Versão Inglês

Ano:  1936  Vol. 4   Ed. 5  - Setembro - Outubro - (30º)

Seção: Trabalhos Originais

Páginas: 715 a 730

 

ESTATISTICA DOS CASOS DE BLASTOMICOSE NASO-BUCO-LARINGÉA, OBSERVADOS NO SERVIÇO DE OTO-RINO-LARINGOLOGIA DA SANTA CASA DE SÃO PAULO

Autor(es): J. E. DE REZENDE BARBOSA

SERVIÇO DE OTO-RINO-LARINGOLOGIA E CIRURGIA PLÁSTICA DA SANTA CASA DE MISERICORDIA DE S. PAULO (Chefe: Dr. Schmidt Sarmento)

A frequencia da Blastomicose no ambulatorio de Oto-Rino-Laringologia da Santa Casa de Misericordia de S. Paulo não ultrapassou a percentagem de 0,11% do total de pacientes examinados em 23 anos de serviços.

A nossa estatistica orça em 73 casos de Blastomicose nasobuco-laringéa, sendo, pois, relativamente pobre, e digo relativamente porque o prof. Souza Campos (*) cita, em Fevereiro de 1934, Floriano de Almeida que conseguiu colecionar sómente 257 casos de Blastomicose distribuidos pelos Estados Brasileiros.

A distribuição segundo os anos (grafico n. 1) nada nos apresenta de notavel. Os casos vão se sucedendo de ano a ano em uns mais que em outros. De 10 anos para cá umentaram um pouco em numero, mas não conseguiram ultrapassar a cifra de oito casos por ano.

FREQUENCIA SEGUNDO OS MESES DO ANO

Janeiro - 9
Fevereiro - 7
Março - 7
Abril - 3
Maio - 5
Junho - 5
Julho - 9
Agosto - 5
Setembro - 6
Outubro - 5
Novembro - 4
Dezembro - 8

Não podemos obter conclusões bem precisas devido ao escasso numero de pacientes, no entanto, parece existir uma maior frequencia nos meses de verão e uma certa diminuição no outono, não sendo, entretanto, essa divergencia tão acentuada.

FREQUENCIA SEGUNDO O SEXO

Sexo masculino - 72 casos (98,64%).
Sexo feminino - 1 caso ( 1,36%)

Encontramos sómente uma mulher doente. Invocamos aqui a causa, como devida talvez ao ser o homem mais dado aos trabalhos agricolas que as mulheres.

FREQUENCIA SEGUNDO A IDADE

Está muito bem demonstrado no grafico n. 2, que a Blastomicose das mucosas encontra melhor terreno nos velhos que nos moços, pois mais de 50% dos nossos casos estão catalogados dos 41 anos em diante. A infancia é quasi que resistente a essa entidade morbida, pois abaixo dos 10 anos encontramos 1 caso sómente. Talvez as condições de vida de uma criança, seu habitat quasi permanente na casa paterna, ausencia de contacto com a natureza e com a flora em particular, sejam a causa de sua menor infecção pelos cogumelos responsaveis por essas micoses.


Frequencia da Blastomycose naso-buco-laryngéa no Ambulatorio de O.R.L. da Santa Casa de Misericordia de São Paulo (Serviço do Dr. S. Sarmento)

Grafico n.° 1


Blastomycose naso-buco-laryngéa
Frequencia segundo as idades

Grafico n.° 2

Blastomycose naso-buco-laryngéa
Frequencia segundo as nacionalidades

Grafico n.° 3



FREQUENCIA SEGUNDO ÁS NACIONALIDADES

Conseguimos reunir 6 nacionalidades.

Como podemos vêr no grafico (n. 3), os brasileiros estão representados na nossa estatistica por 49,30% (36) dos casos. No entanto, os espanhois com 26,02% (19), representam, proporcionalmente, um numero de doentes muitas vezes maior, considerando-se a densidade da população brasileira e o pequeno numero de imigrantes espanhois. Podemos dizer que existe um verdadeiro tropismo entre a raça espanhola: e a Blastomicose.

FREQUENCIA SEGUNDO ÁS RESIDENCIAS, ZONAS E ALTITUDES

Capital - 29 casos ou 39,70%
Interior - 40 casos ou 54,70%
Internados - 4 casos ou 5,40%

Não podemos deixar de considerar a cifra de 39,70%, correspondente aos casos localizados na Capital do Estado, como pouco verdadeira, pois achamos que um seu grande contingente é fornecido por elementos do Interior, que demandam á Capital á procura de tratamento.

Quanto aos casos, do Interior do Estado, não encontramos uma distribuição regional que nos chamasse a atenção. Pelo contrario, existe urna distribuição disseminada por todas regiões do mesmo, e no computo geral, 21 casos pertencem ás zonas mais velhas e 19 ás mais novas.

Quanto ás altitudes, finalmente, as localidades que apresentam, casos de Blastomicose estão localizadas, de um modo geral, nas altitudes médias.

DISCUSSÃO

Dr. Mario Ottoni de Rezende - Dois problemas interessantissimos, foram postos em fóco, sobretudo para nós paulistas: a leishmaniose e a blastomicose. O Prof. Lindenberg, com um pessimismo germanico, nos fez cair do cimo S. base da montanha, em materia de tratamento, tanto da leishmaniose quanto da blastomicose; da leishmaniose, sobretudo, em que eu pensava que a contribuição brasileira para este tratamento, tivesse sido enorme, principalmente nos ultimos tempos, depois do aparecimento do eparseno, antimonio, arsenico, e outros sáes.

Mas, embora não tendo o pessimismo do Prof. Lindenberg, aceito que a sua observação mais cuidada, a revisão que fez de doentes que partem curados e voltam recedivados, para a sua enfermeira, em grande numero, etc., talvez dêem-lhe razão.

Para que pudessemos afirmar que esta razão não existe, precisariamos controlar os nossos doentes de resultados curados, durante períodos de anos seguidos. Quem sabe se sua observação é um fato, ao passo que a nós especialistas ela não se dá desta fórma, porque o doente vem, é diagnosticado, tratado, desaparece e nunca mais se sabe dele. Quando volta em estado peior, vai para a enfermaria de pele, e lá fica vegetando ás vezes anos. Sem querer discutir, quero crer que os tratamentos que dispomos, são ainda eficientes ou pelo menos consoladores.

Na blastomicose o problema foi levantado:

Primeiro pelo Dr. Floriano de Almeida que, com a descoberta do paracoccidiodis braciliensis, de sua autoria, veiu demonstrar uma nova fórma de blastomicose insensivel ao iodo, ao lado da fôrma americana, em que o iodo atoa relativamente bem.

Este mesmo fato, o Prof. Lindenberg teve ocasião de expôr, casos de hipersensibilidade iodica, principalmente para a nossa fórma brasiliensis, e casos em que o iodo dava resultado relativamente bom.

Mas, muito embora essa bondade relativa, não podemos nos contentar, ainda, com a quimioterapia no tratamento da blastomicose, quer cutanea quer bucal, quer interna.

E' preciso frisar mais: o Prof. Sanson apresenta um caso de cura aparente de uma blastomicose laringéa, por eletrocoagulação.

E' um progresso a se fazer e um fato a se pensar quanto ao tratamento das blastomicoses localisadas na pele, ou acessiveis como na boca, nas gengivas e outras regiões semelhantes, e eu mesmo tive ocasião de aplicar a eletrocoagulação, com resultados relativamente bons, nos casos de blastomicose do rebordo gengival inferior.

Nestes casos, pelo menos, pude chegar a ponto de dar o doente como curado, não tendo tido dele mais noticias.

Outro caso de blastomicose curado, esta definitivamente, ha mais de 15 anos, pois que conheço o doente ha muito tempo, foi um dos primeiros diagnosticados aqui em S. Paulo, tendo sido em torno dele travadas polemicas interessantes a respeito do seu diagnostico, porque se tratava de uma pessoa considerada; era um caso de blastomicose do pavilhão da orelha, no qual se faziam diagnosticas variados, de carcinoma, epitelioma, emfim, toda a serie maligna.

Até que um dia o Prof. Lindenberg diagnosticou blastomicose, e o Prof. Arnaldo Veira de Carvalho, com espirito arguto de que era dotado, lembrou o emprego do termocauterio.

Esta termocauterisação deu o resultado que o Prof. Arnaldo Vieira de Carvalho esperava e o doente curou-se e ha 15 anos permanece curado, graças ao diagnostico do Prof. Lindenberg.

As estatísticas apresentadas pelo nosso jovem colega Dr. Rezende Barbosa representam um interesse extraordinario para nós especialistas, não só em oto-rino-laringologia, como tambem em clínica.

Si ela pudesse ter sido realizada em todos os. nossos serviços clínicos, seria uma obra bastante interessante.

Feita sómente no nossa serviço, ainda não deixa de ser importante, porque representa: o principio de uma estatísticaca completa, tanto de leishmaniose, quanto de blastomicose.

Na sua estatística estão representados a totalidade dos doentes comuns da especialidade. A variação seguida pelas aberturas de zonas novas; as zonas novas mais acentuadamente afetadas, tanto peja leishmaniose, quanto pela blastomicose, confirmam em parte a teoria do Dr. Floriano de Almeida, que disse que a blastomicose não vem do mato mas sim dos cafezais.

Mas, a estatística em que o Dr. Rezende apresenta 21 casos de blastomicose na zona velha, e 19 da zona nova, é contraria ao Dr. Floriano de Almeida.

A altitude foi tambem estudada e ficou provado, pelo estudo estatístico do Dr. Rezende, que ela não tem grande influencia no desenvolvimento da leishmaniose, como pensavam antigamente Pedroso e mesmo Brumpt.

Quanto aos dados estatísticos, sobretudo da blastomicose, aparece o hespanhol predominando sobre todas as raças, porque sendo em menor numero que os brasileiros, temos que o hespanhol apresenta uma certa especificidade para a blastomicose. A distribuição pelas zonas que representam o limite zoologico do Estado, se vê que as zonas novas da Alta Sorocabana e Paulista, são as que dão maior contingente, tanto de leishmaniose, quanto de blastomicose.

Pontanto, acho que a estatística do Dr. Rezende deve ser continuada pelo Dr. Barreto em outros sectores.

Esses dois problemas devem ser encarados, ainda, com mais clareza pelos especialistas de garganta e pele.

O pessimismo do Prof. Lindenberg, nos obriga a esforços ainda maiores, sobretudo para o tratamento destas infecções, tanto da leishmaniose, tão deformante, quanto da blastomicose, tão mortífera.

Dr. Mangabeira Albernaz - Ouvi com máxima atenção os trabalhos ora apresentados, mormente os relativos á blastomicose. Esta afecção é hoje em dia um dos problemas mais sérios e complexos que se apresentam a nós especialistas.

Fiquei surpreso com a cura do caso do Dr. Sanson. Não com a cura da lesão laringea, mas com a anteriormente obtida por um cirurgião geral das lesões da bochecha.

Há algum tempo tive oportunidade de observar um caso de blastomiase da gingiva. A lesão, que não tinha mais de um centímetro, fôra percebida pelo paciente, um dêsses indivíduos que têm medo de tudo e que percebem as coisas mal começadas. Localisava-se o mal na gingiva correspondente a um dos caninos inferiores. O aspecto era típico, mas não deixei de fazer a extração do ponto lesado enviando o material ao Dr. Marcos Lindenberg, Como o laudo dêste especialista confirmasse o diagnostico de blastomicose por coccidioides, tratei logo de eletrocoagular a lesão. Por cerca de ano e meio persegui tenazmente o mal, até quando, alcançando ele a amígdala e sua loja, tornou-se inutil e arriscado insistir nas coagulações.

Só por um verdadeiro acaso poderia chegar ao especialista uma lesão tão diminuta, e quero crer que não seja possível observar-se caso mais recente e mais incipiente do que aquele. Pois a eletro-ciagulação, que produz resultados tão brilhantes em várias afecções das mucosas, falhou aqui de modo completo e absoluto!

Diante do que observei, e do que o Dr. Sanson acaba de relatar, só uma conclusão pode se inferir: é que há dois tipos de blastomicose - o que vem corroborar as idéias do Prof. A. Lindenberg, - um sensível ao tratamento pela eletrocoagulação, outro rebelde a toda e qualquer terapêutica ora em uso.

Dr. Mattos Barreto - A respeito da aplicação da diatermocaogulação nas blastomicoses, venho trazer a observação que tenho. Só a apliquei em dois casos.

No primeiro, foi apenas tentando aliviar o paciente de enorme massa tumoral que se extendia na bochecha e na língua, impedindo-o quasi de se alimentar. O resultado aparente foi pelo menos animador ao paciente que era quem procurava nos convencer da eficacia. Doente de ambulatorios, pouco tempo depois desapareceu do serviço sem que pudessemos concluir a observação.

O outro caso eu cito propositalmente, porque o Prof. Lindenberg foi quem nos confiou o doente. Tratava-se de uma lesão muito em inicio e com uma reação ganglionar ainda quasi imperceptivel. As lesões do labio inferior cederam, cicatrizando quasi sem vestigio. Ao passo que as lesões do terço posterior da bochecha que se aproximavam da região amigdaliana, continuaram sempre a progredir não obstante repetirmos a coagulação. Em vista disso passou o doente a fazer unicamente o tratamento geral. Ele fora enviado para a coagulação antes da quimioterapia afim que se evitasse uma possível exacerbação pelo emprego do iodo.

Sobre a leishmaniose, eu não me furto em insistir a respeito da diatermo-coagulação nas fôrmas mucosas, particularmente na proliferante ou na ulcero-vegetante. A nossa experiencia, no serviço do Prof. Paula Santos, vem desde 1929. O material tem sido em maioria absoluta de casos rebeldes á quimioterapia, já tratados por toda a sorte de arsenicais e antimoniais. Os resultados têm sido os mais animadores: obtem-se ao fim de um numero variavel de aplicações (4 a 6 em média) uma cura local completa, não só das manifestações nasais, como da boca, do faringe e do laringe. Já temos trazido diversos deles ás sessões desta Sociedade.

Acho que o Prof. Lindenberg tem acompanhado diversos casos, que nos são enviados do seu serviço. Entre estes eu cito um, de forma proliferante, extendendo-se por toda a cavidade bucal, faringe e laringe. O doente que se achava dispnéico ou e quasi cachetico, ficou inteiramente curado; não se dispensou naturalmente a quimioterapia, que aliás vinha sendo feita desde muito tempo.

A respeito do tratamento de fundo, eu desejo, aproveitando esta oportunidade em que estão reunidos tantos colegas do Interior, mencionar o emprego do metarsenito de sodio, que é formula do Prof. Pupo. O arsenito agindo como os outros arsenicais, como o Eparseno, tem a vantagem sob o ponto de vista economico. E' uma formula que pode ser aviada mesmo no Interior: acido arsenioso, carbonato de sodio anhidro, cloreto de sodio e agua distilada.

E' pois um medicamento perfeitamente acessivel ao nosso meio, e hoje já existe preparado. Desde o ano passado. Iniciamos o seu emprego nas formas mucosas, ensaiando-o em injeções hipodermicas e injeção local, sub-mucosa. Como resultado temos verificado a mesma ação para o Eparseno.

Com relação ao brilhante estudo estatístico do Dr. Rezende, eu desejo, com os meus aplausos, apenas lembrar-lhe que naqueles dados comparativos entre o numero total de doentes e o numero de leishmaniosos no serviço a cargo do Dr. Schmidt Sarmento, em que ele considera como fator principal a depressão economica iniciada em 1929, se deva considerar tambem o fator concorrencia... Pois justamente em 1929 apareceu outro serviço de oto-laringologia na Santa Casa, a Clínica da Faculdade. O material equitativamente dividido com relação ao numero de doentes, não o teria sido para os casos de leishmaniose, porquanto desde 1929 nós interessavamos de modo particular pelo seu tratamento, sendo que em varios periodos o serviço a cargo do Prof. Paula Santos se viu acumulado de leishmaniosos, que nos eram talvez sistematicamente enviados.

Dr. A. Busacca - Devo á gentileza do Prof. Lindenberg, se no campo de minha especialidade, tive ocasião de verificar tres casos de leishmaniose da conjuntiva e da cornea.

Em dois deles, nos quais conjuntiva e cornes eram interessadas pelo processo, tive uma melhora muito evidente com o tratamento local específico e aspecífico, em conjunto com o tratamento geral. Não posso dizer se o processo curou pois que, quando os doentes estavam em boas condições, não apareceram mais.

Ha alguns meses observei uma forma grave, unilateral de keratitis. Experimentei localmente, sem resultado, uma vacina fornecida-me gentilmente pelo Prof. Lindenberg; obtive uma rapida cura com injeções locais (perto da região límbica) de sublimato.

Dr. Teofilo Falcão - Deseja trazer uma ligeira contribuição ao interessante trabalho do Dr. Rezende Barbosa, informando que os doentes de leishmaniose que procuram a sua clínica, em Santos, provém todos da Noroeste.

Nunca verificou um só caso de leishmaniose em pessoas que sempre tivessem
residido na cidade de Santos.

Dr. Floriano de Almeida - Desejava fazer um reparo afim de esclarecer umas duvidas que parecem ainda existir.

Quando se fala em blastomicose deve-se ter em vista que esta denominação tem uma significação muito vasta abrangendo numerosas fórmas clinicas e é por isso naturalmente que um autor tem um resultado com um tratamento emquanto outro tem resultado diferente.

Sob a denominação de blastomicose estão grupadas todas as molestias que apresentam nos tecidos parasitados um cogumelo com a fórma de levedo ou si se quizer, uma fórma gemulante.

Blastomicose deriva de blastomiceto, termo este criado ha muitos anos por Frank, para designar todos aqueles fungos que nos tecidos parasitados se apresentassem sob a fôrma de levedo.

Uma celula que apresenta uma gemula ou um broto, seria na concepção de Frank, um blastomiceto.

Daí, portanto, a razão porque, sob a denominação de blastomicose, se encontra hoje em dia um sem numero de molestias.

Entre as numerosas classificações dos que se ocuparam do assunto temos as de Redael que considera 10 entidades mórbidas diferentes, isto é, 10 molestias com agentes etiologicos diferentes. Assim sendo, não admira que os resultados obtidos por um autor com um determinado tratamento sejam brilhantes, emquanto que para outros sejam desoladores.

Pela estatística do Dr. Rezende, parece haver uma certa diferença entre os resultados por ele obtidos e os meus. Parece haver uma discordancia, mas na realidade ela não se verifica; diz ele, que os hespanhois são muito mais atacados que os individuos de outras nacionalidades. De fáto, eles são mais atingidos pela fórma bucal crónica e isto vem reforçar o que ha pouco disse: predomina muito provavelmente nos hespanhois o germen da segunda especie, descrita recentemente por Morris Moore o Para-coccidioides cerebriformis, ou outros germens, provavelmente do mesmo genero ou de generos diferentes. A este respeito o Prof. Lindenberg referiu um caso do qual obteve uma cultura, diferente das demais, e cujo parasita, não pertence ás especies cerebriformis ou brasiliensis.

E' possível que seja um outro germen, que produz uma fôrma de blastomicose bucal, germen este. pertencente ao antigo grupo Monilia, hoje de significação apenas medica.

Em relação á segunda referencia, devo dizer que na totalidade dos casos podemos observar pelo menos de acõrdo com as informações que consegui em mais de 300 casos, os japonêses ocupam o segundo lugar, sendo naturalmente o primeiro ocupado pelos brasileiros.

Em São Paulo, a colonia japonesa é atualmente talvez maior que a propria colonia italiana, e como a quasi totalidade dos japonêses se entrega aos trabalhos da lavoura, é muito natural que eles paguem maior tributo á tão terrivel micose.

Dr. Lindenberg - Peço a palavra para fazer algumas consideraçoes.

Para o tipo para-coccidioide, o tratamento local não dá nenhum resultado. E' uma molestia que tem tendencia a se disseminar, de modo que acredito que o caso do Dr. Sanson não seja um caso de para-coccidioide ao passo que o caso do Dr. Mangabeira como o do Dr. com certeza são. Estes fatos parecem justificar a diferenciação daE diversas blastomicoses entre nós. O que se está dando para a blastomicose, já se tem verificado com as outras micoses. Vou referir o caso das tinhas. Quando se descreveu o tricofiton causador da tinha tricoficea, acreditou-se que era o unico germen produtor desta molestia. Depois encontrou-se a microsporia e hoje conhecem-se dezenas de variedades de microsporia, assim como de tricoficeas. De modo que acho que estamos na eminencia de termos um bom numero de blastomicoses entre nós. Somos levados a ter esta conclusão, não só das observações clinicas, como tambem dos trabalhos de laboratorio. Ha um 'fato muito comum no estudo das blastomicoses, o que tambem concorre para se admitir diferentes especies; a cultivabilidade do germen. Ha caso de para-coccidioides em que se obtem a cultura com facilidade. N'outros casos, entretanto, por mais que se variem, as condições do meio, nunca é conseguida a cultura. Este fato em referencia a outros germens, é um elemento de diferenciação de especies. Não ha germen nenhum caraterisado em bateriologia, que não se cultive sempre nas mesmas condições em que foi cultivado pela primeira vez. Portanto, uma vez que se não cultive um germen, é porque se trata de uma outra especie. Quanto á blastomicose benigna, encontrei um caso de um hespanhol em que se encontrou um caso especial. O Dr. Floriano refere-se tambem a um outro germen obtido em culturas e estou agora com um hespanhol com uma blastomicose benigna na boca, que está cedendo ao iodeto e cujo parasita absolutamente não dá cultura. Pois bem, o tal germen achado por mim e pelo Dr. Floriano cultivam-se com a mesma facilidade, e entretanto neste hespanhol que estou tratando, até agora não consegui um cultura. Clinicamente cedendo ao iodeto, e sendo um indivíduo hespanhol, eu consideraria este caso como filiado ao meu germen ou ao do Dr. Floriano e no entanto não é de nenhum dos dois; creio se tratar de uma terceira variedade.

De modo que deveremos dirigir nossas vistas para este particular; concorrendo, assim, para o estudo destas novas variedades.

Quanto á terapêutica seria de estranhar que nós aqui não tivessemos tentado a eletro-coagulação. Nunca pensei em tal processo por não acreditar no seu efeito em lesões que custam a descriminar-se. Apenas o Dr. Matos Barreto falou nisto, porque a lesão era muito limitada e eu estava com receio que fosse uma para-coccidiose de maneira que quiz tentar este recurso, na falta de outro. Nunca usei a eletro-coagulação em principio, pelo seguinte: porque, ou é um caso de para-coccidioide ou não é. No primeiro caso a eletro-coagulação é inutil e no segundo curamos muito bem sem submetermos o doente á intervenção cirurgica.

Dr. Sanson - Intencionalmente antes de fazer a minha comunicação acentuei que não entrava nas minhas cogitações o desejo de discutir a blastomicose - molestia - Identificação e classificação do germen. Esta parte já fôra cuidada no Rio pelo Prof. Eduardo Rabello e dr. Osvino Penna, autoridades de competencia indiscutivel, no assunto.

O dr. Mattos Barreto, citou casos de blastomicose da bocheca e da gengiva que não se beneficiaram da eletrocoagulação. Aceito as suas considerações e não as discuto pois eu mesmo, não considero o doente da minha observação definitivamente curado e ponho as minhas duvidas quanto ao seu prognostico. As apreciações do Dr. Floriano de Almeida são judiciosas e acredita na possibilidade de se chegar á um conhecimento mais perfeito desta micose. O nosso doente não se beneficiou como já acentuei, nem do Iodeto de potassio, nem do azul de metileno, nem do violeta de genciana e tão pouco dos sáes de ouro, terapêutica que fez uso por longo tempo e em larga escala.

Estou de pleno acôrdo com o dr. Mario Ottoni. A sua observação de cura da blastomicose localizada no sulco gengivo labial corrabora a minha. O meu ponto de vista, torno a insistir, trazendo este caso, ã Semana Oto-Rino-Laringologica, de S. Paulo, foi de mostrar a possibilidade de destruir, lesões de blastomicose, assentadas nas cordas vocais, através de uma laringo-fissura. Repito, na laringe, á terapêutica empregada anteriormente, com sucesso na boca pelo ilustre cirurgião carioca dr. Paulo Cesar de Andrade. Eu não me abalançaria a trazer para S. Paulo um caso de blastomicose, que não tivesse passado pelo crivo de autoridades insuspeitas e por indicações das quais veio aliás ter ás minhas mãos. Foi este até hoje o unico caso de lesão circunscrita á laringe que tive a oportunidade de observar. No tirocínio da minha clínica, vi alguns casos de lesões que se propagavam da boca á faringe e ao laringe, todos fatais.

Dr. Rezende Barbosa - Terminando, agradeço as considerações feitas ao meu trabalho. Quanto ás considerações do Dr. Mattos Barreto, quero lembrar ao ilustre colega, que a nossa estatistica foi calculada de acôrdo com a percentagem de doentes leishmanioticos em relação ao total de pacientes examinados no Ambulatorio de Oto-rino-laringologia. Creio, que, se o colega fizesse um estudo estatistico no Serviço do Prof. Paula Santos, talvez chegasse aos mesmos resultados.




(*) - Prof. E. de Souza Campos - "Blastomicoses" (conferencia pronunciada em Tokyo, em 1.° de Fevereiro de 1934, perante as Sociedades (Médicas).

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