ISSN 1806-9312  
Sexta, 24 de Maio de 2024
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1360 - Vol. 12 / Edição 4 / Período: Julho - Outubro de 1944
Seção: Várias Páginas: 317 a 320
A DIFTERIA E' UMA MOLESTIA DOMAVEL (1)
Autor(es):
DR. ARMINIO TAVARES

Blumenau - Santa Catarina

Meus companheiros !

O motivo da minha palestra de hoje é esboçar uma campanha em pról da imunização da população infantil de nossa Terra contra a difteria, que, todos os anos, colhe algumas vítimas entre nós.

Se eu sózinho, tenho no meu fichário de médico, um número não pequeno de diftéricos (uns mortos e outros vivos) avaliem vocês quantos terão os 14 médicos restantes que vivem e labutam nesta Cidade, que, sobretudo no inverno, parece oferecer condições propícias à eclosão dêsse terrível mal.

Quem já viu uma criança bi-color, isto é, branco-azul?

Permitam-me explicar o mecanismo dessa dupla coloração: é branca, côr de cêra, devido a uma toxina solúvel, espécie de veneno elaborado pelo gérmen causador da moléstia, chamado bacilo de Klebs-Loffler que se derrama na corrente circulatória do pequeno doente e vai envenenando aos poucos, atacando o sistema nervoso, rins e coração até que o mata quando o sôro não vem a tempo (às vezes, com o próprio sôro a morte se processa, porque o organismo, já bastante intoxicado, não resiste); é azul, porque não respira direito; em virtude de se estar obstruindo a sua glote (orifício existente na laringe e por onde passa o ar) pelas falsas membranas da moléstia, produzidas por outra toxina (endotoxina) do bacilo diftérico.

Esse obstáculo faz com que o ar entre em menos quantidade, perturbando, assim, a hematose (que é a transformação do sangue venoso, de coloração vermelho-escuro e azulada, em sangue arterial, de coloração vermelho-rutilante e escarlate) que se processa nos capilares pulmonares.

Portanto, é maior a quantidade de sangue venoso e daí ter a criança as extremidades e os lábios azulados (o que em linguagem médica, se diz cianose, afecção azul). Como dizia, quem já viu uma criança bi-color, isto é, branca e azul, agredida pelo crupe (difteria que desceu, difteria que se localisou na laringe) conhece o desenrolar de um dos dramas mais trágicos, brutais e comovedores, que se possa imaginar, pois os personagens, em regra, são os pais, e a figura principal dessa tragédia doméstica, é o filho ou seja a vítima; quem já sentiu a realidade cruel de tal cena nunca mais a esquecerá)

A criança, a princípio, está ligeiramente indisposta. Não tem apetite (os médicos chamam à falta de apetite anorexia, está, por conseguinte, anoréxica). Não quer brincar. Tem um pouco de dor de cabeça. Febre quasi nenhuma, décimos de temperatura apenas. A's vezes, até sem febre. E' um resfriado que vem aí, pontifica a mãe, e o pai concorda porque o doente não sente, por ora nada que chame a atenção para a garganta; respira normalmente e engole bem. No começo, é mais ou menos assim. Nada que faça suspeitar a presença de uma terrível quinta-coluna ou seja dessa traiçoeira moléstia, porque até aí não foi chamado o médico e nenhum curioso lembrou-se de olhar para a garganta do doentinho. Se fizesse, teria descoberto, lá no fundo, sôbre as amígdalas um véu branco e sujo, cor de pérola, verdadeira teia de aranha, conhecido por falsas membranas.

Teria descoberto a moléstia no seu início, e o sôro agiria precocemente, impedindo que a criança caminhasse para a fase de intoxicação, ou seja para o segundo ato do espetáculo, que é a asfixia, que é o crupe.

O sôro teria interrompido o drama que ainda era "trailer". O sôro, nesses casos, isto é, nas primeiras horas, domina fàcilmente a moléstia. Cura o paciente em 100% dos casos, visto que se trata de uma difteria no início, e, portanto, quando a toxina não teve tempo de se fixar no sistema nervoso, pois ainda é pequena a quantidade dela no sangue (toximia, como dizem os médicos).

Infelizmente, nem sempre é assim; e, quando o médico é chamado, chega com algumas horas de atrazo, ou mesmo dias, tendo a molestia adquirido outra feição mais séria e bastante grave.

Agora, a criança está rouca, tosse e tem falta de ar. Por isso, está sentada, segura a qualquer ponto de apoio, sedenta de ar, com olhos esgazeados. Faz força para respirar, para levar para os seus pulmões o ar vital de que necessita e a cuja entrada a glote estreitada oferece resistência. Mas, ela necessita de ar para a sua hematose (já sabem o que é) e o esforço muscular enorme que faz para beber o ar, de que tanto precisa, deixa ver uma profunda depressão nos músculos do pescoço e nas fossas supra-claviculares (tiragem, como é tido êsse fenômeno em medicina) e um sôpro característico, de quem o fizesse numa dessas cornetas de caçada, é ouvido e tem sua razão de ser na passagem do ar pelo orifício reduzido da glote (tal sôpro é conhecido em medicina por cornagem).

Estamos, nesta hora, na fase mais importante do espetáculo. Estamos no meio da tragédia, de que lhes falei há pouco. A platéia está profundamente impressionada e alguém vibra mais do que todos os outros personagens. Esse alguém é o médico, que medita e pesa a responsabilidade enorme que tem sôbre os ombros, pois sabe que, se não agir depressa, irá embora a vida do doente, cuja salvação exige urgentemente duas medidas eficazes e rápidas: a intervenção cirúrgica e o sôro. Precisamos, pela traqueotomia, entreter a vida do paciente para que o sôro tenha tempo de ser assimilado e possa agir. E' abrir a traquéia, antes que seja tarde, impedindo a asfixia e dando tempo ao sóro para atuar.

Depois de feita a traqueotomia (operação consistente na comunicação do interior da traquéia com o exterior), que dá ao doente uma respiração artificial, mas bastante boa para satisfazer a sua hematose e descansá-lo, é preciso entrar com o sôro em dose elevada, porque é melhor dar demais que de menos. Devemo-nos arrepender das quantidades pequenas e não das grandes. Essa deve ser a política: agir forte e depressa.

Já tive oportunidade de fazer numa criança de 3 anos de idade e bem achegada a mim, quasi 80 mil (oitenta) unidades de sôro antidiftérico, além de uma traqueotomia de urgência, executada num dia chuvoso, sôbre uma mesa de sala de jantar. Felizmente, êsse pequeno doente, de Jaraguá, curou-se.

A mesma sorte não tive uma semana depois. Fui chamado com urgência, para um caso idêntico. Tratava-se de uma criança com a mesma idade, com o mesmo estado geral e que, para maior aflição nossa, era filha única de um aplaudido center-half de Florianópolis. Infelizmente essa não lucrou com a alta sôragem feita, e morreu, traqueotomizada, ao amanhecer, de uma síncope bulbar.

Poderia contar mais casos clínicos como êsses. Podia referir-me á história de Luiz Henrique, filho de um grande amigo meu e rotariano, que vinha sendo minado por sua difteria nasal, ás escondidas, através de pequenas e repetidas hemorragias nasais até que fui chamado. Encaminhei o diagnóstico para êsse lado e o laboratório me deu razão. O sôro foi feito e a criança teve alta curada, em poucos dias.

Esta forma de difteria é surda, pobre de sintomas e mata sorrateiramente, quando se não está avisado, e o médico geralmente não pensa em tal localização (rinite diftérica).

Mas chega. Casos bons e maus, todo médico os tem. Basta de sustos! Chega de mortes! Salvemos as crianças dessa agressora e assassina moléstia! Que a difteria seja arrojada para o ról das cousas esquecidas!

Que o governo e o povo cerrem fileiras contra essa forma de quinta-coluna !

Que a difteria seja compelida e manietada como o foram a febre amarela, a varíola e a peste bubônica!

Que se faça obrigatória a vacinação contra a difteria, como se faz com a vacinação anti-variólica!

Imunizemos a criançada com a Anatoxina de Ramon! E' inócua e confere imunidade em cerca de 95 a 100%, dos vacinados.

Se oferecesse perigo e não fosse eficaz, algumas nações não a teriam tornado obrigatória.

Em 1937, a infeliz e estóica Polônia de hoje, tornou-a obrigatória. Na Rumânia, a encampada e algemada de 1942, também o govêrno obrigou o seu uso.

Na França, Ramon já tinha até 1933, dois milhões e trezentas mil vacinações.

No dia 15 de Agosto de 1937, por decreto, o governo francês tornou obrigatória a vacinação diftérica, juntamente com a anti-tetânica, e, à vontade, a anti-tífica, nas forças de terra, mar e ar.

Já estava sendo pleiteada na legislatura francesa, a generalização da medida, quando explodiu a segunda grande guerra, que se diferencia da primeira, porque a de 1939 tem o front em tôda parte, os nossos inimigos são mais selvagens e as vidas das mulheres, crianças e velhos não são mais respeitadas.

Façamos guerra a todos os nossos inimigos, inclusive à difteria !


(1) Palestra lida no "Rotari Clube de Blumenau", em 16-6-44.
Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
Classificação CAPES: Qualis Nacional A, Qualis Internacional C


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