Versão Inglês

Ano:  1998  Vol. 64   Ed. 5  - Setembro - Outubro - (13º)

Seção: Relato de Casos

Páginas: 533 a 536

 

Lesões Císticas em Língua, Cisto Epidermóide - Descrição de Caso e Revisão da Literatura.

Cystic Lesions of the Tongue, Epidermoid Cysti - Report of case literature Revision.

Autor(es): Jorge L. Roig Ocampos R.*,
Ivo Bussoloti Filho*,
Leonardo Silva**,
Inácio Hashimoto*.

Palavras-chave: língua, cisto epidermóide, cisto dermóide

Keywords: tonge, epidermoid cyst, dermoid cyst

Resumo:
O cisto epidermóide em língua é uma afecção rara que atinge com maior freqüência a porção anterior na linha média da língua. Apresentamos o relato de um caso acompanhado em nosso ambulatório. São revistos aspectos de etiopatogenia e é feita revisão da literatura que demostra ser uma afecção incomun, existindo poucos casos relatados na literatura mundial.

Abstract:
The tonge's epidermoide cyst is a infrequent entity that afect most frequently the tonge's midle line of anterior portion. We are presenting one case report in our ambulatory. Its review aspects of the ethiopathogeny and literature review will be present that shows is an uncomon affection, existing a few cases report in the world's literature.

INTRODUÇÃO

Entre as inúmeras afecções que podem acometer a língua, as lesões císticas, e entre elas os cistos epidermóides, são entidades raras. Tivemos a oportunidade de acompanhar um caso no Departamento de Otorrinolaringologia da Santa Casa de São Paulo e sentimos a necessidade de documentá-lo e publicá-lo, desta maneira acrescentando-o aos poucos casos relatados na literatura mundial.

RELATO DO CASO

Paciente C. T. R, cota 30 anos de idade, do sexo feminino, branca, escrituraria. Deu entrada em nosso Serviço com queixa de bola na língua há quatro anos. Começou com incômodo na língua, e posteriormente ela- observou um "caroço" na região anterior da língua, de aumento lento, progressivo, sem ocasionar transtorno na fala ou alimentação. A paciente negou fatores causais tais como trauma e hábito alimentar. Há um ano apresentou uma agudização do quadro cola dor e aumento de volume da região, com dificuldade para se alimentar e falar; foi tratada com cotrimoxazol, cedendo o quadro após drenagem espontânea de secreção purulenta pelo dorso da língua, no 1/3 anterior. Após remissão do quadro agudo, o aumento de volume da língua persistiu e foi o motivo principal da consulta. Não apresentava outras queixas ORL; sem alterações dos demais aparelhos e sistemas. Nada digno de nota em relação aos antecedentes pessoais e familiares foi notado.

A paciente apresentou-se em bom estado geral, afebril. Ao exame físico da boca, durante a inspeção da língua não se observou qualquer alteração, porém na palpação evidenciou-se uma lesão nodular de 1,5 cm de diâmetro de consistência fibroelástica, móvel, localizada em 1/3 médio e anterior, que ao se comprimir era pouco dolorosa, observando-se a existência de pequena fístula no dorso da língua com saída de secreção esbranquiçada. Os demais dados do exame físico ORL não apresentavam alterações.

Exames laboratoriais: hemograma, coagulograma e VDRL sem alterações

Foi feita a hipótese diagnostica de lesão nodular a esclarecer, pensado-se na possibilidade de corpo estranho em língua, e optou-se, como exame auxiliar, pela ultra-sonografia que evidenciou uma formação nodular de paredes espessas bem definidas, com imagem hiperecóica alongada de 1x0.8 cm no seu interior, com moderada sombra acústica posterior, localizada na linha média em sua fase mais inferior (Foto 1).

A paciente foi submetida a exérese da lesão sob anestesia geral, realizando-se uma incisão fusiforme ao redor da fístula no dorso da língua, seguindo-se o seu trajeto por divulsão dos tecidos adjacentes; cota certa dificuldade, por apresentar tecido fibrótico ao redor, foi retirada uma massa arredondada de consistência endurecida de 1 em de diâmetro e de superfície irregular, de forma cística, de paredes espessas e conteúdo sólido e castanho. A seguir, realizou-se sutura por planos. No pós-operatório imediato a paciente apresentou edema moderado é dor que durou dois dias, e necessitou a utilização de analgésicos. Realizou-se cobertura antibioticoterápica com cefalexina 500 mg em 6/6 horas por 10 dias. No pós-operatório de 10 dias apresentava-se sem dor, com leve dificuldade para pronunciar certos fonemas e, à palpação a região da cirurgia encontrava-se endurecida, o que era compatível com o processo cicatricial.

O estudo anatomopatológico mostrou, no exame macroscópico, peça irregular medindo 2,7 x 1,5 x 0,7 cm de superfície granulosa. Aos cortes, é constituída por tecido firme e róseo com lesão cística central medindo 0,8 x 0,6 cm, preenchido por material firme e castanho, de aspecto friável; e no exame microscópico, os cortes mostram parede cística revestida por epitélio plano estratificado com- raras áreas de diferenciação em camada granulosa e córnea, apoiado em tecido conjuntivo denso dissociado por infiltrado linfoplasmocitário. Sem indícios de malignidade, o diagnóstico foi de cisto epidermóide (Foto 2).

COMENTÁRIOS

Na literatura existem poucos relatos a respeito de lesões císticas em língua, mas, segundo Duncan (1942), deveríamos supor que estas lesões são encontradas com mais freqüência, considerando as numerosas glândulas e o seu desenvolvimento embriológico complexo; desta maneira, temos que a formação cística pode ser o resultado da obliteração incompleta da porção lingual do dueto tireoglosso que geralmente se localiza na região posterior, na linha média e abaixo do foramen cego; cistos de retenção como resultado da obstrução das glândulas linguais localizadas na base da língua são relatados e na maioria das vezes em crianças, tanto na linha média quanto na região lateral. Não podemos esquecer das glândulas de Blandin e Nuhn, que estão localizadas próximo à ponta e que também podem ser comprometidas, porém com menos freqüência; em relação ao aspecto embriológico, temos os cistos dermóides, cuja formação seria no desenvolvimento do embrião na terceira e quarta semanas, por inclusão de restos celulares durante a fusão dos primórdios dos arcos branquiais (Figura 1).

Para Irving Meyer (1955), o cisto dermóide é classificado em três tipos segundo o aspecto histológico: 1) tipo epidermóide; 2) tipo dermóide; e 3) tipo teratóide. O tipo epidermóide apresenta a parede composta de epitélio escamoso estratificado, envolta de parede fibrosa, mas sem estruturas anexas; o tipo dermóide verdadeiro, além de epitélio escamoso estratificado, ocasionalmente pode ser cuboidal e na parede fibrosa apresenta as estruturas anexas tipo glandulares e foliculares; o tipo teratóide, no mesmo cisto, pode apresentar de epitélio escamoso estratificado a ciliado pseudoestratificado, como o do epitélio respiratório e as estruturas anexas, mais tecido gorduroso, muscular e vasos. O conteúdo cios cistos corresponde a um material caseoso.



Foto 1. Ultra-sonografia da lesão lingual.



Cisto dermóide em cabeça e pescoço é muito raro; 7% de todo o corpo ocorrem nesta região e, destes, aproximadamente 25% ocorrem no soalho da boca3, usualmente situados na região anterior, na linha média, acima ou abaixo do músculo milo-hióideo4.

O cisto epidermóide, segundo Torres (1970), pode ser de origem congênita ou adquirida, sendo neste caso, pós-traumático. São geralmente encontrados em mãos, dedos e pés. Archer (1958) descobriu-os em ovário e testículo, como localização freqüente. São raros na boca e geralmente não produzem sintomas. Histologicamente, não é possível diferenciar entre congênito ou adquirido, mas, sim, dos verdadeiros cistos dermóides, pela ausência dos anexos glandulares e foliculares.

Na clínica, pode se apresentar como aumento de volume na linha média da língua, pouco dolorosa, ou como uma complicação infecciosa, podendo ocasionar dificuldade na fala, alimentação, respiração e quadro febril secundário3.

O diagnóstico diferencial clínico, além dos vários tipos de cistos já descritos (cisto tireoglosos5, 7, cisto de retenção7, 8, 5, deveria ser feito também com processos infecciosos, tais como: granuloma por corpo estranho9, abscessos, que são geralmente unilaterais10, goma sifilítico, tuberculose, actinomicose, tumores benignos ou malignos, mielobiastonla, linfangioma, hemangioma, sarcoma e metástases3.



Foto 2. Aspectos histopatológicos do cisto epidermóide.



Figura 1. Lesóes cisticas em língua.



Relatou-se um caso pouco freqüente de cisto epidermóide em língua, bem caracterizado pela localização na linha média do corpo da língua e pelo aspecto histológico; por isso, achamos interessante apresentá-lo e desta maneira acrescentá-lo aos poucos casos relatados na literatura mundial. Ainda não é muito claro o verdadeiro mecanismo de formação dos cistos. Duncan (1942) explica de maneira simples os diferentes tipos de cistos e seus mecanismos de formação, já relatados na revisão da literatura, e acredita que essas tesões deveriam ser encontradas mais freqüentemente, considerando-se as inúmeras glândulas e o complexo desenvolvimento embriológico do órgão.

Como no caso relatado, o quadro clínico pode apresentar-se como sendo uma afecção crônica, podendo evidenciar-se, já no nascimento, como também anos depois, ou as vezes como achado no exame físico de rotina; é de crescimento lento, pouco doloroso, algumas vezes com transtornos da fala, alimentação, ou também pode se manifestar como quadro agudo, com dor e edema acentuados, transtornos na alimentação e inclusive da respiração, junto ao quadro febril.

A história clínica e o exame. físico são muito importantes para o diagnóstico; porém, não devemos esquecer a utilidade de certos métodos auxiliares e, entre eles, um de fácil aceso e -não invasivo: a ultrassonografia, que pode nos informar sobre a natureza nodular ou cística do processo, a situação; e, desta maneira, nos possibilitar abordar cirurgicamente com maior segurança.

É uma afecção rara, benigna, mas nem por isso devemos esquecê-la, e deve fazer parte de nosso diagnóstico diferencial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. GEORGE, W.; DUNCAN, M. D. R. A.; DANIEL JR., M. D.Cystic tumor of tongue; report of the unusual case. Arch. Surg. 44:164-9,1942.
2. MEYER, I. - Comments. In: Link, J. F., and McKean, T. W., Lakes, G. Dermoid cysts: report of case. J. Oral Surg., 23: 454, 1965.
3. HARRY AKERSON, D. D. S.; AND MICHAEL, L.; MILFORD, B. S.; D. D. S. PORTSMOUTH, - Va. Epidermoide cyst of the tongue; report of case. J. Oral Surgery, 32: 117-120,1974.
4. LINK, J. F.; AND MCKEAN, T. W.; LAKES, G. - Dermoid cysts: report of case. J. Oral Surg., 23: 451-5,1965.
5. SÁNCHEZ TORRES, J.; AND HIGA, T. T. - Epidermoidal cysts in the oral cavity. Report of three cases. Oral Surg., 30: 5, 592-600, 1970.
6. ARCHER, HARRY W. - In: Sánchez Torres, J. and Higa, T. T- - Epidermoidal cysts in the oral cavity. Report of three cases. Oral Surg., 30: 5, 593, 1970.
7. SAMUEL, J.; RAZ, S.; AND SCHINDEL, - A retention cyst in the body of the tongue: report of case. J. Oral Surg., 28: 9189, 1970.
8. FINK, H. A.- Retention cyst of the tongue (Glossocele). Oral Surg., 16 (11): 1290-3, 1963.
9. PEREIRA, C. S. B.; BUSSOLOTI, I.; RIBEIRO, F. A. Q.; DUPRAT, A. C. D. & ROIG OCAMPOS, J. L. - Ultra-sonografia no diagnóstico de corpos estranhos em língua. Apresentado como Tema Livre no 3° Encontro Brasileiro de Trabalhos Científicos em Otorrinolaringologia. 15 a 18 de novembro de 1997. Rio de Janeiro.
10. S. S. HEHAR; M. A., F. R. C. S.; I. J. M. JOHNSON, B. S. C., F. R. C. S., N. S. JONES, F. R. C. S. - Glossal abscess presenting as unilateral tongue swelling. J. Laryngol. Otol., 110: 389-90, 1996.




* Pós-Graduando em Nível de Mestrado do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
** Professor Adjunto do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Trabalho realizado no Departamento de Otorrinolaringologia da Santa Casa de São Paulo. Endereço para correspondência: Departamento de otorrinolaringologia - Rua Cesário Mota Júnior, 112 - Vila Buarque - 01277-900 São Paulo/ SP.
Artigo recebido em 9 de março de 1998. Artigo aceito em 15 de junho de 1998.

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