ISSN 1806-9312  
Sexta, 24 de Maio de 2024
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1376 - Vol. 14 / Edição 6 / Período: Novembro - Dezembro de 1946
Seção: Trabalhos Originais Páginas: 445 a 448
II - DEMONSTRAÇÃO EXPERIMENTAL DA PRESÊNÇA DO BISMUTO NO TECIDO AMIGDALIANO (Anatomia Patológica)
Autor(es):
ARISTIDES MONTEIRO

Rio de Janeiro

A nossa intenção de verificar a presença do bismuto no parênquima amigdalino baseava-se em dois propósitos, o primeiro era tal fato concorrer para possivel explicação demonstrativa do mecanismo da cura das anginas agudas, e o segundo para confirmar os trabalhos de PESCETTI (1), que chegou a resultado positivo evidenciando o bismuto no estroma da amígdala palatina.

O autor italiano, baseado em nossos trabalhos, conforme diz, aceitou nossa primitiva hipótese explicativa do pronto efeito do medicamento na rápida eliminação do bismuto atravez da mucosa da garganta: "Per dare una conferma a questa ipotesi e per indagare il meccanismo di azione del bismuto come curativo delle angine, abbiamo condotto in clinica una serie di richerche istologische, i resultati delle quali sono in stretto rapporto con i dati osservati al letto del malato, nel corso del trattamento".

PESCETTI para essa demonstração reune oito doentes nos quais injeta o bismuto com o praso de 4, 6, 8, 12, 14, 20 e 24 horas, antes de fazer a amigdalectomia. Observa o assistente do Hospital do Littorio que seis horas após, já existe no tecido amigdalino traços de bismuto; com oito horas, presente +; repetindo-se o mesmo nas 12-14 seguintes. Em 20 horas aumenta a presença do bismuto a ponto do autor assinalar com três cruzes (+++), conservando ainda essa notação para a amígdala enucleada com 24 horas. Termina suas experiências dizendo que "questi resultati servono a dimostrare in maniera evidente la ragione della rapiditá di azione del bismuto nelle malattie tonsillari", e por conseguinte "I dati clinici del Monteiro e i nostri resultati sperimentali colimano quindi, poichè si inizia il miglioramento dei sintomá allorchè il metallo giunge nell'organo ammalato e vi esplica la sua azione microbicida". Fazemos uma ressalva à sua expressão "azione microbicida" por não termos ainda nessa ocasião retomado nossas ulteriores pesquizas, que vieram refundir completamente o que publicaramos a esse respeito em 1935.

Diante dos resultados obtidos pelo autor italiano procuramos o PROF. PENA DE AZEVEDO, chefe de laboratório do Instituto Osvaldo Cruz, para confirmarmos o trabalho acima referido. Não nos foi possível evidenciar o bismuto no tecido amigdalino, nem mesmo nos casos de 20-24 horas depois da injeção, em que é tal a riqueza de bismuto no parenquima da tonsila que o referido autor se refere nos seguintes termos: "Dopo 20-24 ore tutta la tonsilla ne é piena".

Damos na íntegra o relatório do PROF. PENNA DE AZEVEDO: "Instituto Osvaldo Cruz.
Numero: P. C. 10.956-7. Data: 30-10-42.
Médico: Dr. Aristides Monteiro.
Por intermédio de: Hospital S. Francisco de Assis.
Natureza e origem do tecido: Amígdalas.

Resultado do exame anátomo-patológico : Foram recebidas para exame, amígdalas com a indicação de terem sido retiradas cirurgicamente de diferentes indivíduos, submetidos a tratamento por sais de bismuto (hidro-soluvel, lipo-soluvel e coloidal) ministrados por injeção em dose única, geralmente de cerca de 8mg. a 10mg. As amígdalas foram retiradas regularmente, obedecendo a determinado praso de tempo, seis, oito, dez, dose, vinte e vinte e quatro horas após a injeção de Bi. O presente resultado é o resumo dos exames realizados em todo o material recebido, referente a cerca de 12 amígdalas, ou sejam seis pares. Foram enviadas, ao mesmo tempo, como material de controle, amígdalas de indivíduos não submetidos ao tratamento pelo Bi.

"Para a pesquiza do Bi em cortes histológicos, empregamos a técnica de KOMAYA, por êle indicada em trabalho publicado, (Arch. Dermatol. u. Syphilis, 139:277; 1925) ainda aconselhada por LISON (Histochimie Animale. Gauthier-Villars Ed. 1936). O reativo foi previamente empregado em cortes histológicos de tecidos de animais (camondongo, rato e coelho) experimentalmente injetados com Bi. Neste material, a reação positiva traduziu-se pela formação de granulos ou de cristais, em maior ou menor quantidade. Igualmente positiva, foi a reação realizada em cortes histológicos da amígdala de um mesmo paciente submetido a longo tratamento pelo Bi e em que existia o "liseré".

"Nos cortes histológicos das amígdalas recebidas, a reação foi sempre negativa, fato que atribuimos à infima concentração do Bi nestes tecidos". Ass.) A. Penna de Azevedo, Dr.

A leitura do que escreveu o chefe de laboratório do Instituto Osvaldo Cruz é concludente. Resolvemos fazer um exame em doente com "liseré" bismútico e para isto fizemos uma biopsia da parte da gengiva afetada, retirando cirúrgicamente uma amígdala do mesmo doente para exame histológico. Sómente neste paciente submetido a longo tratamento pelo bismuto é que se conseguiu evidenciar no parenquima da amígdala o bismuto, o que está de acôrdo com as pesquizas de TANTURRI (3) que observou granulos de Bi não sómente subepiteliais como na profundidade da amígdala de um sifilítico, tratado longo tempo com o bismuto.

BURNET E HOUDART (1) operaram uma criança que sofria de anginas frequentes, e que se tratara longamente com bismuto. Observaram que após a segunda série de injeções apareceram manchas na amígdala. Ausência de "liseré" ou outra intoxicação bismútica. O material, contudo, por reação específica sensível a 1 por 600,000 de bismuto, nada revelou. Os autores não se conformam com o resultado histológico, continuando a afirmar que se tratava de tatuagem bismútica das amígdalas.

Para termos segurança do processo que empregavamos resolvemos de comum acôrdo com o PROF. PENNA DE AZEVEDO, cortar amígdalas de pessôas submetidas previamente a injeção de bismuto e levar os cortes histológicos ao exame microquímico, "reação do toque" do PROF. FEIGL. Os cortes eram da espessura de 10 micra; os resultados foram negativos, mesmo com 20 micra (amostra 15 e 16, do relatório FEIGL-MIRANDA).

Concluindo, podemos dizer que nas preparações histológicas que examinamos, não foi evidenciado o bismuto no parênquima amigdaliano, o que nos leva a resultado contrário ao de PESCETTI. Mesmo empregando porções de amígdala da espessura usada para preparações histológicas (10 e 20 micra), nas "reações de toque" de FEIGL, o resultado continuou negativo.

BIBLIOGRAFIA

1) BURNET e HOUDART - Présence de depôt bismutique dans la muquese d'amydales hipertrophiques a la suite d'injections de bismuth. Arch. de Ist. Pasteur de Tunis. XV. 163. 1926.
2) MONTEIRO, A. - O bismuto na terapêutica das anginas agudas não especificas. O Hospital. 2.119.1934.
3) PESCETTI, V. - La bismutoterapia nelle tonsilliti acute. Dimostrazione sperimentale della rapida invazione dei tessuti tonzillari da parte dei sali bismutici. Arch. Ital. Otol. v. 607.1939.
4) TANTURRI, V. - Sul comportamento del tessuto tonsillare nella somministrazione di Bi (Dall'Instituto di Anato-Patol. Universitá Milano). Rass. Ital. Otol. II . 207. 1939.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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