Versão Inglês

Ano:  1972  Vol. 38   Ed. 1  - Janeiro - Abril - ()

Seção: Trabalhos Originais

Páginas: 33 a 41

 

CANAL ÓPTICO - Representação radiográfica convencional, zonográfica e politomográfica. Emprêgo de craniostáto especial, provido de esférulas rodiopacas*

Autor(es): Dr. Mário Finocchiaro,
Dr. Glauro G. Oliveira,
Dr. Adalberto J. Fonseca Zonello,
Dr. Paulo Oliveira Iron e
Dr. Mário Osoegawa

O estudo radiográfico do canal óptico tem sido objeto de múltiplas investigações. Numerosos foram os trabalhos publicados, quer anatômicos para precisar sua topografia, forma e dimensões, quer de técnica radiográfica referentes ao posicionamento e incidências a serem empregadas.

O assunto é ainda de vivo interesse atual sejam vistos muitos trabalhos recentes, entre eles, fundamentalmente os de Buffrad e col.(2) e Van de Velde(8).

Entretanto, embora o muito que se tenha proposto, os métodos radiológicos, mesmo os agora usados, não satisfazem plenamente aos investigadores, pois que, baseados em rígidos dados geométricos (para se fazer coincidir o raio central com o eixo do conduto óptico), resultam em fracasso ante as diferentes conformações e freqüentes assisterias do crâneo, e, por outro lado, porque as técnicas se referem a pontos de reparo imprecisos e dificilmente identificaveis.

Duas condições devem ser satisfeitas para se obter boas radiografias do conduto óptico: 1ª) o raio central deve coincidir com o eixo do canal e, 2ª) o raio normal deve ser perpendicular ao plano do filme.

O método que os AA. propõem, com a emprêgo de um eraniostato especial, provido de esférulas de chumbo, baseia-se numa simplificação da técnica idealizada por Busi(1), na pesquisa de pontos de referência anatômicos, de fácil reconhecimento, para exata projeção radiográfica do canal óptico.

O processo de Busi(l), também conhecido por "método radioscópico-radiográfico das três esférulas de chumbo" pode ser resumido da seguinte maneira: com cêra adesiva aplicando-se uma esférula de chumbo (8 mm. de diâmetro) imediatamente abaixo da espinha nasal, na linha mediana. Outras duas esférulas são aplicadas nos meatos auditivos externos, direito e esquerdo. Colocado o paciente em decúbito ventral, na mesa radiológica, sob contrôle de radioscopia, procede-se de modo que as três esférulas sejam vistas alinhadas no ecran fluorescente (Fig. 1).

Assim sendo, as três esférulas guardam igual distância entre si, em uma reta paralela à fissura tranversal do diafragma anti-difusor, enquanto o tubo radiógeno, para a obtenção das radiografias, situa-se um metro acima da mesa, com seu raio normal centralizado sôbre a esférula sub-nasal.

Para obter-se radiografias do conduto óptico direito, faz-se rodar lentamente a cabeça do paciente para o lado esquerdo, até que as esférulas sub-nasal e a do meato auditivo externo esquerdo se superponham, sob o mesmo raio normal, enquanto a esférula do meato auditivo direito é mantida com a sua imagem sâbre a linha réta primitiva. Para o conduto óptico esquerdo, procede-se inversamente (Fig. 2).



FIG. 1 - Radiografias de crânio macerado, segundo a visão radioscópica das três esférulas, alinhadas na projeção sagital (I), e, paralelas à fenda transversal do diafragma (II) ApuD Busi(1).



Para Hartmanrn(4), grande autoridade no radiodiagnóstico em Oftalmologia, o método proposto por BUsi, apresenta dois inconvenientes: 1º) exige posição do paciente em decúbito ventral, inaplicável para exames demorados, como a pratica da zonografia ou da planigrafia, ou, ainda, em pacientes traumatizados do crânio; 2º) requer a radioscopia prévia, afim de que se faça coincidir as esférulas opacas, cuja superposição indica o eixo do conduto óptico.

Tais inconvenientes, acima referidos, são eliminados utilizando-se o decúbito dorsal e o craniostáto proposto pelos AA. deste trabalho.



FIG. 2 - Radiografia do forame óptico esquerdo Apud Buri(l).



O dispositivo para fixação da cabeça do paciente, com o craniostáto ora alvitrado, consiste em uma guia de duraluminio, que desliza em trilhos laterais, adaptados à mesa de exame, onde se prendem duas pequenas colunas graduadas, simétricas, rigidamente fixas.

Ambas as colunas possúem um suporte que se desloca no sentido vertical. Tais suportes são perfurados, permitindo o deslizamento, em sentido horizontal, de duas hastes rígidas e milimetradas. Na extremidade mesial das ditas pequenas hastes, paralelas entre sí, encontra-se fixada uma esférula de chumbo.

A cabeça do paciente apoia o occipital sobre o centro da mesa radiológica e passa a ser rodada para o lado oposto ao do canal óptico que se quer examinar. A extremidade das duas hastes do mesmo lado deve ter o mesmo comprimento. Finalmente, faz-se com que uma delas, a inferior, alcance a abertura do meato auditivo externo, enquanto a outra, a superior, encontra a região situada imediatamente abaixo da espinha nasal. Ao mesmo tempo, procede-se de modo a que a extremidade mesial de uma das hastes heterolaterais seja colocada como que tamponando o orifício do conduto acústico externo desse referido lado.

O tubo radiógeno, com o raio normal centralizado sobre a esférula sub-nasal, tendo distância foco-filme nunca inferior a um metro, não sofre deslocamento. Com a rotação imprimida à cabeça do paciente, o raio normal incidirá próximo à borda inferior do osso malar.

Utilizando o craniostáto, a cabeça do paciente executa os mesmos movimentos de deflexão e rotação, que quando sob contrôle radioscópico, com o emprêgo do método de Busi(1), contudo, evidentemente, de maneira mais fácil e exata (Fig. 3).



FIG. 3 - Posição do paciente para a radiografia de um dos condutos ópticos (esquerdo).



Os referidos movimentos, tratando-se de um paciente adulto com crânio do tipo médio, correspondem, no que respeite à deflexão, à formação de um ângulo de 20 graus com o plano que une a raiz do nariz à protuberancia occipital externa. Este ângulo equivale ao alfa de Goalwin, isto é, um de cêrca de 20 graus, aberto posteriormente, que o conduto óptico forma com o plano horizontal alemão.

Por outro lado, no referente à rotação, têm-se a constituição de um ângulo de cerca de 35 graus com o plano mediano. Isto compensa a abertura que o eixo do conduto óptico forma. com o plano sagital mediano, aberto posteriormente, também conhecido como ângulo beta de Goalwin (Fig. 4).



FIG. 4 - Desenho esquemático para representar os ângulos alfa e beta de GoaLwin.



A posição de decúbito dorsal do paciente, permitida com o emprego do craniostato especial ora proposto, é incomparavelmente mais comoda, podendo-se praticar exames mais demorados, com perfeita tolerância.

Embora a distância conduto óptico - filme, seja maior em decúbito que em procúbito, as imagens obtidas não sofrem ampliação ou "borramento" apreciáveis, desde que o foco do tubo radiógeno nunca esteja a menos de um metro da mesa de exames Buffard e col. 2.

A imagem que se obtêm, na generalidade dos casos, praticando-se a radiografia convencional, é arredondada, com diâmetro variável entre 5 e 7 mm., nos indivíduos com índice cefálico normal.

A morfologia predominantemente circular da imagem do conduto óptico, conseguida com a técnica de Busi(l), indica, como bem o demonstrava a politomografia com movimento de esfumatura hipociclóide, que o raio normal atravessa sua porção anterior, particularmente, sua abertura orbitária.

Considerações anatômicas. - O canal óptico, situado medialmente ao ápice da órbita, escavado nas pequenas asas do esfenóide e limitado no seu trajeto por paredes ósseas, põe em comunicação as cavidades orbitária e crâniana, e dá passagem ao nervo óptico com as suas bainhas e a artéria oftálmica (Fig. 5).



FIG. 5 - Prolongamento do seio esfenoidal na apófise clinóide anterior segundo Testut e Jacob(7).
A - seio esfenoidal direito, volumoso;
a - orifício do seio esfenoidal;
C - nervo óptico e arteria oftalmica no interior do canal óptico.
b - prolongamento clinóide do "sinus".



O referido conduto não é retilineo, mas apresenta convexidade lateral de grau variável, razão porque, levando-se em consideração também assimetrias cranianas entre os dois lados, que podem ocorrer nos indivíduos normais, costuma apresentar, no exame "standard" comparativo, morfologia diferente ligada a pequenas variações de incidência no raio central, que podem ser corrigidas com o exame tomográfico. Análise da imagem radiográfica. - Na radiografia clássica, em condições normais, o canal óptico apresenta imagem em círculo, que resume, por si só, sua morfologia resultante de uma única incidência. Tal imagem é uniforme, com ligeiras variações de diâmetro e de topografia nos atlas de consulta e, em sendo bastante nítida, costuma mesmo, atualmente, ser considerada imagem radiográfica excelente e capaz de satisfazer as exigências diagnósticas.

Entretanto, um circulo não poderia jamais condensar radiográficamente toda a morfologia de um canal, a não ser que este fosse cilindricamente puro, e não côncavo, como o canal óptico. Sendo assim, a imagem radiográfica convencional do conduto óptico, como se admite, não passa de ser falsa ou parcial.

Em vista dos dados anatômicos, com respeito ao comprimento do conduto óptico e à largura dos seus orifícios serem variáveis, de A. para A., quando se computa a literatura, torna-se conveniente considerar as mensurações médias, na avaliação dos mesmos.

O comprimento do canal óptico, em média é de 5 a 8 mm. segundo Testut e de 2 a 11 mm. segundo Vallis e Onodi, citados por Picciché(6).

Diferenças menos sensíveis se notam na mensuração dos seus diâmetros. No que diz respeito à porção mediana, Picciché encontrou um diâmetro médio de 6 mm.

Excepcionalmente, o canal óptico pode faltar ou mostrar-se incompletamente no seu contorno inferior pela ausência do trato ósseo que o limita inferiormente, separando-o da grande fenda esfenoidal. Em tais casos, tem-se a comunicação entre o forame óptico e a fenda esfenoidal.

Notáveis são as relações topográficas do canal óptico com os seios esfenoidais e as células etmoídeas posteriores, que permitiram a Onodi classificar 38 variedades.

As referidas relações diversificam-se ás vezes de um lado a outro do crânio, de modo que o conduto óptico pode encontrar-se de um lado em contato intimo com o seio esfenoidal e, do outro, com as células do etmóide. Ademais, ele pode mesmo estar inteiramente circunscrito no espaço aéreo esfenoidal, ou seja, em tal caso, em pleno seio paranasal (Fig. 6).



FIG. 6 - Canal óptico num caso de prolongamento do seio esfenoidal na clinóide anterior segundo Herdner(3).



Análise tomográf ica. - Na análise tomográfica, o canal óptico apresenta, com freqüência, configuração dupla ou, às vezes, triplico, assim descritas:

1ª Configuração dupla: a) secção anterior ou média, arredondada ou triangular: b) secção posterior, de forma mais ou menos alongada horizontalmente, lembrando a morfologia da fenda palpebral.

2ª Configuração tríplice: a) secção anterior, circular. Este corte tomográfico identifica o orifício anterior, orbitário. Aliás, esta configuração permitiu à grande maioria dos AA. entrarem em acordo quanto à imagem radiológica convencional do conduto óptico, isto é, forma regularmente circular, em harmonia com a secção redonda do nervo óptico neste ponto (Fig. 7) ; b) secção mediana, canalicular interorifícial. Este corte tomográfico intermediário dá sensivelmente razão a Goalwin citado por Herdner(3) que, utilizando incidência apropriada, representa o conduto óptico com aspecto triangular de bordos curvos (Fig. 8);



FIG. 7 - Canal óptico. Orifício orbitário (forma redonda) Apud Herdner(3).



FIG. 8 - Canal óptico. Segmento médio (forma triangular de bordos curvos).



c) secção posterior, achatada. Este tomograma corresponde ao orifício posterior, quiasmático, e apresenta o conduto óptico com forma navicular, alongado horizontalmente, em harmonia com o ângulo ântero-externo da fenda quiasmática e nervo óptico (Fig. 9).



FIG. 9 - Canal óptico. Orifício intracrâniano (forma alongada transversalmente).



Os AA. padronizaram o exame raiológico dos condutos ópticos do seguinte modo:

1º) Exame convencional, praticado com o paciente em decúbito dorsal, a cabeça fixada pelo craniostáto, para o achado da imagem do conduto óptico que, como vimos, apresenta forma constantemente arredondada nos crânios de adultos com índice cefálico ordinário (Fig. 10).



FIG. 10 - Radiografia convencional do conduto óptico direito.



2º) O encontro da referida imagem indica estarmos observando a secção anterior do conduto óptico; .

3º) Realizam-se em seguida, cortes zonográficos (em geral em numero de quatro) e, verifica-se em qual dêles a imagem circular se apresenta mais nítida (Fig. 11).



FIG. 11 - Exame zonográfico obtido com ângulo de iluminação de 5 gramas.



4º) A partir desse momento, de acordo com a patologia em estudo, pratica-se com extrema facilidade o exame politomográfico, com movimento de varredura hipociclóide Korach e col.(5), pois, sómente desta maneira, pode-se conhecer a textura e a forma real das paredes dos canais ópticos (Fig. 12).




FIG. 12 - Exame politomográfico praticado com ângulo de esfumatura de 48 graus.



Resumo. - Os AA. apresentam um novo tipo de craniostáto para a visualização do canal óptico. Baseados no método radioscópico-radiográfico das três esferulas de chumbo, proposto por Busi, conseguem obter nos crânios com indice cefálico médio, uma imagem radiográfica correta dos canais "fasciculi optici", sob morfologia arredondada.


No filme convencional, os forames orbitário e equiasmático do conduto óptico são projetados no centro do quadrante infero-externo da órbita. Havendo necessidade de ligeira correção, esta pode ser facilmente conseguida à custa de leve rotação ou uma maior ou menor extensão da cabeça do paciente. De acordo com a patologia em estudo, utilizam a politomografia com movimento de esfumatura hipociclóide.

Bibliografia

1. Busi A. - Di una nuova tecnica per la radiografia dei canali ottici. Ann. Rad. e Fis. Medica VIII, 7-18, 1934.
2. Buffard, Tremoulet & Defresne. - A proposde la projection du canal optique en incidence antéro-postérieure. J. de Radiol. & d'Electrologie 36, 698-700, 1955.
3. Herdner R. - Traité Technigue de Tomographie Osseuse. Masson Paris, 1953.
4. Hartmann E. & Gilles E. - Radiodiagnostic en Ophtalmologie. Masson-Paris, 1955.
5. Korach G., Vignaud Y., and Lichtenberg R. - Selective employment of the Polytome in accordance with type of examination. Medicamundi 11, 82-92, 1966.
6. Speciale Picciché. - Il canale ottico dal punto di vista radiologico. Ann. Oftalm. 55-769. 1927.
7. Testut. - Trattato cii Anatomia Umana 1938.
8. Van de Velde, E. - En marge de la projection du canal optique en incidence antéropostérieure. J. B. Radiol. 40, 156-166, 1257.




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