Versão Inglês

Ano:  1954  Vol. 22   Ed. 1  - Janeiro - Fevereiro - (14º)

Seção: -

Páginas: 78 a 81

 

ALGUNS COMENTÁRIOS EM TORNO DAS ATIVIDADES DA CLINICA OTO-RINO-LARINGOLÓGICA DO INSTITUTO CENTRAL DO CANCER EM SÃO PAULO

Autor(es): JORGE FAIRBANKS BARBOSA - Chefe da Clínica O. R. L.

Data de muito pouco tempo o início das atividades de nosso novo Hospital do Cancer. Todavia, dado o volume de serviço do, mesmo, nestes poucos meses de nossa atuação, tivemos ocasião de atender e observar cuidadosamente um número de pacientes suficientemente elevado para que nos permita algumas conclusões interessante.

Assim é que de 27 de julho do corrente ano, época em que oficialmente a nossa clínica foi inaugurada, até o dia 25 de Dezembro, passaram pelo nosso Instituto 1.147 doentes novos. Destes, 365 foram encaminhados à clínica O.R.L. por serem portadores de lesões localisadas nos domínios dessa especialidade. Aproximadamente 32% dos casos atendidos no 1. C., o foram pela clínica O.R.L. Este dado tem valor para nós, pois que mostra a importância que nosso Departamento desempenha em um serviço de cancerologia. A terça parte dos casos nos pertence.

Dos 365 doentes que atendemos, 275 eram portadores de neoplasias malignas e os 90 restantes não apresentavam cânceres. De cada 4 pacientes que nos procuraram, 3 eram cancerosos.

Além destes 365 doentes novos, a clínica O.R.L. fêz ainda 458 revisões de pacientes em curso de tratamento ou em preservação, 249 curativos, 20 laringoscopias diretas, 19 broncoscopias, 19 esofagoscopias e operou 69 pacientes.

Do ponto de vista de repartição topográfica, os cânceres que tivemos ocasião de observar assim se repartiram, por ordem decrescente de frequência:

1.º lugar: Língua e soalho de boca, com 47 casos
2.º lugar: Lábios, com 42 casos
3.º lugar: Laringe, com 22 casos
4.º lugar: Faringe, com 19 casos; Seios da face, com 10 casos
5.º lugar: Pirâmide nasal, com 14 casos; Pescoço, com 14 casos
6.º lugar: Rebordos gengivais, com 13 casos; Bochechas e pálatos, com 13 casos
7.º lugar: Tegumentos da cabeça, com IO-casos
8.º lugar: Amígdalas e lojas amigdaiianas, com 9 casos; Glândulas salivares, com 9 casos
9.º lugar: Esôfago, com 7 casos; Traquea e brônquios, com 7 casos
10.º lugar: Ouvidos, com 4 casos
11.º lugar: Lesões pré-cancerosas isoladas, com 3 casos
12.º lugar: Tiroide, com 2 casos
13.º lugar: Região retro-molar, mandíbula, óssos da face e região orbitária, com um caso cada uma.



Nota: há 19 casos com diagnósticos em pendência que não constam dessa relação.

É interessante assinalar-se a grande frequência com que observamos as neloplasias na língua é soalho da boca, que constituíram 17,1 % do total de nosso material. No Memorial Hospital, Martin e col. notaram que estes tumores constituíram 15% dos blastomas malignos das vias aerodigestivas superiores. Para nós eles figuraram como 24% dos referidos blastomas.

Os cânceres da laringe constituíram 8% de nossos casos. Foram 22 casos. Se a eles juntarmos mais 10 outros que se localisavam no hipofaringe, teremos 32 casos de tumores do laringe e hipofaringe, o que corresponde a 11,6% da totalidade dos casos e a 16% dos tumores das vias aéro-digestivas superiores.

Os seios da face figuram tambem com um número bastante representativo em nossa série: 19 casos, ou seja 6,9% do total.

Tivemos oportunidade de operar 69 pacientes. Destes, 36 se submeteram à intervenções grandes, a saber:

Laringo-faringectomias com esvazia inerlto cervical radical unilateral em monobloco.....4
Laringo-faringo-esofagectomia + esofaloplastia + esv. cerv. rad. unil. em monobloco.....1
Laringofissura + cordectomia.....1
Parotidectomias ampliadas com esvaz. cerv. radical homolateral em monobloco.....2
Hemiglossectomia + henlimandibulectornia + amigdalectomia + esvaz. cerv. rad. homol. em monobloco.....1
Ressecção parcial de lábio, mento, língua, soalho da boca, com esvaz. cerv. rad. homol. em monobl.....l
Ressecção do ramo montante da mandíbula + esvaziamento da fossa pterigo-maxilar + esvaz. cerv. rad.
homol. em monobloco.....1
Henlimandibulectorllia + esvaz. cerv. homol. em monobl......1
Ressecção de 3/4 da língua + 3/4 do soalho da boca + corpo da mandíbula + esvaziamento cervical rad. de uni lado e parcial do outro (conservação da jugular interna) em monobloco.....1
Ressecção ampliada do maxilar superior.....5
Ressecção ampliada do maxilar superior + exenteração de órbita.....5
Esvaziamento cerv. radical unilateral.....3
Exérese de grande tumor faringeo (t. misto).....1
Ressecção parcial do maxilar, superior.....1
Parotidectomia parcial.....1
Esvaziamento cerviçal parcial (complementar).....1
Exérese de grande tumor da bochecha.....1
Exérese de grande tumor do lábio com esvaziamento cervical em colar.....1
Ressecção lábio-mento-mandibular.....1
Ressecção, das partes moles da região geniana por lesão residual após ressec. do max. sup.....1
Idem, com exenteração da órbita.....1

Não obstante o vulto destas intervenções, todos os nossos operados até o presente momento estão tendo uma evolução favoravel, excepto um, portador de extenso sarcoma fusocelular do maxilar superior e que apresentou recidiva post-operatória, achando-se atualmente fora, de qualquer possibilidade curativa. Temos dois óbitos a lamentar, um em uma paciente que apresentava enorme tumor da região mento-mandibular e que foi operada em estado geral precário, dado o adiantado de suas lesões, e a impossibilidade de se melhorar seu estado físico dentro do tempo relativamente curto em que a cirurgia ainda lhe poderia oferecer alguma chance; outro, tambem em outra mulher, que se submeteu a urna ressecção ampliada do maxilar superior. Em ambas a morte ocorreu após as 48 horas de post-operatório e por provavel acidente cardíaco. Citamos estes fatos, muito menos com a intensão de salientar os cuidados com que temos procurado conduzir nossas intervenções, dó que para ressaltar a eficiência do serviço de anestesia, de transfusão e de enfermagem de nosso hospital.

Aí ficam estes nossos breves comentários em tôrno do, relatório que recentemente apresentamos no Prof. Antonio Prudente sobre o movimento de nossa clínica do Instituto Central do Cancer. Com eles quizèmos prestar apagada mas sincera homenagem ao nosso querido mestre e amigo Mario Ottoni de. Rezende.

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