Versão Inglês

Ano:  1935  Vol. 3   Ed. 6  - Novembro - Dezembro - ()

Seção: Associações Científicas

Páginas: 545 a 552

 

ASSOCIAÇÕES CIENTIFICAS

Autor(es): -

SECÇÃO DE OTO-RINO-LARINGOLOGIA DA ASSOCIAÇÃO-PAULISTA DE MEDICINA
Sessão de 17 de Setembro de 1935

Presidida pelo Dr. Roberto Oliva e secretariada pelos Drs. Mattos Barretto e Silvio Ognibene, realisou-se rio dia 17 de Setembro ultimo, a oitava sessão ordinaria deste ano, da Secção de Oto-rino-laringología da Asociação Paulista de Medicina.

ORDEM DO DIA:

1.º) DR. MATTOS BARRETTO (S. Paulo) - Das formas mucosas da leishmania tegumentar americana e seu tratamento.
(Este trabalho saiu publicado na integra, no ultimo numero desta revista (Vol. III, n.° 5, 1935).

DISCUSSÃO:

Dr. Horacio de Paula Santos: Diz que quando escreveu sua tése, procurara focalisar a parte morfologica da leishmaniose das mucosas, por haver ainda poucas referencias sôbre o assunto (Hartung, M. Ottoni,); agora o Dr. Barretto faz uma descrição minuciosa de todas as formas, motivo pelo qual o felicitava.

Dr. Busacca: Diz que o edema palpebral inferior é observado em alguns casos de leishmanióse.

Prof. Paula Santos: Elogía o trabalho do Dr. Barretto e friza a importancia do problema da leishmanióse em nosso meio.

2.º) DR. GABRIEL PORTO (Campinas) - Câncer intrinseco do laringe.

Resumo: O A. focalisa o estado atual da questão, fazendo considerações sôbre o historico, frequencia, etiología e diagnóstico do câncer do laringe. Mostra a necessidade e o valor de um diagnostico precóce. Insiste sôbre a importancia do sintoma-rouquidão-que, quando duradouro, deveria, como já acontece em outros países, despertar no publico e nos clinicos a suspeita de uma provavel neoplasia do laringe. Estuda o valor da biopsía como meio de diagnóstico, mostrando que é preciso saber interpretá-la com critério. Analisa o progresso da teurapêutica das irradiações no câncer do orgão vocal, citando os resultados animadores obtidos pelo método de Coutard. Ocupa-se depois, do tratamento cirurgico, assinalando os belos resultados já obtidos com a cirurgia conservadora do laringe, aplicavel somente aos tumores em inicio. Nos casos mais avançados, só a laringectomía total pode salvar o paciente. Esta intervenção, apresentando hoje baixa mortalidade e elevada porcentagem de curas, a-pesar-de mutilante, permite aos doentes razoaveis condições de vida. Faz considerações sôbre as indicações e a tecnica predileção pela tecnica de Pérrier.

Terminando, afirma que o cancer intrinseco do laringe, o mais curavel dos neoplasmas malignos
Quando em inicio, precisa ser diagnosticado precocemente. Só assim a cura poderá ser obtida em mais de 80% dos casos.

DISCUSSÃO:

Dr. Rafael da Nova: Está de pleno acôrdo com o Dr. Porto: o câncer intrinseco do laringe precisa ser diagnosticado precocemente, pois do contrario evolue para a morte.

Prof. Paula Santos: Diz que o Dr. Porto focalisou brilhantemente essa importante questão, que é a do câncer. Entretanto, acha que ha um pouco de exagero, quando disse que muito pouco se tem feito entre nós, no tocante a sua terapeutica. De um lado, ha falta de clinicas apropriadas, onde o doente possa ser operado e tratado convenientemente; de outro lado, os proprios doentes são os culpados, pois quase nunca nos procuram no inicio da doença.

Dr. Friedrich Müller: Cita dois casos: um, após a intervenção, sobreveio tuberculóse. O segundo, é o seu proprio caso: teve uma neoformação do laringe, que foi diagnosticada de tumor maligno, por abalisado especialista. Feita a exerése, o tumor nunca mais apareceu. Acha que só se deve falar em tumor maligno, depois de absoluta certeza.

Dr. Roberto Oliva: Acha que ainda ha muita divergencia na questão do diagnostico histo-patologico. Espera que os raios X resolverão o problema do câncer do laringe, pois a operação é muito mutilante.

Por ultimo, pede a palavra o Dr. Busacca, para dar esclarecimentos sôbre um caso de trombo-flebite do seio cavernoso, trazido á sessão anterior pelo Dr. Gabriel Porto. O caso foi amplamente discutido, ficando as duas partes satisfeitas com as explicações dadas.

Sessão de 17 de Outubro de 1935

Presidida pelo Dr. Roberto Oliva e secretariada pelos Drs. Mattos Barretto e Silvio Ognibene, realisou-se no dia 17 de Outubro, a nona sessão ordinaria deste ano, da Secção de Oto-rino-laringología da Associação Paulista de Medicina.

ORDEM DO DIA:

1.º) DR. MANGABEIRA ALBERNAZ (Campinas) - Paralisías diftéricas e sôro inespecifico.
(Este trabalho foi publicado no ultimo numero desta revista) .

Resumo: As paralisias diftéricas são produzidas pela toxina especifica. Segundo uns, o sôro especifico é a terapêutica de eleição da paralisía; segundo outros, ela o deveria ser somente quando a toxina ainda não estiver fixada aos centros nervosos. Tal fixação é demonstrada pela reação de Schick ou pelo doseamento da antitoxina contida no sangue. Ambos os processos são aliás faliveis.

Contra essas ideias classicas, consegue o A. a cura de um caso de paralisia vélopalatina, verificada em uma creança que teve diftería frusta e não tratada, lançando mão do sôro anti-estreptocócico.

Chama a atenção dos especialistas para tal fáto, pois ele vem pôr em cheque as ideias classicas e
talvez abrir novos horizontes á terapêutica das complicações nervosas das difterias.
2.º) DR. RAPHAEL DA NOVA (S. Paulo) - Um caso de corpo estranho de laringe.

(Este trabalho está publicado "in extenso" em outra secção desta revista).

3.º) DR. CORYNTHO DE TOLEDO (S. Paulo) - Sôbre um caso de colesteatoma traumatico da região suprahiodéa.

(Vide este trabalho, publicado na integra, em outra secção desta revista).

DISCUSSÃO:

Dr. Mario Ottoni de Rezende: Pergunta ao Dr. Coryntho, como conseguiu o anatomo-patologista fazer o diagnostico de colesteatoma traumatico, quando os cortes histologicos, segundo a descrição respectiva, não apresentam pelos, glandulas sudoriparas ou sebaceas, que pudessem determinar sua origem cutanea.

É verdade que uma quantidade infinitamente minuscula de pele inclusa será o bastante para que se processasse a formação de um tumor epitelial, tal como o colesteatoma, mas, mesmo assim, um diagnostico anatomo-patologico de origem, pensa, só poderá ser feito, baseado na anamnése e pelo clinico.

Faz em seguida algumas considerações clinicas e anatomo-patologicas sôbre os colesteatomas primitivos que, segundo as teorias mais recentes, seriam todos os existentes.

Dr. Coryntho de Toledo (encerrando a discussão) : Responde ao Dr. Ottoni de Rezende que, o Prof. Carmo Lordy, ao receber a peça para exame, tambem foi informado detalhadamente sôbre o caso. Daí a razão do seu diagnostico.

Sessão de 18 de Novembro de 1935

Presidida pelo Dr. Roberto Oliva e secretariada pelos Drs. Mattos Barretto e Silvio Ognibene, realisou-se no dia 18 de Outubro ultimo, a decima sessão ordinaria do presente ano, da Secção de Oto-rino-laringología da Associação Paulista de Medicina.

ORDEM DO DIA:

1.º) DR. J. REBELO NETO (S. Paulo) - Desabamento do dorso nasal consecutivo a resecções sub-mucosas e a abcessos do septo, sob o ponto de vista patogenico e terapeutico.

(Este trabalho está publicado na integra em outra secção do presente numero desta revista).

DISCUSSÃO:

Dr. Homero Cordeiro: Acha que o Dr. Rebelo Neto, como abalizado cirurgião-plastico que de facto é, tem toda a razão de chamar a atenção dos especialistas para certos detalhes de tecnica, que bem observados, evitarão futuras deformidades do dorso nasal, quando na pratica das resecções sub-mucosa do septo nasal. Entretanto, pelo que tem visto e observado e levando em conta o grande numero dessas intervenções praticadas em nosso meio, julga tais deformidades relativamente raras, e, isso tem sua explicação no facto de ser uma intervenção de tecnica perfeitamente estabelecida: todo especialista sabe muito bem que uma resecção exagerada da cartilagem quadrangular paralelamente ao dorso nasal, assim como a da sua parte anterior, proximo ao sub-repto, poderá acarretar posteriormente depressões no dorso nasal e tambem quéda da ponta do nariz.

Quanto aos casos de abcesso do septo, tambem os considera raros, No seu tirocinio clinico, só teve ocasião de ver meia duzia deles, e todos de origem traumatica.

Dr. Rubens de Brito: Pergunta ao Dr. Rebelo como é que se faz nos casos de luxação do sub-repto, afim de evitar futuras deformidades?

Dr. Rebelo Neto (encerrando a discussão): Responde ao Dr. Brito que nos casos por ele lembrado, faz, como preconisa Halle, a reimplantação da cartilagem quadrangular retirada do proprio doente, evitando assim deformidades.

Agradece os comentarios do Dr. Homero Cordeiro.

2.º) DR. FRIEDRICH MÜLLER (S. Paulo) - a) Atresía coanal ossea. Operação. Cura. b) Anestesia local auxiliada pela narcóse geral, em oto-rino-laringología.

Resumo: Relata o A. a intervenção que praticou num caso de atresía ossea da coana direita, em uma senhora, frizando que é preciso remover a parte posterior do septo nasal, para se conseguir um resultado duradouro e satisfatorio.

Em segundo lugar falou o A. sôbre a anestesía local auxiliada pela narcose geral intermitente, metodo este, que sendo bens executado, deixa o doente ao abrigo de sofrimentos psiquicos, favorecendo a anestesia local e facilitando ao medico o proseguimento, ás vezes muito dificil, da intervenção. Tambem alarga o campo de sua atividade profissional.

DISCUSSÃO:

Dr. Mario Ottoni de Rezende: Diz que, no tratamento da atresia das coanas, é sabido de todos as dificuldades que se podem apresentar por vezes, para a sua remoção. O Dr. Müller acaba de apresentar o metodo classico da abertura das coanas atrésicas, e sem se ressecar a parte posterior do septo nasal, muito dificil se torna manter essa coana aberta. Essa resecção é facil, principalmente para quem tem certa pratica em operar o seio esfenoidal pela via trans-septal.

Quanto ao segundo trabalho do Dr. Müller, o emprego da anestesía operações em creanças, não tanto nas operações do septo nasal, porque aqui no Brasil, ao contrario do que acontece na Alemanha, raramente se, opera o septo em creanças, talvez devido a falta de docilidade e disciplina da creança brasileira, ao passo que na Alemanha a docilidade é tão grande nas creanças, que facilmente se pode operar sem anestesía geral, como podem observar todos que para lá vão. Quanto ao metodo do Dr. Müller, acha que a anestesía deva ser um pouco mais intensa para se conseguir qualquer cousa, pois se for muito superficial, talvez não seja suficiente; a ideia é boa e aproveitavel, embora não seja moderna.

Dr. Roberto Oliva: Diz que as recidivas nessas intervenções das coanas atresiadas são muito frequentes, razão porque acha que o Dr. Müller foi feliz com o resultado obtido em seu caso.

Quanto a anestesía geral, acha indicação nas creanças, mas não para os adultos. Pergunta ao Dr. Müller se a mascara para a anestesía não atrapalha as operações.

Dr. Horacio de Paula Santos: Lembra de um caso de atresía das coanas: havia um grande desvio anterior do septo nasal, que mascarava essa atresia; após a operação do desvio, verificou que a obstrução continuava, e então, examinando bem, verificou-se a presença da atresía, que foi operada tendo o doente ficado bom.

Lembra esse caso, para que se evitem erros de diagnostico semelhantes, que são sempre possiveis.

Dr. Friedrich Müller (encerrando a discussão): Diz que algumas inalações são suficientes para se conseguir a anestesía. Quando o doente começa a despertar, novas inalações são feitas, de modo que se pode operar sem inconveniente algum.

Sessão de 17 de Dezembro de 1935

Presidida pelo Dr. Roberto Oliva e secretariada pelo Dr. Mattos Barretto, realisou-se no dia 17 de Dezembro ultimo, a decima-primeira sessão ordinaria deste ano, da Secção de Oto-rino-laringología da Associação Paulista de Medicina.

Na hora do expediente procedeu-se a eleição da mesa da Secção de Oto-rino-laringología para o ano de 1936, sendo eleitos: Presidente, Prof. Antonio de Paula Santos; l.° Secretario: Dr. Jayme Campos; 2.° Secretario: Dr. Othoniel Galvão.

Ainda no expediente, pede a palavra o Dr. Homero Cordeiro, que depois de realçar a brilhante atuação do Dr. Raul de David de Sanson nos recentes congressos de O. R. L. de Bruxelas e de Paris, bem como ter conseguido para os medicos brasileiros, que desejarem aperfeiçoar seus estudos em Paris, a sua admissão na "Cité Universitaire", - propõe que se consigne na ata dos trabalhos "um voto de congratulações e louvor" ao Dr. Sanson, e que a mesa oficie ao mesmo, dando-lhe conta da homenagem que ora lhe presta a Secção de O. R. L. da Associação Paulista de Medicina.

Posta em votação essa proposta, é aprovada por unanimidade.

ORDEM DO DIA:

1.º) DR. GUÉDES DE MÉLO F.° (Campinas) : Sôbre um caso de abcesso extra-dural.

Resumo: O abcesso extra-dural otogeno, de evolver atipico, caracterisado pela exteriorisação através da escama do temporal, com formação de grande abcesso sub-cutaneo e ausencia quasi completa de sinais inflamatorios do ouvido medio.

O A. revê a literatura do assunto, mostrando a relativa raridade da evacuação periostica dos abcessos extra-durais. O maior interesse do caso, entretanto, está na sintomatología minima apresentada pelo doente. A-pesar-de se tratar de mastoide abundantemente pneumatisada, havia absoluta integridade de todos os grupos celulares; o paciente não tivéra corrimento auricular.

A origem da lesão crâneana se revelava apenas por leve hiperemía ao longo do cabo do martelo e sôbre a parede do atico. Intervenção e cura.

O A. admite que a infecção se tenha propagado por via vascular.

DISCUSSÃO:

Dr. Roberto Oliva: Pergunta como uma lesão dessa ordem, produziu uma perturbação da percepção.
Dr. Guédes de Mélo F.º (encerrando a discussão) : Diz que havia uma perturbação de percepção bilateral, devido uma lesão antiga que nada tinha que ver com o processo atual.

2.º) DR. EDGARD DE CERQUEIRA FALCÃO (Santos) - Tumores vasculares sanguineos da face.

(Este trabalho está publicado em outra secção deste numero da revista).

DISCUSSÃO:

Dr. Guédes de Mélo F.º: Acha interesante a comunicação, principalmente pela sua raridade. Está de acôrdo com o A. que uma intervenção cirurgica que se fizesse no primeiro doente, corria o risco de substituir um defeito por outro maior e permanente. Quanto ao segundo caso, talvez se pudesse cogitar de intervir com diatermo-coagulação, pois neste caso não se corria os riscos que se verificavam no primeiro caso. E' apenas uma sugestão que faz, sem querer discutir. Tem tido varios casos de processos semelhantes, mas nas palpebras, e tem tido bons resultados com o emprego da diatermo-coagulação.

Dr. Edgard Falcão (encerrando a discussão): Responde ao Dr. Guédes de Mélo F.° dizendo que nada pode dizer sôbre o tratamento do segundo caso, porque não viu o doente, pois se tratava de um caso do Dr. Mangabeira Albernaz. Talvez não tivesse sido feita nenhuma intervenção por causa da região em que se achava o processo. Um tratamento que talvez pudesse ser tentado, seria o de injeção esclerosante, mas no momento não teve a ideia de o empregar.

Ao apresentar sua comunicação, queria tambem perguntar aos colegas se têm observado casos semelhantes, pois na literatura não encontrou muita cousa sôbre o assunto.

3.º) DR. FRIEDRICH MÜLLER (S. Paulo) - Sôbre uma operação plastica da pele da face direita em estado de flacidez congenita, com hemi-atrofia da parte ossea do mesmo lado, deformação da orelha e da parte membranacea do conduto auditivo externo.

Resumo: O A. obteve um resultado satisfatorio sob o ponto de vista cosmético, procedendo como se segue:

Partindo de uma incisão grande, indo do bordo direito do frontal até a nuca do mesmo lado, procurou destacar o tecido celular sub-cutaneo. Retirou dois grandes retalhos, juntando em seguida os bordos das respectivas incisões, esticando assim as pregas da pele e puxando para cima a orelha. A extremidade inferior da mesma, que terminava em ponta, foi destacada soldando-se os bordos da incisão separadamente, de modo a formar um lobulo. Corrigiu finalmente a porção situada em frente á anti-helix, abrindo o entumecimento por uma incisão elíptica e longitudinal, retirando do fundo da parede posterior do conduto auditivo, um fragmento constituído por tecido gorduroso e conjuntivo. Os bordos foram depois suturados.

DISCUSSÃO:

Dr. Rebelo Neto: Diz que o que se deve assinalar é a raridade do caso apresentado. São bem conhecidas as hemi-atrofias da face congenitas ou adquiridas, mas no caso do Dr. Müller,o que é interessante é que, alem da hemi-atrofía da face, havia quéda do pavilhão da orelha, com alteração da direcção do conduto auditivo. No caso, a conduta do Dr. Müller foi muito satisfatoria e os resultados estão de acôrdo com a estetica, porque a cicatriz fica coberta pelos cabelos, tornando-se assim invisivel.

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