ISSN 1806-9312  
Quarta, 29 de Maio de 2024
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1001 - Vol. 37 / Edição 2 / Período: Maio - Agosto de 1971
Seção: - Páginas: 181 a 185
Otomastoidites Agudas
Autor(es):
Décio Kerr Oliveira
Mário Batista Sanches

I - Introdução:

Muitos autores, dão ênfase a baixa freqüência das otomastoidites após o advento dos sulfocompostos e dos antibióticos.

Outros autores descrevem como causas das otomastoidites - nos poucos casos descritos - o estado dístrófico dos pacientes, as alterações de desenvolvimento da mucosa do ouvido médio, as alterações de desenvolvimento do osso temporal, a má orientação terapêutica das otites e a virulência dos germes.

Apesar da diminuição das otomastoidites referidas pela maioria dos autores houve número relativamente grande de casos durante o ano de 1970 no Pronto Socorro de ORL do Hospital das Clínicas, fato que chamou a nossa atenção para o estudo sôbre o tema. Neste trabalho iremos expor a conduta de urgência adotada no Serviço frente a um caso de otomastoidite sem outras complicações.

II - Material e Métodos:

O presente estudo foi baseado em 39 doentes portadores de otomastoidite sem complicações endocranianas atendidos no Pronto Socorro de O.R.L. do Hospital das Clínicas durante o ano de 1970. Pacientes com outras complicações das otites médias, como por exemplo - abscessos intracranianos, meningites, labirintites, paralisia facial, etc. - serão objetivo de um próximo trabalho.

Os doentes foram distribuídos:

1 - Quanto ao sexo:
a) Masculino - 21 casos b) Feminino - 18 casos

2 - Quanto à raça:
a) Branca - 27 casos b) Negra - 12 casos

3 - Quanto à idade:


4 - Quanto a incidência mensal:


5 - Quanto a sinais e sintomas: Os principais sintomas e sinais foram:
Otorréia
Otalgia
Febre
Cefaléia
Hípoacusia
Abaulamento retroauricular.

6 - Quanto ao exame O. R. L.:
Os principais achados de exame físico foram:
a) Otorréia purulenta, observada na maioria dos casos;
b) Hiperemia, e/ou abaulamento retroauricular (20 casos);
c) Hiperemia e/ou abaulamento com sinais de flutuação (19 casos) ;
d) Dor à palpação da região mastóidea em todos os pacientes.

7 - Quanto ao diagnóstico:
O diagnóstico de otomastoidite se baseou nos dados de anamnese e de exame físico.

8 - Quanto ao tratamento:
Adotou-se o tratamento clínico (20 casos) e clínico-cirúrgico (19 casos).

O tratamento clínico foi instituído nos casos com hiperemia e/ou discreto abaulamento retroauricular.

O tratamento clínico consta:
a) Antibioticoterapia - sistêmica e local.
b) Analgésicos e antitérmicos.
c) Antiinflamatórios.
d) Aplicação de calor local.

O tratamento clínico-cirúrgico foi adotado nos casos com hiperemia e/ou abaulamento retroauricular com sinais de flutuação. Consiste em soroterapia com antibióticos seguido de drenagem retroauricular e tratamento clínico descrito acima.

Dentre os 19 pacientes que receberam tratamento clínico-cirúrgico, 9 ficaram em repouso durante 48 horas devido ao precário estado geral.

Todos os 39 pacientes foram encaminhados ao Ambulatório para que fôsse completado o estudo e tratamento definitivo.

III - Resultados:

Os resultados foram satisfatórios para o atendimento de urgência. Durante um mês os pacientes foram seguidos, com boa evolução, não se observando em nenhum dos casos outras complicações.

IV - Discussão:

Os processos infecciosos do ouvido médio, agudos ou crônicos reagudizados, podem apresentar diversas complicações dentre as quais ressaltamos:

a) Paralisia facial;
b) Laringites;
c) Trombose de seio lateral;
d) Osteomielite do osso temporal;
e) Complicações intracranianas;
f) Petrosites;
g) otomastoidites.

Porém, no presente estudo, trataremos sómente das otomastoidites sem outras complicações.

Segundo Stuart a ocorrência de otomastoidites em pacientes jovens, talvez, possa ser explicado em parte, pelo fato de que nas crianças o antro mastóideo é relativamente grande e sua porção posterior é relativamente superficial em comparação com o dos indivíduos mais adultos. Êstes dados estão de acôrdo com o encontrado por nós pois tivemos maior incidência entre 0 e 10 anos (23 casos), seguida de 8 casos entre 11 e 20 anos.

A maioria dos autores não faz referências a raças e ocorrência da moléstia durante os meses do ano. No nosso material tivemos 27 pacientes da raça branca seguida da negra com 12 doentes e nenhum da amarela. Em relação aos meses houve 8 casos em janeiro; 7 em julho; 6 em abril e nos demais a freqüência oscilou de 2 a 3 casos.
A conduta terapêutica de urgência adotada no Pronto Socorro de O. R. L. nos 39 casos de otomastoidite sem outras complicações foi tratamento clínico (20 casos) e tratamento clínico-cirúrgico (19 casos).

O tratamento clínico foi instituído nos casos que apresentavam hiperemia e/ou discreto abaulamento retroauricular.
Enquanto isto 19 pacientes com hiperemia e abaulamento retroauricular com sinais de flutuação receberam tratamento clínico-cirúrgico.

Êstes pacientes receberam soroterapia com antibióticos, seguindo-se a drenagem cirúrgica retroauricular e tratamento clínico. Dentre êstes 19 pacientes, 9 permaneceram internados durante 48 horas recebendo soroterapia com antibióticos, devido ao mal estado geral. Após esta orientação terapêutica de urgência, os doentes foram encaminhados ao Ambulatório a fim de que fôsse completado o estudo e tratamento.

Os resultados da nossa conduta terapêutica de urgência foram bastante satisfatórios. A evolução de 1 mês, dos casos foi boa; sem ter sido observado nenhum case de complicação.

V - Conclusões:

Do estudo de 39 casos de otomastoidites sem complicações endocranianas, ocorrido no período de 1 ano no Pronto Socorro de O.R.L., pode-se concluir:

1.° - Houve índice relativamente alto de casos de otomastoidite.
2.° - Ocorreu maior incidência de otomastoidite nos meses de janeiro, abril e junho.
3.° - A otomastoidite incidiu com maior freqüência no grupo etário entre 0 e 10 anos.
4.° - O tratamento clínico e/ou cirúrgico depende do estado evolutivo da otomastoidite.
5.° - Todos os casos evoluíram satisfatòriamente.
6.° - É necessário, após a conduta terapêutica de urgência, realizar a complementação do estudo e tratamento da otomastoidite.

VI - Sumário.

Os AA. apresentam o estudo de 39 casos de otomastoidite sem outras complicações atendidos no Pronto Socorro de O. R. L. do Hospital das Clínicas da F.M.U.S.P. durante o ano de 1970.

Analisam e discutem o material quanto a raça, sexo, idade, incidência mensal, etiopatogenia, sintomatologia e tratamento. Concluem:

1.° - Houve índice relativamente alto de casos de otomastoidite.
2.° - Ocorre maior incidência de otomastoidite nos meses de janeiro, abril e julho.
3.° - A otomastoidite incidiu com maior freqüência no grupo etário entre 0 e 10 anos.
4.° - O tratamento clínico e/ou cirúrgico depende do estado evolutivo da otomastoidite.
5.° - Todos os casos evoluíram satisfatòriamente.
6.° - É necessário, após a conduta terapêutica de urgência, realizar a complementação do estudo e tratamento da otomastoidite.

VII - Summary:

The authors report the studies about 39 cases of otomastoiditis without endocranial complications held at Hospital das Clínicas - São Paulo during the year of 1970. They analyse and discuss the material concerned to rate, sex, age, monthly incidente, etiopathology, symptomatology and treatment.

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Indexações: MEDLINE, Exerpta Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic Library Online)
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