção completa, deixando pequenos fragmentos e tornando a recorrência provável. Isto pode explicar a elevada taxa de recidiva após curetagem ou excisão cirúrgica local, sendo recomendada a excisão ampla7.

Não há relatos de metástases, e os mixomas são tumores radio-resistentes; apesar de haver possibilidade de radioterapia pré-operatória para diminuir o tamanho do tumor com excisão cirúrgica subseqüente7.

CONCLUSÃO

A presença de neoplasia nas cavidades nasais e seios paranasais oferece grande diversidade histológica. O otorrinolaringologista deve estar atento a essas inúmeras possibilidades e deve proparar-se para realizar procedimentos cirúrgicos diferentes do inicialmente planejado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BOCHETTO, J.; MINKOWITZ, T. et al. - Antral fibromyxoma presenting as a giant nasal polyp. Oral Surg., 23 (2): 201-6, 1967.
2. GOULD, J. F.; BLACK, J. B.; MAIN, J. H. - Myxoma of the t°' maxilla treated by radical resection. Br. J. Oral Surg., 8 (1):64-9, 1970.
3. FU, Y. S.; PERZIN, K. H. - Non-epithelial tumors of the nasal cavity, paranasal sinuses and nasopharynx: a clinicopathologic study. VII. Myxomas. Cancer, 39 (1): 195-203, 1977.
4. HARRIS, R. J.; GARROW, E.; SPINNATO, G. - Mixoma of the maxilla: report of case. J Oral Surg., 35 (1): 70-3, 1977.
5. COHEN, P. B.; GAMBLE, J. W. - Maxillary resection for odontogenic myxoma: report of case.J. Oral Surg., 35 (7), 1977.
6. HEFFNER, D. K. - Sinonasal myxomas and fibromyxomas in children. Ear Nose Throat J., 72 (5): 365-8, 1993.
7. ANG, H. K.; RAMANI, P.; MICHAELS, L. - Myxoma of the maxillary antrum in children. Histopathology, 23 (4): 361-5, 1993.
8. STOUT, A. P. -Myxoma, the tumor of primitive mesenchyme. Ann. Surg., 127: 706-19, 1948.
9. ZIMMERMAN, D. C.; DAHLIN, D. C. - Myxomatous tumors of the jaws. Oral Surg., 11: 1069-80, 1958.
10. GHOSH, B. C.; HUVOS, A. G. et al. - Myxoma of the jaw bones. Cancer, 31: 237-40, 1973.




* Ex-Residente do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre/ RS.
** Médico Contratado do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre /RS.

Trabalho realizado no Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre/ RS.
Trabalho apresentado no VI Congresso Brasileiro de Rinologia e Cirurgia Estética da Face e XIV lntemational Symposium of Infection and Allergy of the Nose (ISIAN), de 7 a 9 de setembro de 1995 em Salvador /BA.
Endereço para correspondência: Guilherme Pilla Caminha - Avenida Bastian, 152 - Menino Deus - Porto Alegre/ RS - CEP: 90130-020 - Brasil.
Artigo recebido em 8 de agosto, de 1996. Artigo aceito em 12 de novembro de 1996.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


Imprimir:
Todos os direitos reservados 1933 / 2024 © Revista Brasileira de Otorrinolaringologia