Ano: 1936 Vol. 4 Ed. 6 - Novembro - Dezembro - (41º)
Seção: Trabalhos Originais
Páginas: 1543 a 1548
FISTULA BRONCO-ESOFAGICA
Autor(es): OCTACILIO LOPES
(Em colaboração com o Dr. Antonio Carneiro de Campos).
M. R. Vieira, 36 anos, preta, brasileira, domestica, casada, residente em Elisiario, veiu á consulta em Setembro de 1934.
Ha 3 dias, ao deglutir um pedaço de marmelada, foi presa de um subito acesso de tosse que a fez expelir o alimento. De então para cá nada mais ponde engolir, nem mesmo a saliva, sem que este ato fosse seguido de tosse violenta, ás vezes persistente e acompanhada de vomitos.
Informa que tem 2 filhos, vivos, sadios e que nunca abortou. Sofreu, apenas, ha anos de reumatismo agudo e é atacada de vez em quando por cefaleas passageiras.
Ao exame, o faringe e laringe aparecem normais.
Como exame complementar resolvemos fazer a esofagoscopia. Antes, porém, como tinhamos á mão, os Raios X e enquanto se preparava o esofagoscopio, fizemos uma radioscopia, dando á paciente um pouco de mingáo de citobario.
O diagnostico aclarou-se, dispensando aquele outro exame. Mais ou menos ao nivel do bronquio o citobario desviou-se para a esquerda enchendo a arvore bronquice correspondente, dando a imagem que as radiografias junto reproduzem. Apenas uma quantidade minima do citobario desceu o esôfago.
Internada a doente no Hospital foi submetida a uma gastrostomia com o fim de alimenta-la. A intervenção foi feita com anestesia local, afim de não chocar a paciente, cujo estado geral era demasiado precario. A despeito de um tratamento energico por medo de injeções de soro glicosado, fisiologico e bicarbonatado, e medicação cardiotonica, veiu a doente a falecer, aos progressos de seu marasmo, no 3.° dia de operação.
AUTÓPSIA: Aberta a cavidade toracica, foram encontrados cerca de 50 c. c. de liquido seroso na cavidade pleural. Retirado o coração verificou-se forte aderencia entre o esofago e o bronquio esquerdo, havendo, em torno, um espessamento encobrindo a região. Secção do esofago acima e abaixo do endurecimento; secção do bronquio esquerdo em sua origem e logo abaixo da porção endurecida. Retirada da peça, a qual, aberta, deixa ver uma fistula entre aqueles 2 orgãos, conforme mostram as fotografias junto. Cortei nos apites pulmonares e região supra hilar nada denotam macroscopicamente no parenquima pulmonar.
As fistulas aerodigestivas foram por Mangabeira Albernaz classificadas corno sintetiza o quadro abaixo:
(EAQUEMA 1, PÁG. 1544)
Segundo dados colhidos pelo mesmo autor em 68 casos, tratava-se:
de cancer, em 25;
de corpos estranhos, em 5;
de sifilis, em 3;
de rutura de diverticulo, em 3;
de ulcera simples, em 2;
de necrose de decubito, em 2;
de complicação operatoria, em 1;
de tuberculose, em 1;
de actinomicose, em 1;
(FIGURA 1, Pág1545)
Quanto á localisação, as fistulas eram:
laringe faringeas em 2 casos;
traqueo esofagicas em 49;
bronco esofagicas em 16;
esofago pulmonares em 4;
pleuro esofagicas em 2;
Ainda Mangabeira Albernaz cita no seu trabalho "Considerações a respeito das fistulas traqueo-bronco-esofagicas" in Jornal dos Clinicos, N.º 21, Novembro de 1930, a seguinte estatistica de 639 casos:
Congenitas simples (total mundial, segundo Connseller) - 222
Congenitas mixtas - 3
Neoplasicas - 367
Infecciosas especificas - 20
b) tuberculose - 1
c) actinomicose - 1
Traumaticas - a) corpos estranhos externos - 5
b) corpos estranhos internos - 8
c) necrose de decúbito - 2
d) operatório - 1
De causa imprecisa - 2
Etiologia não especificada - 7
De onde se vê que cabe a primazia na etiologia das fistulas aero-digestivas ás neoplasias seguidas de perto pelos defeitos congênitos.
Varios são os meios de que pode o medico lançar mão para o diagnostico de uma fistula aero-digestiva. Sobresaem, porém, a esofagoscopia e o exame radiologico com meio de contraste.
Alguns autores condenam o emprego do bario ou de outros meios de contraste, baseados no caso de Berger em que o paciente faleceu após o seu uso.
Explica-se, porém, o acidente por ter o bario enchido os dois bronquios o que não poderá acontecer se a quantidade dada ao paciente não for exagerada.
A proposito deste caso, o distinto colega J. Fagundes que auxiliou a autopsia, escreveu no jornal "A Cidade", a seguinte cronica:
COISAS DA VIDA E DA MORTE
A vida é bem amada quando no socego, na paz do espirito ou na saúde. Ela é má, indesejavel quando na tortura da carne desaparece o brilho do espirito, a dôr cruciante que punge todo o momento da existencia. Assim é a vida com a "sua finalidade biologica" a morte. Dela tiramos todos os dias: experiencia, consolo e conhecimentos que fortificam é esclarecem os homens cia ciencia em bem dos que sofrem. Na azafama da dôr nos elevamos para Deus com a alma dolorida e purificada na essencia, pela morte crescente da materia que vae pelo tempo se gastando com o uso - abuso das substancias ingeridas, pela necessidade mesma da vida.
Assim foi que assistimos morrer abraçada á sua dôr uma pobre mulher, no hospital Padre Albino. A sua molestia e o seu estado de desnutrição eram incompativeis com a existencia: sofria ela uma fistula do esofago em comunicação com os bronquios pulmonares. Onde devia penetrar tão sómente o ar puro, penetravam detritos alimentares d'ahi a sua desgraça e a morte. O diagnostico feito em vida foi plenamente confirmado pela autopsia. Os drs. Octacilio e Carneiro, ciosos do seu saber e ;da sua experiencia viram que a sifilis ou a tuberculose cavaram naqueles orgãos de funções tão diferentes, aquela entrada viciosa que irremediavelmente consumia a existencia daquela pobre Rosa.
Assim foi que dentro de sua fé vestida de dores e confortada pela ciencia, entregou ela sua alma a Deus. E não sem a ironia do destino que em sua autopsia com a mesma tesoura que o jardineiro corta as rosas da vida, tambem cortou, por mãos de medicos, as costelas de uma rosa morta...
J. Fagundes - "A Cidade" Catanduva, 13 de Setembro de 1934.
Nota: - A presente observação, apresentada apenas para que fique registrado mais um caso de fistula bronco-esofagica, ficou, desfalcada da parte mais interessante que seria o exame anatomopatologico da peça. Infelizmente, porém, esta foi extraviada no Rio de janeiro para onde fôra remetida logo após a autopsia, ficando, por isso sem diagnostico etiologico a fistula acima descrita.