Versão Inglês

Ano:  1978  Vol. 44   Ed. 1  - Janeiro - Abril - (10º)

Seção: Artigos Originais

Páginas: 73 a 76

 

CEFALÉIAS EM OTORRINOLARINGOLOGIA (*)

Autor(es): ** Túlio M. Schein Wenzel, Aram Sakzenian
*** Sergio K. Moussalle

Resumo:
Dentro das queixas humanas a "dor de cabeça" é a mais comum tendo afetado, pelo menos uma vez, 75% da população. Na prática é imprescindível conhecer os detalhes de cada tipo de dor para se encontrar a causa, senão os tratamentos instituídos são puramente sintomáticos.

CONSIDERAÇÕES ANÁTOMO-FISIOLÓGICAS:

A sensibilidade a dor dos diferentes tecidos cranianos é variável, mas todos autores concordam que os ramos arteriais extra cranianos são mais sensíveis à distensão, enquanto a sensibilidade é menor nas veias. A dura-mater cortical é insensível com exceção das zonas correspondentes às artérias e seios venosos. Já a dura-mater basal, especialmente ao nível do poilgono de Wìllis, é muito sensível. A pia-mater e o cérebro são, geralmente, Insensíveis. As artérias são multo sensíveis à pressão, tração ou traumatismos enquanto as veias o são pela tração. Do lado externo, o pericraneo, as aponeuroses, os tendões e os músculos da cabeça são muito sensíveis a qualquer tipo de estímulo, como também o são os seios paranasais e suas paredes.

Em resumo pode-se admitir que os ossos do crânio, a diploe, o cérebro e a maior parte da dura-mater são Insensíveis, e que a maior parte da sensibilidade se registra nas estruturas vasculares intra e extra cranianas.
Mecanismos e bioquímica da dor:

CLÍNICA:

Frente a qualquer tipo de dor de cabeça é aconselhável começar a investigação com uma prolixa anamnese, insistindo-se nos seguintes pontos:

1 - qualidade: aguda, surda, lancinante, pulsante, ardente

2 - intensidade

3 - extensão: circunscrito, localizado a um ponto ou região, difuso ou irradiado.
Por exemplo na enxaqueca a dor é periorbitária e se extende rapidamente ao hemicranio, mastóides e ossicício: nos tumores e abcessos encefálicos pode ser unilateral, enquanto que na uremia, hipertensão arterial e nefrite é bilateral. Nas afecções, rinosinusais é, quase sempre, localizada. Nas afecções do ouvido a dor se estende a mastóide e o temporal. Nas afecções esfenoidais e hipofisárias pode a dor ocorrer no vértex.

4 - aparecimento - duração - cessação

É importante estabelecer se a dor aparece em relação com algum dos fatores seguintes: alterações bruscas, esforços físicos ou mentais, fadiga, sono, exercícios, emoções, enfermidades, se é matinal ou vesperal, ou indiferente, etc.

Por exemplo, as enxaquecas costumam aparecer ao despertar e multas cefaléias matinais se devem a nefrite, hipertensão arterial, má ventilação do dormitório. As cefaléias vespertinas podem ser devidas ao cansaço mental, esforços oculares, tóxicas, endógenos ou exógenos, etc.

A dor de cabeça pode ser continua, intermitente, progressiva, rítmica ou paroxística.
Também é interessante anotar como cessa a dor, )á que na cefaléia de Horton ela melhora bruscamente, ou de modo gradual.

5 - sintomas associados - algumas cefaléias, como a enxaqueca, se acompanha de náuseas, vômitos e outros distúrbios G.I., sintomas oculares premonitólrlos (ardor, fotobia, moscas volantes, escotomas hemianopsias e, às vezes, oftalmoplegia) e, às vezes, hiperacusia e hiperrosmia. Nas cefaléias alérgicas, rinopatia, asma e urticária. Após a anamnese deve-se partir para uma pesquisa minuciosa e ordenada. Ao exame clinico geral se seguirá a exploração oftalmológica, otorrinolaringológica, provas alérgicas, as radiografias de crânio, exame odontológico, metabolismo basal e, eventualmente, E.E.G.. Não é raro apelarmos para a prova terapêutica para alcançar o diagnóstico correto.

CLASSIFICAÇÃO:

Na prática, distingue-se os seguintes tipos de algias craniais:

1 - cefaléias: dor interna, difusa, surda, de origem endo ou exocraniana.

2 - cefalgia: dor superficial por alteração do nervo sensitivo raramente vascular.

3 - enxaqueca: dor unilateral, de aparecimentos em crises, periorbitária que se irradia para o temporal e o occipício, quase sempre acompanhado de distúrbios visuais, psíquicos, náuseas e vômitos.

DIAGNÓSTICO

O setor otorrinolaringológico do organismo está constituído por uma série de estruturas cuja alteração pode originar algias cefálicas de diversas características.

Pela experiência de vários autores, nas cefaléias prolongadas e recurrentes a incidência dos fatores otorrinolaringológicos é muito maior que muitos parecem admitir.

1. alteraçôes rinosinusais

Há cefaléias de origem nasal e paranasal, dificilmente distinguíveis entre si, por solidariedade anátomo fisiológica e pela complexa inervação das fossas nasais e cavidades paranasais, constituindo-se numa região privilegiada. Do organismo sensível há uma ampla gama de estímulos, muitos ainda desconhecidos.

As principais causas de cefaléias de origem rinosinusal são:

a) rinosinusites agudas: constituem-se nas causas mais comuns, especialmente as fronto-etmoidais e maxilares.

b) rinosinusopatias crónicas: apenas ocasionalmente podem causar cefaléias. Em geral passam desapercebidas, ou com escassa sintomatologia, sem cefaléia.

c) bloqueio do ostium

d) Embora alguns autores refiram que dão cefaléia, pela nossa experiência a agenesia dos seios frontais é um achado ocasional durante o exame radiológico em pacientes sem queixa de cefaléia.

e) sífilis nasal. f) Tbc

g) tumores nasais e paranasais por compressão nervosa: neurites ou propagação endocraneana.

h) traumatismos nasais por congestão ou neurite. Nas fraturas da pirâmide, os tamponamentos nasais é o principal fator para o aparecimento de cefaléia. Além dessas causas há outras intimamente relacionadas com a inervação nasal; entre as quais se destacam:

1) síndrome do ganglio esfeno-palatino (Sluder), (oculonasal posterior) onde a Irritação nervosa obedece a fatores Intranasais (desvio septo); cristais do septo, hipertrofia de cornetos.) Aqui, as cefaléias são intensas, orbitárias ou retro-oculares, otalgia homolateral e também mastoldoalgia homolateral e, às vezes, occipital; acompanhadas de sintomas oculares (lacrimejamento e fotofobia, midréase e edema palpebral); nasais (obstrução nasal unilateral, estornutos e rinorréia aquosa) e óticos (acúfenos homolaterais) e faringeos (dlsfagia discreta e transtornos do gosto).

A aplicação de anestesia local, topicamente e na área do corneto médio produz alívio quase imediato e total dos sintomas.

2) síndrome do nervo nasal de Charlin.
a) síndrome oculonasai anterior

Compreende uma lesão inflamatória do olho (queratite, úlcera de córnea, frite, iridociclite) mais uma rinite aguda com rinorréia aquosa mais intensas, dores orbitárias e faciais que se irradiam para a cabeça. Os sintomas são unilaterais. A aplicação de anestesla na profundidade da fossa nasal correspondente alivia rapidamente os sintomas, tudo porque o nervo nasal se distribui na órbita globo-ocular (córnea, íris, corpo ciliar) e na fossa nasal.

b - alterações faríngeas

a causa mais freqüente são os tumores da rinofaringe. As cefaléias são intensas e persistentes, aumentando com o tratametno radioterápico e invasão endocraneana.

Os processos Inflamatórios agudos da faringe causam cefaléia pela febre que os acompanha.

c) alterações óticas

processos agudos do ouvido, especialmente da otite média (OM aguda). As OM crônicas normalmente não causam cefaléia, a não ser nas reagudizações. A complicação mais freqüente das OM agudas e crônicas, a Meningite é causa de cefaléia, assim como a tromboflebite do seio lateral, abcessos encefálicos, etc.

Os tumores de ouvido causam cefaléias por compressão, neurites ou invasão endocraneana.

As disfunções da ATM por alteração da oclusão dentária (síndrome de Cásten) produzem otalgia por participação do nervo Auricolotemporal. O processo estilóide alongado ou ligamento estiloideo ossificado pode acarretar dores na altura do istmo das fauces, geralmente aparecendo na fase da deglutição. O RX e o toque digital da região, facilmente fazem chegar ao diagnóstico correto, cujo tratamento radical é a ressecção do mesmo.

SUMÁRIO

O trabalho refere-se a causas de cefaléia em otorrinolaringologia.

SUMMARY

The work refered causes of headache In otorhinolaringologyc.

BIBLIOGRAFIA

1. FRIDMANN - Cefaleas y jaquecas, 141-153,1973.
2. BALLENGER, J.J. - Cefalea. Neuralgia de Ia cara y Ia cabeça; Enfermedades de Ia nariz garganta y oido, 107-116,1972
3. LAURENS, G.; AUBRY, M. - Sinusitis de Ia cara; ORL Prática, 240-255, 1 1966
4. WOLFF H.G. - Headache Mechanism. Int. Aech. Allergy. 7: 210-278, ano 1955
5.PAIVA, L.J. - Cefaléias no ponto de vista ORL. Simpósio sb. cefaléias, 208-212, 1963.




Endereço dos Autores:
Instituto de Otologia
Andradas, 1711 - 3.° andar
90.000 - Porto Alegre/ RS

* Trabalho realizado nos Serviços do Prof. Dr. Rudolf Lang - Hospital Ernesto Dornelles e Disciplina de O.R.L. da Pont. Universidade Católica do Rio Grande do Sul em convenio com o Instituto de Otologia.
** Médicos residentes (R2) de Otorrinolaringologia do Hospital Ernesto Dornelles e Hospital Universitário da PUC-RS.
*** Médico Otorrinolaringologista do Hospital Ernesto Dornelles e Hospital Universitário da PUC-RS.

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