Versão Inglês

Ano:  1942  Vol. 10   Ed. 1  - Janeiro - Fevereiro - ()

Seção: Editorial

Páginas: 07 a 08

 

Proêmio

Autor(es): Francisco Hartung

Palavras-chave: -

Keywords:

Os mais tristes da patologia humana, o capítulo da rinite atrófica fétida! Paginas realmente de tristeza, tanto pelas condições de vida a que a moléstia obriga o infortunado doente, como pela precariedade dos recursos da medicina no esforço de minorar-lhe os sofrimentos.

Estranha moléstia a ozena! Em verdade, ninguem dela morre. Mas, nem por isso, perde o colorido sombrio de seu prognóstico, porque, si a atrofia nasal não entra, via de regra, nos complexos patológicos que arrastam o doente para o túmulo, em compensação, os padecimentos fisicos e morais, às vezes mais os últimos, refletem-se funestamente sobre a mentalidade do pobre ozenoso que procurando o isolamento, cai em hipocondria, ao mesmo tempo que as desilusões às tentativas terapêuticas, que veem demolindo um a um os conceitos doutrinários sobre o enigma da sua verdadeira etiologia, intoxicam os ambientes científicos de uma atmosfera de ceticismo que a nós cabe arejar e ventilar...

Realmente, o problema da ozena tem exigido e ainda exigirá muito esforço e tenacidade para a sua solução definitiva. Ele é extraordinariamente complexo, e o grande número de concepções sobre as quais se tem pretendido apoiar temporária e sucessivamente a sua etiologia, capacidade anormal das fossas nasais, predisposições etno-raciais, determinismo hereditário, disturbios trofoneuróticos, perturbações endocrínicas, desequilíbrio metabólico, fenómenos de carência de vitaminas, fundo bacteriológico, e outras que seria longo enumerar, demonstram irretorquivelmente pelos seus fundamentos científicos, que a rinite atrófica, não constitue um problema unicamente nasal, porquanto as suas incógnitas se acham dispersas nos recantos os mais variados e obscuros da patologia geral, provindo daí a grande dificuldade para se lhe armar a devida equação.

Por isso, pois, examinando qual a verdadeira situação, verifica-se que qualquer tratamento instituido para o ozenoso, irritação da mucosa, vacinas e outros, não permite ao doente que abandone as abundantes e frequentes lavagens das fossas nasais ; somente obedecendo a essa higiene rigorosa, poderá viver no convívio dos seus e da sociedade. Fica-nos assim a impressão de que o conforto físico e moral do ozenoso deve muito mais ao seu trato e cuidado corporais, que ao resultado das medidas terapêuticas.

E' necessária a exposição destas verdades, porque, o primeiro passo para transpor dificuldades, será conhecê-las, sopesá-las e não fugir à sua existência e realidade ; só assim tendo delas consciência, encararemos os embaraços com um otimismo construtivo, e, com segurança as objeções, para acelerar com entusiasmo iniciativas vitoriosas. Não foi outra a atitude de Ernesto Moreira, quando encampou a cirurgia da rinite atrófica fétida, dedicando quasi 20 anos de trabalho e perseverança à causa do ozenoso. Dirão que estas palavras teem origem na amizade. Seja, mas não se lhes pode negar sinceridade quantas vezes nestes 20 anos de convivência e de labuta, no serviço da Santa Casa, nos mostramos reservados, duvidando, si o ato cirurgico e a sequência operatória da técnica de Lautenschläger, não seriam muito dramáticos e penosos para a melhoria que se esperava. Por isso somos insuspeitos para tais palavras de justiça, aceitas e endossadas tambem pelos colegas, que como nós, testemunharam o seu despreendimento e constância.

Não discutiremos o mérito deste volume, onde vêm protocolados os seus estudos e observações, em verdade um tratado sobre rinite atrófica. Mas da leitura dos seus capítulos, desde as generalidades à casuistica abundantissima, diremos que Ernesto Moreira venceu na "seleção entre os capazes" de que fala Ruy Barbosa. Basta que se ressalte sua admiravel experiência em quasi 500 ozenosos operados para bem julgar da sua autoridade e conhecimento de causa. Si a operação cura, melhora apenas, ou é completamente improfícua, será uma questão que sobre o assunto baixa a um plano secundário, pela importância do seu depoimento em face da evolução geral da medicina.

Que rumo tomaremos para o futuro? Não importa. Por acaso discutia-se a traqueotomia para o crupe antes que a era pasteuriana permitisse a soroterapia?

Há porem um outro ativo consideravel no balanço geral de seu esforço, revertido em saldo vultoso, por altruista e meritório. O reflexo moral da cirurgia sobre a mentalidade do ozenoso, porque houve alguem, que, sem medir sacrifícios, deu a mão a esses Precíto infelizes, muitas vezes forçados a renunciar à mocidade, como única esperança de dias mais risonhos.

Julho de 1941.

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