Versão Inglês

Ano:  1978  Vol. 44   Ed. 1  - Janeiro - Abril - ()

Seção: Artigos Originais

Páginas: 70 a 73

 

MIGRAÇÃO DE ASCARIS LUMBRICOIDES PELA TUBA AUDITIVA

Autor(es): Fernando Araújo

A ascaridíase é a verminose mais comum em nosso meio (10, 17 e 20) e apresenta um ciclo evolutivo caracterizado por uma fase pulmonar transitória devido a migração Iarvária e uma outra fase mais prolongada em que o verme fica localizado na luz intestinal (3, 15 e 16). Dai pode ser expelido pelo Intestino ou migrar para outros órgãos (6, 7 , 11 e 19) e determinar obstruções, como ocorre no ducto pancreático (20), apêndice cecal, canal biliar etc. Principalmente nas Infestações maciças são comuns as migrações para o nasofaringe e a sua salda pela boca ou nariz (2, 4 e 8). Muitas vezes, principalmente as crianças vomitam grande número de vermes adultos.

Tem sido aventada a possibilidade de penetração do verme pela tuba auditiva e sua posterior salda pelo meato acústico externa, mas não encontramos na literatura consultada relatos afirmativos desse tipo de migração dos áscaris.

O verme adulto é um nematódio cilíndrico e com extremidades afiladas o que favorece suas migrações. Pertence á família Ascaridae (5, 18) - Ascaris lumbricoides (Lineu, 1758).

A tuba auditiva (12) comunica a naso-faringe com a cavidade timpãnica e seu comprimento total é de 3,5 a 4,5 cm (12 e 14). Compõe-se de uma parte ãntero-medial cartilagínea e outra póstero-medial óssea. As duas partes se encontram em uma região estreitada e ligeiramente angulada, que se chama Istmo. A parte cartilagínea é do tipo elástico e permanece fechada, exceto na deglutição ou no bocejo (1). Na vizinhança do óstio faríngico a trompa mede 8 mm de altura por 5 mm de largura (14). Esse calibre diminui progressivamente, para chegar a 2 mm de altura por 1 mm de largura, no nível do istmo. Em seguida, o calibre se alarga de novo, para medir ao nível do orifício timpânico, cerca de 5 mm de altura e 3 mm de largura. A morfologia da tuba auditiva favorece, teoricamente, a penetração de um verme na sua luz.

RELATO DO CASO

Uma criança de 10 meses, branca, aparentando ótimo estado de saúde, foi acometida por vômitos alimentares, quando expulsou grande número de Ascaris lumbricoides. Cessados os vômitos, a criança passou a ficar Inquieta e com tosse seca, pouco intensa. Na mesma noite, passou a chorar continuamente e aparentando sentir dores Intensas. Foram administrados vários analgésicos com pouco alívio das dores. Nos dias seguintes, como não apresentasse melhoras do quadro doloroso; foi levada a seu pediatra que diagnosticou provável Otite Média Aguda por apresentar hiperemia da membrana timpânica direita. Foi iniciado o uso de antibióticos por via oral e mantido o analgésico e, mesmo assim, não houve modificação do quadro doloroso. Assim continuou, totalizando cerca de 10 dias, em uso de antibióticos e analgésicos, sem apresentar nenhuma melhora. Foi, então, encaminhada a nosso serviço para esclarecimento diagnóstico e tratamento. Enquanto aguardava a consulta, o pai da criança foi surpreendido pelo afloramento, pelo porus do meato acústico externo, da extremidade cefálica de um nematódio, o qual, retirado lentamente, devido ao temor de sua ruptura, foi, depois, identificado como sendo um Ascarís Lumbricoìdes, ainda vivo, com cerca de 10 cm de comprimento e um pouco mais delgado que o normal. Após a retirada do nematódio houve regressão completa do quadro doloroso da criança. Imediatamente procedeu-se ao exame otoscópico, constatando-se uma laceração vertical da membrana do tímpano, localizada ao nível dos quadrantes súpero e ínferointernos. Toda a membrana apresentava-se hiperemiada mas não havia secreção purulenta visível. Foi mantida a antibioticoterapia sistémica mas não houve mais necessidade de analgésicos. Após uma semana foi feita uma revisão clínica quando constatamos que a membrana do tímpano alinda estava hiperemiada mas já com sinais de cicatrização da parte lacerada. Após 15 dias verificamos estar completa a cicatrização da membrana do tímpano com normalização de sua mobilidade e coloração.

COMENTÁRIOS

A criança expeliu grande número de vermes durante os vómitos que a acometeram. Um deles permaneceu no naso-faringe e conseguiu penetrar no óstio faríngico da tuba auditiva. Em sua difícil migração pela tuba auditiva, deve ter tido dificuldade em ultrapassar a região do istmo e é possível que tenha sido obstaculado, também, pela membrana do tímpano, o que determinou o demorado quadro doloroso. E possível que a extremidade caudal do nematódio possa ter ficado dependurada no naso-faringe, determinando os reflexos de tosse seca.

A possibilidade de penetração de um Ascaris lumbricoides na tuba auditiva deve ser levada em consideração quando uma criança apresentar otalgia unilateral, resistente aos tratamentos habituais, principalmente se houver perídromos de infestações por Ascaris lumbricoides. Se, ao mesmo tempo, houver tosse seca, o exame da rino-faringe será necessário para afastar a possibilidade do verme estar ainda com sua extremidade caudal naquela região.

SUMÁRIO

O Autor apresenta um caso de migração de Ascaris lumbricoides pela tuba auditiva com passagem pela orelha média e salda pelo meato acústico externo, após romper a membrana do tímpano.

SUMMARY

The Author presents a case of migration of Ascaris lumbricoides through the. Eustachian Tube by crossing the middle ear to reach the External Auditory Canal after breaking through the Tympanic Membrane.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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VERONESI, R.: Doenças Infecciosas e Parasitárias, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara-Koogan, 1969.




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