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Ano:  2007  Vol. 73   Ed. 4  - Julho - Agosto - ()

Seção: Editorial

Páginas: a

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Mutirões de tonsilectomia

Tonsilectomies drive

Autor(es): Prof. Dr. Ivan D. Miziara

Desde a primeira tonsilectomia realizada em São Paulo por Schmidt Sarmento, em 1920 na Santa Casa de São Paulo, este tipo de cirurgia, utilizada para solucionar as infecções crônicas e obstruções causadas pelas tonsilas palatinas, vem se tornando um dos mais freqüentes procedimentos cirúrgicos realizados no mundo todo. Só nos Estados Unidos, estima-se que sejam realizadas cerca de 250 mil operações para remoção de tonsilas e vegetações adenóides anualmente.

No Brasil o quadro não é diferente. Embora não tenhamos estatísticas concretas, centenas de milhares de crianças e adultos são submetidas (ou necessitam ser) à tonsilectomia. Por conta disso, e das dificuldades inerentes ao sistema público de saúde, as filas de pacientes aguardando cirurgia em hospitais universitários e/ou públicos são enormes. Em muitos casos, as vagas só são conseguidas em prazos que podem chegar a até dois anos de espera.

Como tentativa de resolver o problema das filas de espera, durante a gestão do à época Ministro da Saúde José Serra, vários tipos de procedimentos cirúrgicos foram realizados nos hospitais públicos por meio de mutirões. Esses eventos, nos anos seguintes, foram tornando rotineiros e utilizados em vários pontos do país. Na Divisão de Clínica ORL do Hospital das Clínicas da FMUSP, realizamos dois grandes mutirões de tonsilectomias em 2005 e 2006.

No total, 400 pacientes (em sua grande maioria crianças) foram operados nesses dois anos. Todos eles pelo método de dissecção sob anestesia geral com entubação oro-traqueal. A incidência de intercorrências, como sangramentos pós-operatórios, não excedeu a descrita na literatura médica sobre o assunto (em torno de 5% em média). A maior parte dos pacientes recebeu alta no mesmo dia, sem maiores problemas.

Feito um balanço dos mutirões de tonsilectomia realizados no HC-FMUSP, o resultado foi extremamente positivo. A fila de espera foi reduzida a praticamente dois meses de agendamento. O ensino cirúrgico foi incrementado e o envolvimento dos médicos-assistentes em todo o processo, trabalhando como voluntários, revelou-se acima das expectativas.

Infelizmente, para o ano de 2007, os mutirões de tonsilectomia não estão previstos para o Hospital das Clínicas da FMUSP. As razões englobam uma série de fatores dependentes da vontade das secretarias estadual e municipal de saúde e alheios à vontade da Divisão de Clínica de ORL comandada pelo Professor Ricardo Ferreira Bento, um ardoroso defensor dessas maratonas cirúrgicas.

Resultado: hoje temos em nossa fila de espera mais de 400 pacientes entre adultos e crianças.

A nosso ver, os mutirões cirúrgicos são fundamentais dentro da atual estrutura de saúde pública no Brasil. Principalmente em se tratando de hospitais universitários, que acabam recebendo pacientes inclusive dos mais longínquos rincões brasileiros, sem obedecer às regras de referenciamento por regiões.

Fila de espera, por si só, é algo desumano e uma violência contra as populações mais carentes que dependem dos hospitais públicos para resolver seus problemas de saúde.

Mutirões não são, obviamente, a solução ideal, mas aquela possível. E entre não se fazer nada e executar o possível, manda a lógica e o bom senso que se escolha a última alternativa. Para que sejam realizados com freqüência, dependem apenas do apoio e suporte das secretarias de saúde, já que os médicos se dispõem a cumprir sua parte.

Com a palavra, nossas autoridades de saúde.


Prof. Dr. Ivan D. Miziara
Professor Livre Docente pela Faculdade de Medicina da USP
Médico responsável pelo Ambulatório da Divisão de Clínica ORL HC-FMUSP

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