Versão Inglês

Ano:  1953  Vol. 21   Ed. 6  - Novembro - Dezembro - ()

Seção: Notas Clínicas

Páginas: 222 a 227

 

SÔBRE TRÊS CASOS DE ESOFAGOLOGIA Pequena variante no uso da sonda de Plumer(*)

Autor(es): DR. SEBASTIÃO MESQUITA DE OLIVEIRA
(Médico municipal, Endascopista do Hospital Getúlio Vargas . Rio de Janeiro)

Apresentaremos hoje três casos do Serviço de Otorino do Hospital Getúlio Vargas, chefiado pelo Dr. Oswaldo Coelho e cuja parte de Endoscopia peroral está a nosso cargo.

Trata-se de casos comuns em todos os serviços congêneres e nos quais a cura depende muitas vezes, mais da paciência do médico e da tolerancia do paciente do que propriamente da técnica empregada.

O nosso primeiro doente é Iracy Santos Silva, de 19 anos, branca, feminina, solteira, brasileira, doméstica, residente à Rua Flora Lobo, 94, nesta capital, matrícula 17.852. Relata que tomou voluntariamente sulfato de cobre misturado com soda cáustica, em 16-6-52. Em 30-7 procurou o Serviço, onde foi examinada e lhe demos linha fina (n.º 20) para deglutir, preconizando-lhe cuidados gerais. As radiografias, então feitas, (figs. 1 e 2) revelaram estenose cicatricial do, 2/3 inferiores do esôfago, tendo a esofagoscopia confirmado êste diagnóstico. A sua deglutição era bem difícil. Transferida para o Serviço de Cirurgia foi gastrotopor mais algum tempo. Em 6-2-53 nova esofagoscopia revelou mucosa inteiramente raizada, sendo-nos reenviada em 20-8, iniciando-se as dilatações dois dias após. Usamos somente a sonda metálica de Plummer em duas sessões semanais com a técnica habitual. Após termos passado a sonda 45 fizemos duas esofagoscopías, usando os tubos 7x45 e 9x45, isto em 26-9 e 10-10-52. Posteriormente, houve dificuldade em passarmos o tubo 7x45, pelo que voltamos às sondas de n.º elevado por mais algum tempo. Em 6-2-53 nova esofagoscopia revelou mucosa inteiramente cicatrizada. As radiografias mostraram esôfago normal (figs. 3 e 4).

 

Fig. 1 e 2


É esta a técnica que usamos rotineiramente em casos semelhantes.

 

Fig. 3 e 4


Outro caso é de Lucilia Moreira Parda, feminina, solteira, 24 anos, brasileira, residente à Rua lbiapina, sem n.°, matrícula 18.129 e que, em setembro de 1952, tomou por engano, soda cáustica, em solução concentrada. Após estágio no Serviço de Clínica Médica, onde fez o tratamento da fase aguda da intoxicação, foi internada no Serviço de Otorino em 9-10-52, quando a radiografia (fig. 5) revelou estenose cicatricial do esôfago, confirmada pela esofagoscopia feita em 10-10 e que evidenciou ulcerações profundas, ao nível do terço médio do esôfago.

Nesta paciente, a seu pedido, insistente e angustioso, de que "não queria fazer operação no estômago", tentamos usar a sonda de Plummer com fio ancorado no intestino, usando o, método deste autor, para doentes não gastrostomizados, no qual introduzimos uma variante. Plummer dá ao doente, da véspera da sessão de dilatação, um fio forte de 6 metros, que conduzirá a sonda no dia imediato. Este fio, feita a dilatação, é abandonado no tubo digestivo. Ora, nem sempre o doente consegue deglutir tão rapidamente o fio, e muitas vezes fica ele enrolado no estômago, ou mesmo na altura da estenose, o que impossibilita o seu uso. Nós fazemos da seguinte maneira: damos a deglutir um fio fino, de 3 metros mais ou menos, e neste amarramos o fio que servirá de condutor para a sonda e que terá 4 a 6 metros, 4 dias antes da primeira dilatação. Feita esta não o retiramos nem o abandonamos e sim a êle amarramos um novo fio, de mais ou menos 4 metros, recomendando ao paciente, que o vá deglutindo aos poucos, de modo que, na próxima sessão dilatatória, esteja apenas, com a ponta de fora. Aliás, o doente nem se preocupa com a ingestão da linha, pois os próprios movimentos peristálticos do tubo digestivo, puxam-na para dentro. Com isto, temos o fio bem fixado no intestino do paciente, ficando o nó da emenda, altura do jejuno-íleo, não perturbando assim a passagem da sonda.

Confessamos ter usado êste método, com bastante cuidado, pois sabemos que qualquer manobra menos cuidadosa do médico ou qualquer movimento do doente traz em si o risco de perfuração do esôfago.

 

Fig. 5 e 6


Como, entretanto, ficamos com muito fio no tubo digestivo do paciente, podemos mante-lo sempre tenso, puxando-o para fora, ao mesmo tempo que introduzimos a sonda firme, mas delicadamente, com isto tornando menos possível a eventualidade da perfuração. Nesta doente o tratamento durou três mêses, usando-se sempre o processo descrito. O resultado foi magnifico como se poderá ver pela radiografia (fig. 6). A causa clinica foi completa, tendo a esofagoscopia feita em 24-2-53 revelado esôfago completamente cicatrizado. já foram feitas mais duas esofagoscopias de controle, verificando-se que se mantem o bom aspecto e calibre do órgão.

É claro que não se pode, nem se deve usar tal processo indistintamente, mas pelo contrário, selecionar muito os casos. É preciso que a queimadura esofagiana não seja muito extensa, que o doente coopere de modo absoluto, é que o endoscopista não seja afoito, nem apressado.

A grande vantagem da nossa variante é termos a certeza de que a linha não está enovelada no estômago ou no esôfago, afastando-se assim uma das causas de possíveis perfurações esofagianas.

No momento, tratamos por êste meio mais dois pacientes, estando muito esperançados quanto aos resultados. Parece-nos que êste método deve ser tentado, sempre que possível, evitando-se a gastrostomia, que às vezes cria um complexo no paciente.

A seguir relataremos um caso de megaesôfago, em que conseguimos bons resultados com a dilatação sob o controle radioscópico, usando o balão de Brown Mc Hardy.

Trata-se de Ovídio Machado de Souza, preto, brasileiro, 29 anos, solteiro, operário, residente à Rua Marapirim, 325, ficha n.º 18.319.

Procurou-nos em 25-11-52, relatando que há anos se alimentava com dificuldade, só conseguindo deglutir após beber muita água. Fez diversos tratamentos sem resultado.

 

Fig. 7 e 8


As radiografias feitas em 26-11 (fig. 7 e 8) verificamos a existência de volumoso megaesófago, havendo a esofagoscopia, feita em 4-12, revelado a região do cardia muito estreitado, com orifício punctiforme e indilatável. O esôfago estava cheio de líquido. No dia imediato tentamos fazer a dilatação com o balão de Brown Mc-Hardy sob o controle radioscópico, mas apenas a sua ponta atravessou o cárdia. O balão dobrava-se ao meio e formava um ângulo no esôfago dilatado. Tivemos, então, a ideia de tentar atravessar o cardia, usando o processo que o doente utilizava para a sua alimentação, isto é, enchendo o esôfago com líquidos. Para isto fazemo-lo ingerir grande quantidade de solução baritada e verificamos que quando esta encheu dois terços do esôfago o cardia deixou passar a sonda (fig. 9). Colocada esta em posição foi feita a dilatação até a largura de mais ou menos dois dedos transversos, o que foi mantido por alguns minutos (fig. 10). O doente se curou com apenas esta sessão dilatatória.

Realmente, as radiografias feitas 40 dias apôs revelaram trânsito e calibre esofagianos normais (fig. 11 e 12). O balão de Mac-Hardy semi dilatado atravessava livremente o cárdia.

 

Fig. 9 e 10


 

Fig. 11 e 12


A apresentação destes casos serve apenas como demonstração do esforço do Serviço em que trabalhamos naquele Hospital, o qual embora com enorme e proveitoso movimento de doentes de oto-rino, pode também se dedicar a ENDOSCOPIA PERORAL.

(*) Trabalho apresentado na sessão de 2 de Judio de 1953, na Sociedade de Otorinolaringologia do Rio de Janeiro.

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