Versão Inglês

Ano:  1991  Vol. 57   Ed. 4  - Outubro - Dezembro - ()

Seção: Artigos Originais

Páginas: 181 a 187

 

Disacusias em crianças escolares de Ribeirão Preto

Hearing loss among children in elementary schools in Ribeirão Preto.

Autor(es): Noemi Grigoletto De Biase*
Marcos Grellet**

Palavras-chave: surdez; perda auditiva parcial; criança

Keywords: deafness; hearing loss partial, child

Resumo:
No presente trabalho foram examinadas 915 crianças escolares de lá e 2& séries, da zona urbana de Ribeirão Preto, São Paulo, através de otoscopia, audiometria e impedanciometria. Foram observadas patologias de ouvido médio, nível de audição, sendo que as crianças foram agrupadas de acordo corno estrato sócio-econômico. Do total de 915 crianças examinadas 3,9°ó apresentavam algum grau de perda auditiva, acima de 30 dB, porcentagem que variou conforme o nível sócio-econômico. O autor discute seus dados com os obtidos pelos demais autores e verifica também a relação entre as patologias estudadas e os níveis de audição constatados. Observou-se que a otite média crônica simples foi a doença com maior porcentagem de perdas auditivas. Extrapolando seus dados para a população escolar de todo o 1° grau de Ribeirão Preto verificou-se ser considerável o número de crianças com esses acometimentos.

Abstract:
In this present work, 915 children were examined who were enrolled in the first and second grades in elementary schools in Ribeirão Preto, São Paulo, through otoscopy, audiometry and impedanciometry. It was observed the level of the hearing and the children were put together acoording to their sucio-economie índex. From the 915 children who were examined, 3,9% presented a loss of some part of hearing, above the 30 dB, and a relationship between prevalence of hearing loss and sucio-economic characteristics is seen. The author discusses his data with those whith those which were collected by the other authors and verifies also a relation ship between the studied pathology and the levels of hearing which had been verified. It was observed that the chronic otitis media had been lhe disease with the highest percentage of hearing loss.

INTRODUÇÃO

As perdas auditivas quando intensas são mais fáceis de serem percebidas, em crianças de três anos ou mais, pois há comprometimento da linguagem e do relacionamento social da criança. No entanto, quando as perdas são leves ou moderadas muitas vezes os pais ou mesmo os professores não notam ou não suspeitam do problema.

Parece datar de 1938 o primeiro levantamento da audição em escolares, feito através de audiômetro por Newhart (NEWHART, 1938).

FABRITIUS (1964) verificou em crianças de North Trondelag (Noruega), com idade de 9 anos, através de audiometria e exame otorrinolaringológico, a presença de disacusia em 3,4% das crianças. A disfunção tubárca foi a principal causa de disacusia, seguida de seqüela de otite média crônica.

MIKAELIAN & BARSOUMVAN examinaram 6,02 % da população escolar de Beirute de dezembro de 1966 a maio de 1967 e detectaram incidência de 5,2 % de crianças com disacusia em qualquer freqüência em ambos os ouvidos ou em duas freqüências em um ouvido individualmente.

SELIGMAN em estudo realizado em aluno da 18 série primária de estabelecimentos de ensino localizados na zona urbana de Porto Alegre obteve percentual de 9,1 % de crianças com disacusia, embora não coloque o limiar acima do qual considerou como disacusia. Ainda 30% das crianças selecionadas para os testes audiométricos através de seleção prévia em levantamento "grosseiro" nas escolas não compareceram ao exame. (SELIGMAN, 1975).

No Brasil, HESHIKI et col, 1985, realizaram testes audiométricos em 1226 escolares da 18 série do 1°- grau na cidade de Botucatu, obtendo 5,54% de crianças com distúrbio de audição 20 decibéis acima de "referência zero" e 2,77% com 30 decibéis, também acima da mesma referência.

Parece ser de HAYMAN & KESTER (1957) o primeiro levantamento a respeito de disacusias que considera variáveis como raça e condição sócio-econômica da população em estudo, no caso, nativo do Alaska. Encontrou alguma perda de audição em 27,8% dos examinados, tendo considerado como patológicos o caso com limiares acima de 20 decibéis em pelo menos duas freqüências. No entanto, a porcentagem variava segundo a raça, tendo na população de esquimós 33,7% de caso com disacusia, entre os índio 23,3% e na população branca 14,3%. Ainda, embora considere muito difícil obter informações a respeito de moradia, dieta e salário encontrou correlação direta entre achados de estrato sócio-econômico inadequado e presença de doença. A porcentagem de perda auditiva era de 20,3% para a população de nível sócio-econômico adequado e de 34,8 % para os de nível inadequado.

BRODY col (1965) observaram que a otite média crônica é a principal causa de disacusia em esquimós do Alaska.

Outros autores como CAMBON et col (1965), e JULIEN et col (1987) estudaram a incidência de disacusias na população indígena no Canadá. No mesmo país ROBINSON et col (1967) procederam a este estudo em crianças escolares da cidade de Vancouver.

MATERIAL E MÉTODO

Do nosso estudo participaram 915 crianças escolares da zona urbana de Ribeirão Preto, de primeiras e segundas séries, com idade entre 7 e 10 anos.

As crianças foram classificadas em cinco níveis de estratificação social, sendo "A" o nível mais alto e "E" o mais baixo.

Para a estratificação consideramos: ocupação do pai, número de cômodos por habitante, números de quarto por habitante, número de bens e presença ou não de empregados domésticos.

Convencionamos dar de 1 a 5 pontos para cada variável considerada para a estratificação "a posteriori", com exceção do item "empregada doméstica". Assim, em relação à variável "ocupação do pai" demo 1 ponto às ocupações consideradas não qualificadas, 2 ponto às de nível inferior, 3 pontos às de nível médio, 4 pontos às nível técnico e 5 pontos às de nível superior. Da mesma forma foi feito para o número de bens, sendo dado 1 ponto para famílias com até 2 bens, 2 ponto para 3 bens, 3 pontos para quem possuía 4 bens, 4 pontos para as famílias que tinham 5 a 7 bens e 5 ponto para a referência de 8 ou mais bens. Igualmente fizemos para as variáveis número de cômodo por habitante e número de quartos por habitante, o de es trato mais alto recebendo 5 pontos e conforme diminuíamos índices de 4 até 1 ponto.


TABELA I - Disacusia no ouvido esquerdo segundo o nível sócio-econômico.



A informação sobre a presença ou não de empregados doméstïcas só nos permite estratificar em dois níveis. Considerando que apenas 14,97% das crianças relataram ter empregada este seria um bom indicador para os estratos mais altos. Dessa forma acrescentamos um ponto à criança que tivesse empregada.

Para a estratificação final utilizamos a média obtida pela divisão da soma do número de pontos pelo número de variáveis (exceto empregados domésticos cujo ponto contribui indicando que a criança está mais próxima do nível superior).

Dessa forma obtivemos as médias, a freqüência e porcentagem de cada uma delas, estabelecendo arbitrariamente a estratificação definitiva.

As crianças foram examinadas na própria escola utilizandose otoscópio, audiômetro e impedanciômetro.

Como os testes foram feitos em campo aberto, consideramos audição normal curvas de respostas até 30 dB. Curvas de 31 dB a 45 dB foram classificadas como disacusias leves, de 46 dB a 70 dB como moderadas, de 71 dB a 90 dB como graves e acima de 90 dB como disacusias profundas.


TABELA II - Distribuição das crianças de acordo com a audição no ouvido direito, segundo o nível sócio-econômico.



TABELA III - Distribuição das crianças com disacusia uni ou bilateral de acordo com o nível sócio-econômico.



RESULTADOS

Verificamos os níveis de audição das crianças nos diferentes estratos sócio-econômicos e as respectivas proporções, para os ouvidos direito e esquerdo, como mostram as tabelas I a III.


TABELA IV - Porcentagem de crianças com patologia de ouvido esquerdo, apresentando disacusia, segundo o nível sócio-econômico.



Verificamos também a relação entre criança com disacusia em um ou ambos os ouvidos e nível sócio- econômico, que nos mostra as tabelas III a VI.

A relação entre disacusia e patologia pode ser observada nos ouvidos direito e esquerdo como nos mostram as tabela VII e VIII.

Do total de 1.830 ouvidos examinados, também verificamos a freqüência de patologias e disacusias encontradas, de acordo como nível sócio-econômico. O resultado se observa nas tabelas IX e X.


TABELA V - Distribuição das crianças de acordo com o nível de audição no ouvido esquerdo, segundo o estrato sócio- econômico.



TABELA VI - Porcentagem de crianças com patologia de ouvido direito, apresentando disacusia, segundo o nível sócio-econômico.



DISCUSSÃO

O total de crianças com disacusia uni ou bilateral foi de 36, o que significa que das 915 crianças examinadas 3,9% apresentavam algum grau de perda auditiva, acima de 30 dB. Esse número variou conforme o nível sócio-econômico, e através do "teste de diferença de significância de proporções" verificamos que a diferença é estatisticamente significativa. Dessa forma, as crianças de níveis sócio-econômicos mais altos apresentam menos disacusia do que as de níveis mais baixos.


TABELA VII - Porcentagem de disacusia segundo a patologia, no ouvido esquerdo.



A comparação da porcentagem de crianças com disacusia com os dados de trabalho publicados em literatura fica difícil de ser feita, pois os autores consideram diferentes limiares para a classificação de perda ou não de audição, sendo que muitos deles como Fabritius, Mikaelian & Barsoumvan, Seligman, Brody e col não relatam qual o critério utilizado por eles para considerarem as disacusias em seus diferentes graus.


TABELA VIII - Porcentagem de casos com disacusia no ouvido direito, segundo a patologia verificada.



EAGLES col utilizando o mesmo limiar por nós escolhido, encontrou 15,1% de crianças com perda auditiva, porcentagem muito mais alta do que a obtida por nós. Os demais autores, aqueles que não descreveram o critério, e os que apresentavam limiares variando de 15 dB a 25 dB ou 15 dB a 30 dB, encontraram porcentagem mais próxima da que verificamos em nosso estudo: KODMAN & SPERAZZO obtiveram 5,26% de meninos e 4,74 % de meninas com perda de audição acima de 25 dB em duas ou mais freqüências testadas, em um ou ambos os ouvidos. FABRITIUS relata 3,4% de crianças com disacusia; MIKAELIAN & BARSOUMVAN verificaram presença de disacusia cm 5,2% de crianças em qualquer freqüência em ambos os ouvidos ou em duas freqüências em um ouvido. HESHIKI, no Brasil, realizando testes audiométricos em escolares da 1ª série em Botucatu detectou incidência de 5,54% de crianças com perda de audição 20 dB acima da "referência zero" e 2,77% com 30 dB acima. SELIGMAN em Porto Alegre realizou estudo em alunos da 19 serie do 1 ° grau obtendo 9,1 % de disacusias, embora 30% dos escolares selecionados para o exame não tenham comparecido para o teste audiométrico.


TABELA IX - Distribuição dos ouvidos examinados segundo o nível de audição e estrato sócio-econômico.



TABELA X - Porcentagem de disacusias, de acordo com a patologia considerando os dois ouvidos.



HAYMAN, em levantamento feito no Alaska, obteve 27,8 % de casos de penda auditiva acima de 20 dB em pelo menos duas freqüências. A incidência variava de acordo com a raça, sendo de 33,7% na população esquimó, e de 14,3 % nos brancos, e variava também de acordo com o nível sócio-econômico: 20,3% para o nível-econômico adequado e 34,8 % para os de nível inadequado.

BRODY et col, observaram perda moderada de audição em 36% de caucasianos, 25% de alcutas e 26% de esquimós, que relacionaram com otite média crônica.

CAMBON et alii realizando estudo na população da Reserva do "Mount Currie" verificaram que 31,8% das pessoas examinadas apresentavam perda de 15 dB ou mais em qualquer ouvido envolvendo as freqüências da fala. ROBINSON et col (1967) em levantamento feito ?m Vancouver observaram uma taxa de prevalência de 2 % a 8 %, que variava com tendência para os maiores valores se concentrarem nas escolas de população de mais baixa renda. NELSON & BERRY examinando crianças escolares da "Navajo Reservation" verificaram que 3,8% das crianças apresentavam perda de audição acima de 20 dB. JULIEN et col em 1987 observaram diferença de incidência entre crianças aparentemente vivendo nas mesmas condições de habitação, ambiente físico e nível sócioeconômico: enquanto 23% das crianças "inuit" apresentavam disacusia, apenas 4% das crianças "cree" tinham perda de audição, não respondendo a 25 dB em 1, 2 e 4 KHz e 30 dB em 500 Hz.

Em nosso estudo obtivemos também porcentagens diferentes conforme o estrato sócio-econômico considerado, sendo de 1,1% das crianças de nível "A" com disacusia, 0,9% de nível "B", 3,9 % de casos de perda de audição no nível "C" e de 4,1 % e 5,9 % para os estratos "D" e "E", respectivamente.

Pudemos verificar em nosso estudo a porcentagem de disacusia que cada patologia provocou. Dos ouvidos com obstrução tubárea verificamos perda de audição em 28% dos casos. A porcentagem de disacusia na otite média secretora foi de 44,9% e na otite média crônica simples foi observada queda auditiva em 66,7% dos casos. Nota-se que a otite média crônica simples é dentre estas patologias a que provoca maior número de perdas auditivas pois, embora sendo poucos casos desta patologia, a porcentagem de disacusia é elevada. Por outro lado tivemos grande número de crianças com obstrução tubárea apresentando baixa porcentagem de disacusia. Já na otite média secretora não foram observados resultados extremos como nas demais patologias, embora com alta porcentagem de disacusia.

A otite média crônica simples e a otite média secretora são as patologias que levam à disacusia com maior freqüência. Na população escolar de 1° grau de Ribeirão Preto teríamos ao redor de 1.166 crianças com disacusia em um ou ambos os ouvidos, distribuídas principalmente nos estratos sociais mais baixos.

CONCLUSÕES

Encontramos 3,9% das crianças com algum grau de perda auditiva, uni ou bilateralmente.

As disacusias apresentaram variação nos diferentes estratos sociais, sendo que a predominância foi maior nos estratos sócio-econômicos mais baixos.

Dentre as diferentes patologias estudadas, a disacusia predominou na otite média crônica simples.

BIBLIOGRAFIA

NEWHART, H. A new pure tone audiometer for school use. Arch. Otolaryngol., 28:777-79, 1938.
FABRITIUS, H.F. Nine years examination of the hearing in school children in North
Trondelag. Acta oto-laring., 188 (Suppl): 350-59, 1964.
MIKAELIAN, D. O. & BARSOUMIAN, V. M. Hearing loss in elementary school children in Lebanon. Laryngoscope, 81:447-51, 1971.
SELIGMAN, J. Sistemática de pesquisas audiológicas em escolares de Porto Alegre. Atualização em Otologia e Foniatria, III(l):15-8, 1975.
HESHIKI, Z. e col. Níveis de audição em escolares de 1º grau. Rev. Bras. de Otorrinolaringologia, 51(1):214, 1985.
HAYMAN, C. R & KESTER, F. Eye, Ear, Nose and Throat Infection in Natives of Alaska. Northwest Medicine, (april): 423-30, 1957.
BRODY, J. A. e col. Draining and Deafnessa Among Alaskan Eskimos. Archives of Otolaryngologie, 81:29-33, 1965.
CAMBON, K. e col. Middle-Ear Disease in Indians of the Mount Currie Reservation, British Columbia. Canad. Med. Ass. J., 93: 1301-5,1965.
JULIEN, G. e col. Chtonic Otitis Media and Hearing Deficit among Native Children of Kuryjuaraapik (Northern Quebec): A Pilot Project. Canadian Joumal of Public Health. 78:57-61, 1987.
ROBINSON, G.C. e col. A Survey of Hearing Loss in Vancouver School Children: Part I. Methodology and Prevalence. Canad. Med. Ass. J., 97:1199 - 1207, 1967.
EAGLES, E. L et alii. Evaluatiot of a Recommended Program of Identification Audiometry with School Age Children. Journal of Speech and Hearing Disorders, 29:3-13, 1964.
KODMAN JR, F. & SPERRAZZO, G. An analysis of one thousand cases of hearing loss in children. Ann. OtoL, Rhinol. and laryngol., 68:227-31, 1959.
NELSON, S.M. & BERRY, R.I. For disease and hearing loss among Navajo Children - A mass survey. Laryngoscope, 94:316-23, 1984.




* Mestrado no Departamento de Oftalmologia - Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP. Médica otorrinolaringologista da Prefeitura de Ribeirão Preto (Programa de Saúde ao Escolar).

** Professor associado do Departamento de Oftalmologia - Otorrinolaringologia - Disciplina de Otorrinolaringologia - Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP.

Endereço. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Fazenda Monte Alegre, s/nº.

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