Versão Inglês

Ano:  1972  Vol. 38   Ed. 1  - Janeiro - Abril - (10º)

Seção: Notícias e Comentários

Páginas: 82 a 88

 

ANATOMIA, SUA HISTÓRIA E SEU INSTRUMENTO DE TRABALHO

Autor(es): Nicanor Letti*

O grande problema da anatomia foi e sempre será a obtenção do corpo humano morto para seu trabalho. O melhor livro de Anatomia, como afirmava Hunter, é o cadáver. O aumento do número de vagas nas Faculdades e o progresso sócio-econômico tem díminuido cada vez mais o número de cadáveres a disposição dos estudantes de medicina. Em universidades americanas verificou-se que nas Faculdades onde o padrão de ensino era atrasado, existia uns ensino anatômico, deficiente, que deve ser prático por excelência e muito individual, exigindo grande quantidade de material.

Herófilo da escola de Alexandria no século III antes de Cristo, dissecava os cadáveres dos condenados à morte, prática que foi empregada até o século 16, tendo sido acusado de ter aberto condenados vivos para seu estudo: "inocentes homines a regibus ex carcere aceptos vivos inciderint" segundo Celso e Tertuliano. Este anatomista descreveu os vasos quilíferos que são visíveis somente durante a fase de absorção digestiva, devendo portanto ter dissecado indivíduos que haviam se alimentado pouco antes da morte.

Galeno nunca dissecou o corpo humano e sua anatomia está eivada de erros grosseiros, mas seus ensinamentos a semelhança de Aristóteles na Filosofia perduraram até o Renascimento.

Mondino de Luzzi em Bolongna, falecido em 1326, ousou depois de quase 1.200 anos colocar a mão em cadáveres humanos e dissecou três corpos de mulheres. Guy de Chauliac, em latim de estudante, capelão e médico do Papa Urbano V descreve como êste cultor da anatomia pré-vesaliana trabalhava: "Magister meus Beruccius (discípulo de Mondino) fecit anatomian per hunc modum. Situato corpore in banco, faciebat de ipso quatour lectiones. In prima tractabantur membra nutritiva, quia citius putrebilia, in secunda membra spiritualia, in tertia membra animata, in quarta extremitates tractabantut".

Em 1.° de março de 1299 a papa Bonifácio VIII proclamou a famosa bula "De sepulturis" que excomungava da Igreja aquêles que ousassem "desmembrar um cadáver ou tirar-lhe pela cocção a ossada". Esta bula não proibia a dissecção. Referia-se a um costume, comum na época, que consistia em descarnar pela cocção, os ossos dos cavaleiros e nobres que iam para a Itália com os exércitos alemães e que morriam, para remetê-los para a pátria afim de serem enterrados.

Príncipes, nobres e oficiais do exército de Barbarroxa foram submetidos a cocção diante dos muros de Roma e que o próprio imperador morto como cruzado na Síria, teve o mesmo destino. O rei Luiz, o Santo, foi cozinhado e desmembrado diante de Túnis e Felipe o Temerário descarnado desta maneira repousa em Saint Denis.

A bula em questão portanto não proibiu as atividads anatômicas como pensava Haller que chamou Bonifácio VIII de "imperitus et ferox pontifex". A dissecção científica dos cadáveres pelo contrário foi sempre incentivada pela Igreja como de claravam os antigos "statuta" de muitos Faculdades de Medicina. Realdo Colombo (De re anatomica) informa ter examinado anatomicamente cadáveres de cardeais, bispos e prelados e mesmo de um Geral dos jesuítas o que não se pode conciliar com o mêdo de excomunhão. A escola anatômica de Bologna onde Mondino fêz pela primeira vez dissecções de cadáveres humanos, com finalidade de ensino, em janeiro de 1315, foi o ponto de partida para o estudo sistemático da construção do corpo humano. Depois de Bertuccio seu sucessor que morreu em 1342 surgiu Alexandre Achillini (1463-1512 ) que deve ter dissecado inúmeros cadáveres, corrigindo os erros de Mondino, descreveu os ossículos martelo e bigorna do ouvido, o conduto sub-mandibular, as válvulas cólicas, as veias do braço, sistematizou o duodeno, os ventrículos cerebrais e descreveu o término da medula espinhal ao nível da primeira vértebra lombar.

Berengário de Carpo (1460-1530) contemporâneo de Achillini dissecou muitos cadáveres e tentou pela primeira vez conservar a seco preparados de músculos, vasos e nervos e foi professor em Pávia, morreu em 1525. Alexandre Benedetti, professor de anatomia em Pádua, construiu o primeiro anfiteatro anatômico, segundo modelo
do circo romano. Na mesma época, Marcantônio della Torre em Florença e seu famoso discípulo Leonardo da Vinci deviam dissecar cadáveres face a excelência dos seus desenhos e esboços anatômicos perfeitos. Gabriel de Zorbis (1505) era um eclesiástico e professor de anatomia em Roma, conhecido pelo trágico fim que teve ao ser entalado entre duas tábuas e serrado em dois pelos escravos de um paxá da Bósnia que o chamara como médico e morreu sob seu tratamento.

Em Paris, ensinava um galenista famoso Sylvius (1478-1555), tendo o mérito de ser o primeiro a obrigar os estudantes a realizarem dissecções. Na mesma época em outras universidades os estudantes somente assistiam as dissecções dos mestres face a escasez do cadáveres. Seu discípulo mais famoso foi Vesálio.

A primeira dissecção realizada em Viena foi no ano de 1404, por Galeatus de Pádua, comentador de Avicena, no pátio do Hospital Civil ao ar livre e durou oito dias, só em 1452 o conselho administrativo da cidade permitiu a utilização anatômica de cadáveres de mulheres.

Avicena foi um famoso médico árabe, falecido em 1037, mas que não deve ter dissecado cadáveres pois o Alcorão o proibia, mas comentando Galeno, corrigiu alguns erros e parece ter aberto ovos embrionados e descrito alguma coisa sôbre embriologia. Teve enorme influência no ensino da ciência na idade média.

No momento em que o renascimento das artes cobria a Europa e os descobrimentos de novas terras alargavam os horizontes humanos, surgiu o célebre triunvirato anatômico com Vesálio, Eustáquio e Falópio.

Foram criadas pela primeira vez cátedras de ensino nas mais importantes cidades da Itália, França e Alemanha. A restauração da anatomia como ciência e sua base científica foi implantada nesta época por Andrés Vesálius, nascido em Bruxelas em 31 de dezembro de 1541. Estudou anatomia em Montepellier e em Paris com Sylvius. Verificando que somente a dissecção lhe tiraria as dúvidas que tinha lendo Galeno, Aristóteles e Avicena, excursionava ao cemitério dos Inocentes e ao cerro de Mont Fançont em busca de cadáveres. Gurdava-os em seu quarto e os dissecava durante a noite. Viajou pela Itália exercendo a cátedra de anatomia e cirurgia em Pádua de 1539 a 1546. Dissecava e fazia a exposição oral mostrando as estruturas, revolucionando o ensino que até então era realizado lendo os escritos de Galeno.

Morou em Pisa e a história registra que Cosme Médicis enviou de Florença o cadáver de uma monja para que Vesálio o dissecasse. Renunciou a cátedra em Pádua e viajou para Espanha onde viveu 20 anos ao lado de Carlos V e Felipe II sendo médico particular destes soberanos. Deve-se a eles a obrigatoriedade do professor de anatomia explicar suas lições no cadáver como estabeleceu o estatuto da Universidade da Salamanca em 1546 emitido por Felipe II. Em 1559 quando Henrique II da França foi ferido no ôlho em um combate amistoso com o conde de Montgomery, capitão da guarda escocesa, Vesálio foi comissionado para atender ao soberano por Felipe II.

Junto com Ambroise Paré dissecaram cabeças de criminosos executados afim de planejar a cirurgia que realizariam, mas o rei morreu de complicações cranianas. Vesálio foi médico durante a batalha de Lepanto e tratou o ferimento de Miguel Cervantes, que tomou parte neste combate naval contra os turcos. Escreveu aos 28 anos sua obra máxima na qual expõe toda sua anatomia "De Humani Corporis Fabrica" (Do edifício do corpo Humano) impressa em Basiléia no ano de 1543 por Andrés Oporino e financiada pela corte espanhola. Esta obra afirma Aguirre constitue o início da medicina moderna, período que se estende até a publicação da Anatomia Patológica de Virchow em 1858. A obra consta das seguintes partes: osteologia, ligamentos, músculos, veias, artérias, sistema nervoso periférico, orgãos do abdôme, orgãos do tórax, do cérebro e dos sentidos e finaliza com uma técnica de vivissecção. Possue 22 grandes ilustrações e 187 pequenas. Em 1562 o cirurgião Ambroise Paré denunciou Andrés Vesálius de ter realizado uma vivissecção ern uma mulher em letargia histérica. A história relata sem confirmação que foi condenado a morte por ter sido surpreendido dissecando uma grande personalidade espanhola ainda com vida, mas foi perdoado pelo rei que lhe impôs como castigo uma peregrinação à Palestina. O botânico francês Julio L'Ecluse chegou a Madrid no dia que Vesálio partia e escrevendo ao seu amigo De Thou afirma que o grande anatomista viajara por motivos de saúde. Na viagem o navio naufragou frente a ilha de Zante no golfo de Corinto, Vesálio chegou até a ilha a nado mas faleceu 15 dias depois da enfermidade que vinha padecendo aos 15 de outubro de 1564.

Em 1556 Carlos V apresentou a obra de Vesálio à censura da Inquisição e a Faculdade Teológica de Salamanca foi perguntado se era permitido aos cristãos católicos dissecar. A resposta foi favorável.

O grande mérito de Vesálio foi ter libertado o ensino e a pesquisa da anatomia dos escritos de Galeno que haviam pontificado durante 14 séculos.. Teve o mesmo papel, na Anatomia e nas ciências biológicas em geral, durante o renascimento, que Descartes para Filosofia e Galileu para a Astronomia.

Gabriel Fallopio foi outro que na mesma época de Vesálio, ajudou a reconstruir a anatomia, primeiramente foi cônego em sua cidade natal Módena. Foi professor de anatomia em Ferrara, Pisa e Pádua. Era exímio dissector e deixou uma obra "Observationes anatomicaé" publicada em Veneza em 1561.

Bartholomeus Eustachius que morreu em 1570, foi inimigo de Vesálio, mas muito contribuiu para o renascimento da Anatomia. Escreveu os "Opuscula anatomsca" que foram publicados em 1564. Seus "Tabulae Anatomicae" que demonstram suas dissecções e descobertas realizadas em cobre, permaneceram 150 anos no museu do Vaticano, até que o papa Clemente XI presenteou ao seu médico particular Lancisi, também grande anatomista, que os publicou no ano de 1714.

Ainda no século a anatomia tem a relembrar Jacobus Fabrizzi, nascido em Acquapendente (1537-1649) professor em Pádua que construiu a anfiteatro ainda existente. Foi grande dissector, mas seu maior mérito foi ter sido mestre de William Harvey, inglês que estudou em Pádua e descobriu a circulação do sangue e seu modo de ser. Constanzio Varolio (1543-1515) foi professor em Bologna e seu sucessor Aranzio (morreu em 1589) foram também insígnes anatomistas. Em Pisa, Guido Guidi dissecou e ensinou até 1569 quando faleceu. Em Basiléia Caspar Bauhin (1560-1624) que ensinava anatomia e botânica foi dissector famoso e médico da rainha aos dezassete anos.

Julius Caserius (1545-1605) professor também em Pádua fez uma série de descrições famosas (corpo caloso, pineal, tálamo, aqueduto e aracnoides) e sempre ensinou em cadáveres.

O mérito da escola italiana foi ter recebido discípulos de toda a Europa e no século dezessete ter espalhado por todos os países os ensinamentos anatômicos.

De 1600 até 1700 desenvolveu-se um outro período na qual se estruturou definitivamente a anatomia, escreveram-se tratados e se construiu a base da profissão médica, do ensino e das Faculdades de Medicina, baseada no trabalho pioneiro dos anatomistas.

Na França Jean Riolan, Joseph Duverney e Vieusseus estudaram a miologia, osteologia e neurologia, sendo que com a obra "Neurologia Universalis" Vieusseus de Montepellier e Willis da Inglaterra foram considerados os melhores neurologistas do século.

Na Inglaterra destacamos Glisson, Wharton e Highmore. Thomas Willis (1622) derrubou definitivamente o conceito de "rete mirabilis" na base cerebral de Galeno e descreveu o polígono vascular que tem o seu nome. Classificou os nervos em 9 pares, que foi um avanço sôbre a de Vesálio de 7 pares; e somente no século seguinte Sõmmering daria a descrição definitiva em 12 pares.

Na Holanda destacaram-se Friderijh Ruysch (1638-1731) que aperfeiçoou as injeções vasculares inventadas por Leonardo da Víncí, estudou os vasos coronários, plexos corioides, artérias brônquicas e a estrutura vascular da placenta. A injeção vascular era realizada com cera e sebo líquido.

Ruysch que foi professor de Anatomia e Botânica em Amsterdam fazia preparações vasculares que eram mundialmente famosas, o estudo das finíssimas rêdes vasculares dos orgãos, que lhe apresentaram a atenção levaram-lhe a afirmar "totum corpos ex vasculis". O czar Pedro o Grande, que se encontrava na Holanda estudando a construção de navios, visitava-o frequentemente e assistia suas preleções.

Comprou do anatomista uma coleção de preparados e a receita da massa de injeção por 30 mil florins de ouro. Parte da coleção se perdeu na viagem para a Rússia, pois os marinheiros beberam o álcool que conservava as peças.

Na Holanda trabalhou De Graaf (1641) que descreveu os folículos ovarianos e seus ciclos, assim como a vascularização dos testículos.
A anatomia nesta época certamente devido a abusos que foram divulgados ao povo era um dos "místeres desonrosos". A falta de cadáveres era o grande motivo, pois somente os corpos dos justiçados eram destinados ao bisturi dos dissecadores. O exercício da dissecção era considerado ignominioso. O grão duque Cosme I instaurou em Pisa anualmente a dissecção publica de um malfeitor, que tinha de ser estrangulado expressamente para esse fim e durava doze dias.

Muitos anatomistas nesta época, como Fabricius Haldanus procuravam cidades onde se- realizavam execuções para fazerem suas demonstrações anatômicas. Foram Ruysch com seu museu que era visitado pelo povo e a dedicação de Jean Guichard Duverney (Paris) que face a maneira inteligente de divulgação da anatomia fez com que Bossuet, o educador do delfim, o designasse professor de anatomia do futuro Luiz XIV. Desta maneira pode se desenvolver tranqüilamente a anatomia na França através de Winslow, (1669-1760), Pierre Tarin (1690-1761), Lientaud (1703-1780), Petit (1712-1794) e Sabatier (1737-1811). Duverney foi o primeiro a demonstrar a comunicação da mastóide com a caixa timpânica, descreveu o caracol e os canais semicirculares e achou que a corda timpânica era uma anastomose entre o VII e V par.

Na Dinamarca ensinaram neste século Bartholin e Stensen com descobertas famosas que tem os seus nomes. Na Itália ainda tivemos Giandomenico Santorini que estudou a musculatura da mímica.

Rivinus e Marcelo Malpighi (1628-1694) fundador da histologia foi mestre do grande anatomista e chefe de escola Antonio Maria Valsalva (1666-1723). No seu tratado "De aure humanae" (1704) (Do ouvido do homem), relata sua experiência de 16 anos sobre mais de mil cadáveres dissecados. Estudou a aorta, glândulas suprarenal, colon e principalmente o ouvido, sendo um precursor e primeiro otologista. Dividiu o ouvido em externo, médio e interno e descreveu tôdas as partes deste orgão. Para a época deve ter sido o mais exímio anatomista. Sua maior obra, entretanto, foi ter sido mestre de Morgagni.

Com a ascenção de Giovanni Morgagni (1682-1771) na cátedra de Pádua, chamado o "príncipe dos anatomistas" e fundador da anatomia patológica, cresceu a anatomia de maneira notável. Os docentes foram aumentados, as cátedras se consolidaram, melhorou o ensino e se escreveram tratados. O período de 1740 a 1800 foi portanto o da consolidação do ensino médico, da reestruturação definitiva da anatomia e a criação de outras disciplinas como fisiologia e patologia. Foram discípulos de Morgagni: Antonio Scarpa que ensinou em Pavia (1752-1832), Leopoldo Caldani (1725-1813) sucessor de Morgagni em Pádua e Paulo Mascagni (1752-1815).

O magistério de Duverney em Paris legou para a posterioridade seus discípulos Felix Vic d'Azyr que foi médico de Maria Antonieta, Jean Batista Lénac (1693-1770) e Antoine Portal.

Na Alemanha o progresso da Anatomia nesta época foi notável face o método da dissecção fina e cuidadosa dos seus anatomístas. Daí terem os alemães descrito todos os gânglios neurovegetativos associados aos nervos crânianos e desenvolvido a cirurgia, com Heister, Lieberkunhn, Weitbrecht, Meckel, Zinn, Wrisberg e Sömmering.

Na Inglaterra tivemos Cheselden, Douglas, os irmãos Monro e John Hunter que após ser anatomista foi considerado o mais eminente cirurgião do século XVIII.

Na Dinamarca tivemos os discípulos de Ruysch: Cooper e Albinus, e na Espanha, Antonio Gimbernat.

A história da anatomia do século dezenove confunde-se com os anatomistas dedicando-se a morfologia comparada, ao desenvolvimento da histologia e embriologia, as teorias de Darwin e Heackel. Temos os nomes de Theodor Schwann, Pacini e Camilo Golgi, His, Remak, Gerlach, Schultze e outros. Na anatomia macroscópica distinguiram-se na Alemanha Hubert von Luschka, Joseph Hyrtl e Karl Langer. Os alemães estudaram sobretudo o sistema nervoso central com Ernst Burdach, Benedikt Stilling, Bernhard von Gudden, Friedrich Goll e Paul Emil Flechsig. Na França pontificaram Louís Antoine Ranvier, Paul Broca e os autores dos tratados clássicos Jean Cruveilhier e Marie Philibert Sappey, na anatomia topográfica Armand Velpeau, Jules Cloquet e Joseph Malgaine. Na anatomia geral tivemos o gênio de Marie François Xavier Bichar (1771-1802) sistematizou o estudo dos tecidos segundo suas funções e escreveu a "Anatomie Generale" (1801), tratado Fundamental para a anatomia moderna.

Em Turim floresceu uma escola muito importante para o Brasil e cuja figura principal foi Carlo Giacomini (1840-1898), autor de um tratado famoso, de técnicas anatómicas de conservação e pelos seus inúmeros discípulos como Romeu Fusari (1898-1919), Giuseppe Levi (até 1938) e Luigi Bucciante. Deste centro saíram também Giusepe Sperino, Angelo Bruni, Tulio Terni, Oliviero Olivo e Alfonso Bovero que ensinou em São Paulo e desenvolveu a anatomia brasileira. Alfonso Bovero, piamontês de origem, ocupou a cátedra de anatomia da Faculdade de Medicina de São Paulo de 1914 até 1937, quando retornou a Itália e lá faleceu. A atividade dêste anatomista foi notável, pois além de exímio dissector, foi um grande organizador e chefe de escola, sua influência através de seus discípulos é sentida pela maioria dos anatomistas do Brasil atual, São seus discípulos: Renato Locchi, Odorico Machado de Souza e Liberato Afonso Di Dio, que ainda exercem sua atividade no Brasil e o último nos Estados Unidos.

Atualmente a anatomia, sob o ponto de vista macroscópico e microscópico está muito bem descrita, mas face o progresso dos sistemas ópticos, principalmente do microscópio estereoscópico surgiu um outro capítulo fundamental que é o das estruturas vistas em aumento entre o macro e o microscópico. Esta anatomia é fundamentalmente para a cirurgia ocular, otológica, do sistema nervoso, suturas vasculares e na endoscopia de todos os orgãos acessíveis.

Mais recentemente foi desenvolvida a estereoscopia eletrônica, podendo, sem artefatos de qualquer natureza visualizar estruturas com 50 a 100 mil aumentos com o SEM (Scanning Electron Microscope).

O grande problema para os anatomistas atuais é conseguir o corpo humano para seu trabalho. Não existem leis que regulamentam o uso do corpo humano para a dissecção, nem quais os deveres e obrigações no uso de tão nobre material. São verdadeiramente os usos e costumes, o bom senso dos anatomistas e o tradicional fornecimento de corpos mortos por casas de saúde onde são recolhidos doentes humildes e sem condições econômicas de ter um enterro normal, que mantem o trabalho nas instituições anatómicas.

Nas grandes cidades não existe problema em conseguir cadáveres para o ensino, mas nas cidades menores onde se estabelecem novas Faculdades é o principal problema.

Por esse motivo, sugerimos o estudo deste problema que talvez se transforme em um projeto de lei que regule as atividades dos anatomistas tendo em vista a utilização do corpo morto, as doações em vida e outras particularidades da dissecção humana.




* Ex-professor de Anatomia e atual professor adjunto da dísciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da U.F.R.G.S.

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