Versão Inglês

Ano:  1942  Vol. 10   Ed. 1  - Janeiro - Fevereiro - (10º)

Seção: Trabalhos Originais

Páginas: 103 a 117

 

Ozena (Rinite Atrófica Fétida) - BACTERIOLOGIA

Autor(es): Dr. Ernesto Moreira

BACTERIOLOGIA

As pesquisas incluidas neste trabalho foram realizadas no Departamento de Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pelo dr. J. O. Almeida.

Dos cento e vinte pacientes examinados foram isoladas setenta e duas amostras de bactérias pertencentes ao genero Klebsiella (Bergey, 1939). Alguns autores incluem tal genero num grupo denominado mucoso-encapsulado ou grupo Friedlander (Topley & Wilson, 1937), incluindo o pneumobacillus de Friedlander, o bacilo de Abel(K. ozaenae) etc. Topley e Wilson embora considerando tais germes estreitamente relacionados ao A. aerogenes, fazem um estudo em separado, dentro do genero Bacterium.

PARR, 1939, considera as klebsiellas como amostras de Aerobacter que se adaptaram a uma existência parasitária. Daí a presença de cápsula, a sua variada atividade bioquímica e o comportamento sorológico semelhantes ao do A. aerogenes.

Com as amostras isoladas e identificadas foram preparadas vacinas. Os resultados obtidos são referidos no protocolo das observações.


EXAME BACTERIOLÓGICO DE EXSUDATO DE RINITE ATRÓFICA FÉTIDA

O exame bacteriológico do exsudato nasal é feito diretamente por esfregaço e coloração pelo GRAM OU por culturas em meios artificiais. O exame direto revela em grande percentagem (60%), a presença de bactérias encapsuladas, gram negativas, pequenas, semelhantes a cocobacilos, de extremidades arredondadas. Observamos nesse grupo de bactérias um acentuado pleomorfismo cocobacilos típicos ou filamentos de 7 a 10 micra por 0,3 a 0,5 u. A morfologia própria do grupo encapsulado é de naveta de 0,3 a 0,5 u por 1 a 4 uu. Observa-se coloração bipolar, mas nunca grânulos metacromáticos, dando a aparência de alteres ou de um verdadeiro diplococos.

A cápsula, de espessura variavel é perfeitamente visivel em imagem negativa pelo GRAM, melhor evidenciada pelo Hiss, ou pelo processo da tinta da China de BONÉ, BONINGE e JOYCE.

Alem desse encapsulado GRAM negativo encontramos nas observações diretas, cocos banais, raros bacilos gram positivos. etc. A semeadura, do material colhido é feita em meios comuns de agar simples gelose-sangue e Sabouraud. Não foram pesquizados germens anaeróbios. A nossa pesquiza foi dirigida ao grupo encapsulado.

COLHEITA DO MATERIAL

O material, muco, catarro ou pus, deve ser colhido, por meio de um tampão de algodão montado em aste metálica. Faz-se um esfregaço da mucosa lesada, procurando uma crosta de preferência. Outras vezes torna-se necessária uma lavagem com soro fisiológico estéril, da cavidade. Os resultados se traduzem por culturas positivas em maior número no material colhido -depois da lavagem. Na figura 1 podemos observar o aparecimento de colônias maiores, em cultura pura, de encapsulados. Por transparência lê-se DEPOIS escrito no verso da placa. 0 resultado se contrasta com a cultura feita de material colhido ANTES da lavagem : colônias pequenas de cocos banais e ausência de encapsulados.

ISOLAMENTO

Semeado o material em meio de gelose simples ou gelose dextrosada, a placa pode ser lida no dia imediato, depois de incubada a 37.° C.

Observa-se o aparecimento de colónias, de limites nítidos, abauladas, semelhantes a gotas de goma arábica, peroladas, creme-branco, brilhantes e lisas. Colónias viscosas.

IDENTIFICAÇÃO

Tais colónias, de bastonetes pequenos gram negativos, imoveis e encapsulados, (Fig. 2) apresentam-se com um caracteristico interessante, facilitando até certo ponto a sua identificação : a viscosidade. A alça que a toca, se prende a um filamento elástico, o esfregaço, por isso, torna-se dificil, e o preparado grosso.

CARACTERES CULTURAIS

Em gelose simples. - Colónias grandes de 1 a 4 mm. de diametro, de contornos nítidos, peroladas, brilhantes e lisas, brancas convexas e translúcidas. Algumas vezes amareladas ou creme. Superficie mucoide.

Em gelatina. - Colónias de superfície mais escura, elevadas. Outras vezes pequenas, brancas, circulares. Apresentam um brilho de porcelana branca em algumas espécies. Colónias mucoides. Não há liquefação de gelatina.

Em batata. - Tais encapsulados crescem bem em batata, algumas vezes com produção de gás. Colónias amareladas, bem definidas, outras vezes . amorfas, escuras.

Caldo. - Turvo em 24 horas, com anel, película ou depósito. A viscosidade pode-se mostrar nitidamente em algumas espécies.


CARACTERES MORFOLÓGICOS E DEFINIÇÃO DO GRUPO

Bergey, 1939, coloca tais encapsulados na familia X. Enterobacteriaceae. RAHN, 1937, compreendendo

Bastonetes firam negativos, largamente distribuidos na natureza. Parasitas de animais e plantas. Crescem bem nos meios artificiais de cultura. Todas as espécies atacam os carbohidratos, formando ácido ou ácido e gás visivel (H2 presente). Todos produzem nitritos de nitratos. Quando moveis os flagelos são peritríquios.

A família compreende cinco tribus : ESCHERICHEAE, ERVINEAE, SERRATEAE, PROTEAE e SALMONELLEAE. Somente a primeira nos interessa.
TRIBU I. ESCHERICHEAE que compreende 3 generos.
Genero ESCHERICHIA
Genero AEROBACTER
Genero KLEBSIELLA

O genero KLEBSIELLA é o unico que nos interessa

"GENERO KLEBSIELLA TREVISAN 1885"

"Curtos bastonetes, algumas vezes grossos, de extremidades entumecidas ou arredondadas, a maioria se apresentando isoladamente. Encapsulados. Imoveis. Gram negativos. Fermentam numerosos hidratos de carbono com formação de ácido e gás. Nitritos são produzidos de nitratos. Encontrados principalmente no tracto respirat6rio do homem. Aeróbicos, crescendo bem nos meios comuns de cultura. Reação do vermelho de metila comumente positiva. A de Voges-Proskauer, geralmente negativa. O acido cítrico, comumente usado como única fonte de carbono (BERGEY 1939)".

Até fins de 1939, classificamos as espécies do genero KLEBSIELLA de acordo com BERGEY, edição 1934

CHAVE DE IDENTIFICAÇÃO para especies do genero KLEBSIELLA.

1. Acido e gás em dextrose, lactose e sucrose.
   a Nitratos reduzidos a nitritos.
   1. K. pneumoniae
   2. K. granulomatis.

2. Acido e gás em dextrose, algumas vezes em lactose.
   a. Nitratos reduzidos a nitritos.
   3. K. rinoscleromatis
   4. K. capsulata.

   aa. Nitratos não reduzidos.
   5. K. ozaenae

3. Nenhum ácido ou gás em carbohidratos.
   6. K. cyprinícida.

De acordo com a chave, as nossas amostras se comportavam do seguinte modo:





Em Novembro de 1939 adotamos novo sistema de classificação das espécies do genero KLE13SIELLA, de acordo com BERGEY (5.a ed.).

CHAVE DE IDENTIFICAÇÃO DAS ESPÉCIES DO GENERO KLEBSIELLA (BERGEY 39).

1) LEITE TORNASSOLADO ÁCIDO, MAS NÃO COAGULADO.

A. Nenhum acido ou gás com maltose e manita
B. K. pneumoniae
C. Acido e gás com maltose e manita
D. K. ozaenae.

2) LEITE TORNASSOLADO ÁCIDO E COAGULADO:

K. granulomatis
K. capsulata.
K. paralitica.

3) LEITE TORNASSOLADO NÃO MODIFICADO;

K. rinoscleromatis

Esta chave de identificação, como a anterior grupa espécies típicas e variantes cuja associação repugna ao pesquisador.

A ação da bactéria sobre o leite tornassolado como .critério de diferenciação primária não nos parece de feliz escolha, uma vez que o tornassol possa agir como uma substância bactério-estática ou inibidora da coagulação, como tivemos ocasião de verificar com as amostras 3, 12 e J. M. (ver o quadro anexo).

O Manual Bergey, 1939 não especifica grupos de bactérias cuja ação sobre o leite seja diversa. Assim observamos alguns encapsulados do genero KLEBSIELLA que em leite tornassolado (DIFCO), o alcalinisavam.

O grupo 3 (LEITE TORNASSOLADO NÃO MODIFICADO) engloba a espécie K. rinoscleromatis que não age sobre o leite (acidificação ou coagulação), embora a descrição (pg. 403 de BERGEY 1939) admita a sua ação, sobre a lactose.

As amostras que alcalinisam o leite tornassolado ficam em um grupo a parte de amostras não classificaveis, segundo o critério atual.

De 120 exames de muco nasal, isolamos 72 amostras, pertencentes ao genero Klebsiella. Vinte e sete já foram acima descritas.

Passamos a descrever as 45 restantes, as últimas já classificadas de acordo com BERGEY 1939.



OBSERVAÇÃO - Dext = dextrose. Lact = lactose. Sucr = sucrose. Man = manita. Mlt = maltose. Inul. = inulina. Nitr. = nitratos. VM = vermelho de metila. VP = Voges-Pros-kauer. LS = Leite simples. LT = leite tornassolado. A = muito ácido. a = pouco ácido. G. = muito gás. g = pouco gás. s = superfície. p = profundidade. o = ausência de reação. C = coagulação. P = peptonisação. R = redução. K = alcalino.


As amostras estudadas poderiam ser grupadas para melhor compreensão de sua distribuição em:

1.° GRUPO. LEITE TORNASSOLADO ACIDO MAS NÃO COAGULADO.

A. O COM A MANITA OU MALTOSE:

K. pneumonia e amostras : Nel e 55

B. AG COM MANITA E MALTOSE

K. ozaenae amostras: KM.g : P. KB-JM-3-12-J-O-61-P.

2.° GRUPO. LEITE TORNASSOLADO ACIDO E COAGULADO.

K. granulomatis

K. capsulata

K. paralytica. amostras :

JML - 459 - 3263 - 34 - 47 - B - G - 8-10-11-48-46-S-R - 3Hel-JP. -IX-71.

3.° GRUPO. LEITE TORN SSOLADO NÃO MODIFICADO

K. rhinoscleromatis. amostras :

CR-13A-13-Al-LF-II-V-56-72.

4.° GRUPO. LEITE TORNASSOLADO ALCALINO.

amostras: VII - VI - 43 - 50 - X - 9.

Pelo estudo comparativo as amostras classificam-se em típicas e variantes, dada à sua diversa ação sobre os tests empregados.

Assim

1.º GRUPO.

A) LT = A. O com Man. e Mlt.



B) L. T. = A. A G com man. e malt.


2.º Grupo LT = AC.





As amostras consideradas de KLEBSIELLA capsulata pela classificação BERGEY 1939, alem das citadas, apresentam, caracteres diferenciais bioquímicos, tornando a sua posição sistemática difícil. Ex.:





3.° GRUPO. LT=O



4.° GRUPPO. LT = K.



DEDUÇÃO

"De 120 casos examinados isolamos 72 amostras de encapsulados gram negativos do genero KLEBSIELLA. A sua distribuição entre as espécies descritas, torna-se muitas vezes impossivel pela descrição original mal feita e incompleta ou pelas suas variantes". Consideramos esquematicamente amostras típicas, funcionando de acordo com a descrição originais e variantes, possuidoras de umas e outras propriedades não assinaladas na espécie tipo.

Distribuição das espécies:

1.º Grupo
(K. pneumoniae) - 4%

1.º Grupo
(K. ozenae) - 24%

2.º Grupo
(K. capsulata) - 43%
(K.paralítica) - 1%

3.º Grupo
(K. rhinoscleromatis) - 19%

4.º Grupo
(não classificáveis) - 9%


CONCLUSÃO. - A percentagem elevada de encapsulados do Grupo-mucoso poderia nos levar a conclusões apressadas sobre o papel patogênico do gênero Klebsiella na rinite atrófica fétida, uma vez que encontramos na literatura grande número de trabalhos sobre a patogenicidade do grupo Friedlander. Tem sido descrita a mais variada observação de infecções por encapsulados: meningites, broncopneumonias, endocardites, otites, orqui-epididimites, infecções nasais, mastoidites, peritonites, infecções do aparelho urinário e genital, osteomielites, etc.

Observamos a existência paralela de encapsulados e de uma exsudação mucosa, viscosa e fétida. Relacionamos em causa e efeito, uma vez que tivemos ocasião de observar igual paralelismo em um caso de otite e mastoidite crônica e em dois outros de infecções gênito-urinárias. Estaria o encapsulado provocando o aparecimento da exsudação viscosa? Em outro caso verificamos igual coincidéncia : lesões de leishmaniose cutanea mostravam-se cobertas de um exsudato brilhante e viscoso; o exame bacteriológico mostrou haver no pús um encapsulado mucoso.

Contra a especificidade da patogenia do grupo Friedlander na ozena, está a falta e aglutinação no sóro de pacientes (Método de Porges), que no dizer de KOLMER-TUFT é um pustulado a ser juntado aos clássicos de KOCH, não mencionando a transmissibilidade até agora não verificada.

Não encontramos elementos capazes de nos convencer do papel patogênico essencial das bactérias isoladas do grupo mucoso-encapsulado na rinite atrófica fétida, mas adotamos com PARR uma noção mais de saprofitismo condicionada pelo habitat, perda de defesa antimicrobiana e conformação anatômica das fossas nasais, verificamos porém uma coincidência significativa da presença de klebsiellas e caracteres de exsudação nasal.

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