Versão Inglês

Ano:  1954  Vol. 22   Ed. 1  - Janeiro - Fevereiro - (10º)

Seção: -

Páginas: 54 a 57

 

DOENÇA DE "RIGA-FEDE" (*)

Autor(es): Dr. OCTACÍLIO DE CARVALHO LOPES

(*) Capitulo do volume "Monografias Oto-Rino-Laringológicas", Premio "Eduardo de Morais" de 1952, da Academia Nacional de Medicina.

A chamada "DOENÇA DE RIGA FEDE", isto é, o papiloma ulcerado do freio da língua, mais vêzes descrito em crianças de 7 a 10 meses de idade, segundo Genaro Siciliano, foi observado em 1857 pelo Prof. Cardarelli, seguido de Ridola, Pandolfi, Riga, Chiarello, De Marinis e Somma.

Descrita como afta caquética, produção sub-lingual, pseudo membrana sub-lingual, doença de Riga etc., tem sua patologia ainda um tanto obscura.

Nos esfregaços da lesão, vários autores, entre os quais Anche Roux e Ruppe, encontraram um coli-bacílo que foi apontado como responsável pela mesma. O estudo histopatológico da lesão não tem sido bastante esclarecedor. Em alguns casos, fala-se em papiloma que se transforma em granuloma e, em outros, em hipertrofia crônica da mucosa, de natureza inflamatória. Segundo Pianese, citado por Siciliano, trata-se de um granuloma ou, melhor, de um pasmoma.

0 aspecto da lesão é típico. Na base do freio da língua aparece uma tumefação endurecida que, em breve, se ulcera ao contacto traumatizante dos incisivos, apenas aflorando ou mesmo já saídos. A ulceração vai, aos poucos, se alastrando no sentido transversal e, ao cabo de pouco tempo, toma aspecto fibrinoso, amarelo pálido, sangrando com relativa facilidade quando se tenta retirar a camada membranoide do fundo da lesão.

Situada numa região muito sensivel e dolorosa, num órgão, excessivamente móvel, recebendo traumatismos repetidos no ato de mamar, e, sobretudo, num meio séptico como é a bôca, é natural que o pequeno paciente sofra suas conseqüências, imediatas, quer evitando as mamadas ou reduzindo-lhe o tempo, o que ocasiona uma sub-alimentação com tôdas as suas inconveniências, isto é, com a diminuição da resistência orgânica, e, assim sendo, à maior possibilidade de doenças de toda ordem. Os argumentos, tantas vêzes levantados por autores que acreditam numa causa local exclusiva, parecem proceder muito, mais do que os da outra corrente e que responsabilizam uma causa geral.

É muito mais razoável pensar-se em infecções superpostas, acarretando a reação mórbida, que evolui lentamente, mas sempre de maneira progressiva, do que se invocarem outras causas. Sobretudo, porque a doença aparece, na maioria das vêzes, numa idade em que o uso da chupeta é mais comum. Sabemos que, por maiores que sejam os cuidados que se dispensem à sua higiene, nem sempre se pode evitar que ela vá para o chão e, dali, para a bôca da criança. Nesta idade tudo que lhes cai nas mãos vai para a bôca. É até de admirar-se como não são mais frequentes as infecções dessa cavidade! Assim, uma irritação do freio da língua, cujo mecanismo é de compreensão tão fácil, sobretudo no ato da mamadura, pode perfeitamente, por um processo inflamatório, chegar ao estado de ulceração séptica com pouca ou nenhuma tendência para a cura pela persistência da causa.

Os autores falam, na sua maior freqüência em crianças caquéticas, o que nos parece lógico e razoável. A resistência orgânica nelas é menor e qualquer processo infeccioso se instala e se mantém com maior facilidade.

Concluímos, pois, que a chamada "Doença de Riga Fede" é puramente local, podendo acarretar repercussão geral em vista de dificultar a alimentação da criança e, assim, determinar uma subalimentação com todas as suas conseqüências.

Seu tratamento deve ser exclusivamente cirúrgico, pela eletrocoagulação diatérmica, acompanhada da extração dos dentes traumatizastes, se o caso o exigir.

Na literatura nacional as observações registradas são em número muito reduzido. Podemos citar os casos. de Hélio Lopes e Teixeira da Mata. 0 de Hélio Lopes, refere-se a uma criança de 7 meses de idade. 0 tratamento constou, a princípio, de aplicações de nitrato de prata a 2 e 5%. Depois de poucos meses, sem resultado grandemente animador, o autor acrescentou a tintura de iodo. 0 de Teixeira da Mata, o segundo da literatura brasileira, foi resolvido satisfatoriamente com a cirurgia.

Em nosso arquivo podemos encontrar quatro casos, que a seguir resumiremos:

I
J. R. F., ficha 2.838, branco, brasileiro, com 10 meses de idade, residente em Vila Robert, São Paulo, veio à consulta no dia 30 de março de 1935.

Os pais informam que, faz cerca de dois meses, perceberam um carocinho saindo por baixo da língua e que tem crescido rapidameute, estando agora do tamanho de um botão de dimensões médias. Ao exame, nota-se, realmente, no freio da língua, a presença de um tumor chato, papilomatoso, endurecido, maior do que um grão de milho, inserindo-se por uma base de cêrca de 1 centímetro de extensão por 2 milímetros de largura.

No mesmo dia foi o tumor extirpado a bisturi elétrico, sendo praticada, do ponto da implantação, coagulação mais profunda.

Dois meses depois, em janeiro de 1937, revimos o paciente, curado.

II
T. F., ficha 6.838, branca, brasileira, com 5 meses de idade, residente em São João de Itaguaçu, Município de Mundo Novo, São Paulo, veio à consulta no dia 25 de abril de 1938.

Faz cêrca de duas semanas que em casa verificaram, sob a língua da criança, na região do freio, uma feridinha que deve ser muito dolorosa, pois a impede de mamar. O exame mostra, no freio da língua, extensa ulceração de base endurecida e recoberta por secreção amarelada, muito aderente, sangrando à tentativa de limpeza.

Fizemos, no mesmo dia, a resseção diatérmica da lesão. Evolução post-operatória normal.


Microfotografia - Tecido epitelial disposto me torno de papilas conjuntivas. À direita em baixo, parcial da infiltração por células inflamatórias.


III
S. L., ficha 8.580, branco, brasileiro, com um ano de idade, residente em Catanduva, São Paulo. Veio à consulta em 15 de abril de 1939.

Faz algum tempo que está com uma feridinha por baixo da língua, ferida que nos últimos dias cresceu e inflamou, acarretando dificuldades à alimentação.

O exame revela a presença de ulceração sôbre uma tumefação dura, localizada no freio da língua. Após alguns dias de tratamento, com aplicações tópicas de antissépticos, sem resultado satisfatório, foi feita a extirpação do nódulo ulcerado, com o auxílio do bisturi elétrico.

Alta. Curado, ao cabo de alguns dias.

IV
D. V. A., ficha 15.348, branca, brasileira, com 14 meses de idade, residente em General Salgado, São Paulo, foi trazida à consulta em 18 de abril de 1944.

Os pais informam que há cêrca de três meses lhe apareceu uma afta por baixo da língua. O médico consultado fez tratamento local com solução de azul de metilênio e mercúrio-cromo, durante muitos dias, sem conseguir melhoras. No local da afta, começou a crescer uma carnosidade que está do tamanho de um grão de milho. O exame mostra, realmente, no freio da língua, um papiloma bastante desenvolvido, ulcerado no centro, estando a ulceração recoberta por um tecido de aspecto amarelado. O tumor mede cêrca de 12 milímetros de diâmetro, é chato e quase séssil.

Fizemos um esfregaço da secreção, que recobria a parte ulcerada do papiloma, e mandamos ao laboratório, do nosso colega Dr. José Rezende, para exame bacterioscópico. O laudo fornecido foi o seguinte: "O exame bacterioscópico, quer sob a coloração "gram", quer sob a coloração "Ziehl", revelou a existência apenas de germes banais, próprios da cavidade bucal, com predominância de cocos "gram positivos".

No mesmo dia foi feita a sua extirpação, sob anestesia local, pelo Sinalgan, tendo sido utilizado o bisturi elétrico, seguido de coagulação diatérmica cuidadosa de toda a zoila de implantação.

O post-operatório decorreu normal. Curativos diários, cone aplicações tópicas de antissépticos brandos.

Alta do paciente, ao fim de alguns dias.

Remetido o material ao Laboratório de Biologia.Clinica, foi examinado pelo Dr. José Pinheiro que nos forneceu a microfotografia anexa, (ver fig.), e o seguinte laudo do exame histopatológico:

Exame microscópico - O exame histológico do material revela a presença de tecido epitelial hiperplasiádo, disposto em torno de eixos conjuntivos bastante vascularizados.

A neo-formação é densamente infiltrada por células inflamatórias de tipo crónico, notando-se pequena área de tecido mortificado, de permeio com numerosos polimorfo-nucleares meutrófilos, em geral alterados.

Diagnóstico - Papiloma. Processo inflamatório crônico ulcerado. Rio, 11-5-44 - a.) José Pinheiro.



Mìcrofotografia - Tecido epitelial disposto em torno de papilas conjuntivas. A direita, em baixo, aspecto parcial da infiltração por células inflamatórias.

B1BLIOGRAFIA

SICILIANO, GENARO - "Un caso de Morbo di Riga-Fede". In La lettura média, A. IX, n.º 1, p. 17 (15-7-1927).
LOPES, HÉLIO LEMOS - "Considerações sôbre um caso de doença, de Riga-Fede. In Revista Oto-Laringológica de São.Paulo, 1936, p. 1328.
TEIXEIRA DA MATA, OSCAR - "Considerações sôbre a moléstia de Ríga-Fede". In Bol. da Soc. de Med. e Cir. de Campinas, vol. 3, n.º 2, set- 1942.

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