Versão Inglês

Ano:  1998  Vol. 64   Ed. 5  - Setembro - Outubro - ()

Seção: Artigos Originais

Páginas: 460 a 464

 

Efeito da ingestão de Álcool Sobre os Testes de Controle Vísuo- Ocular.

Effects of Alcohol ingestion on Vísual Ocular Tests.

Autor(es): Oscar Maudonnet *
Eloása Maudoet**.

Palavras-chave: álcool, movimentação ocular

Keywords: alcohol, eye movements

Resumo:
Os testes de controle vísuo-ocular (rastreio pendular, movimento sacádico e nistagmo optocinético) são realizados em indivíduos normais, antes e após a ingestão de 50 ml de whisky. Os resultados foram analisados estatisticamente.

Abstract:
The visual-ocular tests (smooth pursuit, saccadic eye movement, optokinetic nystagmus) are made in normal people before and after the ingestion of 50 ml of whisky, when statistic analyses are doing.

INTRODUÇÃO

A visão atua na manutenção do equilíbrio através de três sistemas: o rastreio pendular, o movimento sacádico e o nistagmo optocinético (Baloh & Honrubia - 1990). Os sacádicos são movimentos oculares rápidos e pequenos, que têm por finalidade posicionar a imagem em movimento sobre a fóvea, e, com isto, melhorar a acuidade visual. Podem, também, aparecer sobrepostos no fim do rastreio. Existem subdivisões do movimento sacádico, mas, talvez, a mais importante seja aquela de correção, que aparece dentro dos movimentos de perseguição, em resposta a estímulo móvel. Dois parâmetros são considerados de fundamental importância: o ganho e a latência. O ganho é a comparação entre a velocidade dos olhos e a do alvo, expresso em porcentagem. A latência é a diferença entre o momento de início do movimento do alvo, em relação ao dos olhos.

O rastreio é o mecanismo de controle oculomotor, que move os olhos, com o objetivo de estabilizar a imagem na retina de um alvo que se desloca no espaço, sendo, então, utilizado pelo homem para perseguir visualmente objetos que se movimentam lentamente à sua frente. Três parâmetros são considerados de fundamental importância: o ganho, a distorção e a velocidade. O ganho é a comparação entre a velocidade dos olhos e a do alvo, sendo expresso em porcentagem. A distorção quantifica a precisão do movimento dos olhos em relação ao alvo, sendo também expressa em porcentagem. A velocidade indica a velocidade das sacadas de correção em cada sentido, expressa em graus por segundo.

O nistagmo optocinético acompanha o movimento de um objeto em movimento, mas sua verdadeira função é auxiliar o sistema vestibular durante os movimentos de rotação, produzindo movimentos oculares apropriados. Além da clássica preponderância direcional, hoje de menor valor clínico, o sistema permite a avaliação de outros quatro parâmetros: velocidade, amplitude, freqüência e ganho. O primeiro, a velocidade do movimento dos olhos, é expresso em graus por segundo. A amplitude, como o nome define, é a amplitude dos movimentos dos globos oculares. O terceiro é a freqüência média dos movimentos oculares por segundo. O ganho indica a relação entre a velocidade do alvo e a dos olhos.

O efeito do álcool, no sistema vestibular, é bastante conhecido há muitos anos e se faz sentir em vários níveis: cortical, reticular, cerebelar, radicular e endolabiríntico. São descritas várias alterações: presença de nistagmo de posição, discreta diminuição das respostas nistágmicas às provas calóricas e rotatórias, mas com grande alteração do padrão destas respostas, alterações na fixação na prova rotatória e alterações na posturografia, entre outras (Collard & colaboradores - 1973, Harder & Reker - 1995, Tianwu & colaboradores - 1995, entre outros). Entretanto, na oculomotricidade, somente Barnes, em 1984, descreveu a ação do álcool no rastreio pendular.

A própria definição do rastreio pendular, movimento sacádico e nistagmo optocinético, aliada ao conhecimento da fisiologia da oculomotricidade (Fonseca - 1997), demonstra o papel de inúmeras estruturas do sistema nervoso central, e sua importância na condução de veículos motorizados. Seria o caso de o motorista parado, frente a uma grande e movimentada avenida, acompanhando com os olhos o trânsito, enquanto aguarda o momento seguro de atravessa-la.

Nosso intuito foi avaliar se dosagem mínima de álcool poderia modificar estas respostas e, conseqüentemente, afetar a segurança na condução de veículos.

CASUÍSTICA E METODOLOGIA

Foram examinados 20 indivíduos adultos, com idade variando entre 20 e 30 anos, sem queixas cócleo-vestibulares e oftálmicas, e que não apresentavam o hábito do consumo de álcool (etilistas sociais). Os exames foram realizados com auxílio de um sistema de eletrooculografia computadorizada (Bodelet - 1990; Maudonnet - 1995), de procedência belga, utilizando, para o movimento sacádico, período de 1,50 segundos e amplitude de 20° (Figura 1); 2,40 segundos para o período, e 30,6° para amplitude, com relação ao rastreio pendular (Figura 2) e período de 10 segundos e velocidade de 30°/segundo para o nistagm0 optocinético (Figura 3).

Todos os pacientes foram submetidos a um teste inicial (padrão), e a outro, 30 minutos após terem ingerido, em jejum, 50 mililitros de whisky (dose tradicional), com a finalidade de se obter concentração teórica no sangue de aproximadamente 0,45 g/litro, inferior, portanto, aos limites mínimos estabelecidos em países mais exigentes em relação à condução de veículos motorizados e ao novo Código de Trânsito Brasileiro, que é de 0,6 g/litro). Como a concentração no sangue pode variar muito, de uma pessoa para outra, apesar de ingerirem a mesma dose de álcool, procuraram se avaliar os resultados levando em consideração somente a quantidade de álcool que foi apresentada. Os resultados de cada um dos parâmetros das três provas foram então analisados estatisticamente.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Movimento sacádico ingestão do álcool, com p << 0,001, mostrando que estas alterações foram significativas. Por outro lado, a análise numérica do ganho revelou aumento das médias de 106,75 a 121,45, com p << 0,001, também significativas.



Figura 1.



Figura 2.



Figura 3.



A latência, o parâmetro mais importante, também revelou alterações, havendo 35 respostas aumentadas, quatro diminuídas e uma mantendo-se estável, com p << 0,001, mostrando a significatividade. A média das respostas apresentou aumento, passando de 172,7 para 190,92, com p"0,001.

Rasteio pendular

A análise dos resultados do ganho mostrou que, em 22 respostas, houve aumento, enquanto que, em 18, houve redução, com 0,8 < P < 0,7; portanto, não significativa. A avaliação numérica do ganho, em cada prova, mostrou também pequena redução, com médias de 83,71 a 82,74%,com 0,10 < P < 0,05, também não significativa, confirmando as pesquisas de Barnes - 1984.

A distorção revelou que, em metade dos indivíduos, houve aumento, enquanto que, na outra metade, houve redução, não havendo, pois, qualquer alteração. Já o estudo numérico dos resultados revelou discreta redução das médias, de 7,07 para 6,50, com 0,10 < P < 0,05; portanto, não significativas também.

Na avaliação da velocidade, pode se observar que, em 32 respostas, houve redução; e, em 8, aumento, com P << 0,001; portanto, altamente significativo. O estudo dos valores revelou que as médias se reduziram de 84,02 para 79,12, com P < 0,01; logo, significativo, confirmando a pesquisa de Barnes - 1984.

Nistagmo optocínético

Na avaliação da velocidade, observou-se que, em 31 respostas, houve redução da velocidade, contra nove, em que houve aumento, com p << 0,001. Na analise numérica, a média da velocidade, nos dois testes, foi de 28,42 e 26,52, com p < 0,01; portanto, com redução significativa nas duas avaliações.

No caso das amplitudes, em 24 resultados, notou-se aumento das respostas, enquanto que em 16 houve diminuição, com p < 0,20. Já na analise dos valores, as médias foram de 9,018 e 9,745, com p = 0,10 < p < 0,05; portanto, não significativas, em ambas as avaliações.

A freqüência revelou que, em 31 respostas, houve redução, e, em nove, aumento, com p << 0,001. No estudo numérico, as médias reduziram-se de 2,39 para 1,75 com p<0,02, mostrando significatividade em ambas as avaliações. Finalmente, o ganho, da mesma maneira que o anterior, apresentou 31 respostas reduzidas, contra nove que aumentaram, com p << 0,001. Na análise dos valores, as médias diminuíram de 94,16 para 84,71 com p << 0,001; logo, altamente significativas, em ambas as avaliações.

CONCLUSÕES

Mesmo em dosagens extremamente baixas de álcool, 0,45 g/litro de sangue, pode se observar as seguintes alterações: 1. Movimento sacádico - o ganho e a latência diminuíram; 2. rastreio pendular - a velocidade reduziu-se, mas o ganho e a distorção não se alteraram; 3. nistagmo optocinético - a velocidade, a freqüência e o ganho reduziram-se, enquanto que a amplitude não se alterou.

Pode se, então, depreender que, mesmo dosagem pequena de álcool pode produzir alterações que sugerem cautela na condução de veículos, após a sua ingestão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BALOH, R. & HONRUBIA, V. - Clinical Neurophysilogy of the vestibular system, li, Philadelphia, FA Davis Company, 1990.
2. COLLARD, M.; CONRAUX, C.; & WARTER, J. - Les svndromes vestibulaires centraux. Monaco, Masson Éditeurs, 1973.
3. HARDER, T. & REKER, U. - Influence of low dose alcohol on fixation supprenssion. Acta. Otolaryngol. (Stockh) 52Q - 33-36, 1995.
4. TIANWU, H.; WATANEBE, M.; ASAL, K.; SHIMIZU, S.; - TAKADA, S. & MIZUKOSHI, K. - Effects of alcohol injestion on vestibular function in postural control. Acta. Otolaryngol. (Stockh), 519: 127-131, 1995.
5. BARNES, G. - The effects of ethyl alcohol on visual pursuit and suppression of the vestibulo-ocular-reflex. Acta Otolaryngol. (Stockh), 406: 161-166, 1984
6 - FONSECA, M. - Movimentos oculares de rastreio lento, sacádicos e nistagmo optocinético em adultos normais. Campinas, 1997, Tese de Mestrado, Unicamp.
7 - BODELET, B. - L'examen neuro-vestibulaire informatisé. Jounal Français de ORL, 39, 467-478, 1990.
8 - MAUDONNET, O. - A vestibulometria computadorizada. Rev. Bras. de Otorrinolaringologia, 61, 49-57, 1995.




* Professor de Otoneurologia na Unicamp e Otoneurologista do Instituto Penido Burnier.
** Residente de Otorrinolaringologia do Instituto Penido Burnier.

Endereço para correspondência: Avenida Andrade Neves, 611 - 13013-161 Campinas /SP - Telefone: (019) 236-1027 - Fax: (019) 232-4553. Artigo recebido em 12 de fevereiro de 1998. Artigo aceito em 8 de maio de 1998.

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