Versão Inglês

Ano:  1942  Vol. 10   Ed. 2  - Março - Abril - ()

Seção: -

Páginas: 269 a 272

 

PROTEÇÃO CONTRA O CONTÁGIO DIRETO DO MÉDICO EM RINO-LARINGOLOGIA

Autor(es): DR. PAULO MANGABEIRA ALBERNAZ (*)

Se há uma especialidade em que o médico esteja facilmente exposto ao contágio direto, é a rino-laringologia. Nas intervenções no nariz, na boca, na faringe, no esôfago, no laringe, na traquéia, nos brônquios, recebemos, na face, na boca, nos olhos, toda espécie de líquidos, exsudatos, secreções, e, pelo mais comezinho princípio de higiene, salta aos olhos a necessidade de proteção adequada. Tal, porém, não se verifica na maioria dos casos, entre a maioria dos especialistas. Contentam-se eles com, uma vez atingidos, lavar o rosto com água e sabão, e empregar um antisséptico, ou de ação muito discutível por sua baixa concentração, ou de teor elevado, o que não raro dá origem a irritação da pele e das mucosas.

Não são freqüentes os casos de contágio, mas precisamos não nos esquecer de que não é só o germe que faz a doença, e que podemos levar para outros lugares, sobretudo para nossa casa, para nossos filhos, germes que, não nos vindo causar nenhum mal, poderão causá-lo a outras pessoas. Conheço o caso de um médico que, durante uma raspagem de adenoides, recebeu umas gôtas de sangue em um dos olhos, adquirindo, destarte, pelas conjuntivas, uma infecção sifilítica típica, só diagnosticada quando surgiram as roséolas.

Basch e Thibaut no artigo "le chancre de la conjonctive accident professionnel du médecin", publicado no Monde Médical, de 15 de Setembro de 1931, afirmar ti: "L'object de cette étude est de montrer la fréquence relative du chancre conjonetival comnlc accident professionnel du médecin, et spécialment de 1'oto-rhinolaryngologiste particulièrement exposé aux projections salivaires _de 1'adulte, et d'autant plus surement atteint qu'il est moins sur ses gardes que le syphiligraphe".

Sei de outro facultativo que recebeu, sôbre um dos olhos, uma falsa-membrana diftérica, o que o obrigou a fazer uso do soro específico. Todos nós já passamos por sustos maiores ou menores, por causa de facilidades, mórmente no exame de blastomicosos.

A proteção não deve ser só da face, e o médico deve ter sempre em mente que a assepsia é de muito mais valor do que a antissepsia e que, o que, muita vez, parece proteção do médico é, na realidade, proteção do paciente e da comunidade. Falando muito próximo do rosto dos pacientes, como o fazemos, podemos contagiá-los. É possível que o médico esteja a sofrer de gripe, tuberculose, etc., em fase contagiante, sem ter conhecimento disso.

Acho que devemos levar a proteção do médico e, portanto, do doente, ao extremo. Assim, não vejo por que razão operar amígdalas, por exemplo, sem luvas. Faço-o sistemàticamente protegido por elas, e tôda intervenção da especialidade deve ser feita dêsse modo. As intervenções nasais, mesmo a ressecção do septo, só as, faço de luvas. Mesmo certos curativos exigem seu uso; tais as lavagens do seio maxilar, em que, muita vez, matéria purulenta cheia de germes de viruléncia exaltada pode tocar-nos as mãos.

Para o exame do laringe, toma-se de um fragmento de gaze e, por meio dele, fixa-se a língua entre o polegar e o indicador. É lógico que a gaze se imbebe de saliva, e a mão do médico contamina-se. Há o recurso da antissepsia, mas, quási sempre, pela rotina, é ela feita sem certo cuidado, não passando, em geral, de simples lavagem com água e sabão.

O que, porém, mais expõe o especialista ao contágio é a face, e, nesta, os olhos e a bôca. Que o digam os que, por qualquer defeito da refração, são obrigados ao uso de óculos. Sabemos em que estado estes se apresentam após certas intervenções e após certos exames. E, por isso mesmo, sou de parecer que, em nenhuma hipótese, deve o especialista trabalhar sem óculos, mesmo que de vidros planos.

E êste, aliás, o parecer; de varios autores. Basch e Thibaut, no artigo há pouco mencionado, dizem textualmente: "Pour éviter cette syphilis immeritée, lés médecins doivent prendre lés plus grandes précautions au cours dês examens de la gorge, des amygdales, et du larynx, et nous ne saurions troe préconiser, avec A. Simon, le port de làrges lunettes, Seul moyen de protection efficace".

AS MÁSCARAS

O perigo de contágio preocupou sempre os especialistas. Daí a variedade de máscaras que encontramos descritas nas revistas da especialidade e nos catálogos dos fabricantes de instrumentos. Vejamos em rápida análise, as principais.

Uma das mais completas é a de Killian, que figura no catálogo especial dos instrumentos de oto-rino-laringologia, suplemento B, da Casa Luer, de Paris (Fig. 1).Trata-se de uma grande placa de vidro, que cobre os dois olhos, e que se prende aos pavilhões auriculares com hastes de óculos. Esta placa é cercada por uma armação de metal, provida de ganchos superiores e inferiores, nos quais devem ser presos panos de gaze que, para ,cima, protegem. a testa e os cabelos e, para baixo, o resto da face. O defeito do aparelho é seu peso, e a necessidade de trocar de gaze em todo exame. Além disso, a gaze apresenta a desvantagem de seu poder enorme de absorção dos líquidos.



Fig. 1



Fig. 2



Fig. 3



Fig. 4



Fig. 5



Fig. 6



Fig. 7



Fig. 8



Outro protetor assinalado no mesmo catálogo é a placa de Robert Foy (Fig. 2). É um disco de alumínio extra-leve que, por meio de ganchos, pode ser adaptado ao espelho de Clar. Protege só a parte inferior da face.

O protetor de Clark vem registrado no catálogo geral da V. Mueller Co., de Chicago, 5.° edição. Consta apenas de uma armação de arame niquelado, de forma semi-ovoide, sôbre a qual se aplica um fragmento de gaze, e que se prende à cabeça por uma fita elástica (Fig. 3). A máscara apenas protege a bôca. Mais útil é o protetor de Heard (Fig. 4), assinalado no mesmo catálogo. É uma lâmina de celuloide com uma alça metálica embutida à altura do dorso do nariz. O aparelho é fixado às orelhas por alças de fio elástico. Este aparelho é muito semelhante ao que dentro de pouco apresentarei.

Encontramos no número de Novembro de 1926 do Boletim Pilling (G. Pilling & Son, Filadelfia) a descrição de um escudo de celuloide semi-oval (Fig. 5), dotado, na parte superior, de uma borda metálica, que termina lateralmente em dois ganchos, ,destinados a ficar presos nas hastes dos óculos do médico. A casa fabrica três tipos de ganchos, de acôrdo com a espessura da armação dos óculos.

A casa Drapier, de Paris, assinala, em seu catálogo geral de 1929, um escudo de mica (Fig. 6), que, por meio de um aparelho autostático, pode ser adaptado a qualquer tipo de espelho frontal.

Durante o ano corrente (1941), vem a casa Pilling anunciando no Laryngoscope o escudo facial de Negus (Fig. 7). Trata-se de um disco circular de vidro, perfurado no centro afim de poder ser adaptado a uma cinta de fibra, igual à dos espelhos frontais. O aparelho destina-se à proteção nas endoscopias, sendo principalmente indicado nos casos de supuração pulmonar.

No número de Março de 1925 dos Archives Internationales de Laryngologie, etc., Baldenweck descreveu um dispositivo simples de proteção da face. Resume-se no emprêgo de um fragmento de papel celofânio fino, cortado em forma de trapézio, e fixado, por pasta de modelar ou cera, à face posterior do espelho de Clar. A vantagem maior do dispositivo é ficar a máscara separada do rosto do examinador, o que não lhe causa o menor incômodo, mesmo em exames prolongados.

Este papel pode nos ser de grande utilidade como protetor. Extremamente leve e flexível, completamente transparente, rigorosamente impermeável, apresenta qualidades que nenhuma outra substância possue.

Há anos emprego-o na proteção da face, em exames e intervenção, e na da mão, em laringoscopias.

Para a face, uso de um fragmento retangular, cujo tamanho deve ser de cêrca de 15 centímetros por 25. Como o formato usual das folhas grandes é de 86x98, pode se fazer a divisão em 24 fragmentos de .14x24, o que é mais econômico .

O papel é prêso ao rosto por hastes de óculos, em cuja extremidade anterior há um gancho ou uma presilha fixadora (Fig. 8). A máscara protege a face tóda, menos os olhos e a testa, porque, para os olhos, basta- a proteção dos óculos. De acórdo com o que já expuz linhas atrás, acho indispensável ao especialista o uso dêsses, mesmo de vidros sem grau.

A máscara é leve, impermeável, fácil de colocar e retirar (Figs. 9 e 10), e de custo muito moderado. Adquirindo-se no comércio, uma folha por 1$500, o preço de cada retângulo é de menos de 63 reis!

Cada exame, é óbvio, exige um fragmento novo, mesmo que, aparentemente, não haja vestígio de ter sido atingido por goticulas de saliva, de pus, etc.

Pode ainda o papel celofânio prestar auxilio inestimável ao rino-laringologista na proteção dos dedos, no ato da laringoscopia. A gaze, por meio da qual apreendemos a língua, pode ser protegida, na face externa, isto é, na que fica em contacto com os dedos do examinador, por um fragmento dêste material. Cada papel para máscara, de 14 cents X 24, é dividido em três de 8 cents X 14. Desta sorte, graças à impermeabilidade do material, a saliva não atinge, como é de regra, a mão do médico. Lanço mão dêste processo há anos.

As pinças descritas e expostas nas gravuras foram construidas por Lutz, Ferrando e Cia. Lda., agência de S. Paulo. O papel celofânio pode ser adquirido em qualquer papelaria.



Fig. 9



Fig. 10





Recebido pela Redação em 10-4-1942.
(*) Professor de Clínica Oto-nino-laringológica da Escola Paulista de Medicina (S. Paulo); Oto-rino-laringologista do Hospital da Santa Casa e da Clínica Stevenson (Campinas).

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