Versão Inglês

Ano:  1946  Vol. 14   Ed. 2  - Março - Junho - ()

Seção: Trabalhos Originais

Páginas: 67 a 88

 

AUDIOMETRIA CLINICA (*) - CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS

Autor(es): J. E. DE REZENDE BARBOSA (**)

CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS

Em princípios de 1939 e em fins de 1941, DOUGLAS MACFARLAN (1)) e C. C. BUNCH (2, 3, 4) respectivamente, trataram, com detalhes, da evolução histórica da audiometria. Como figuras de destaque no atual progresso da ciência acumétrica, ninguem mais do que êsses autores norte-americanos poderia conhecer, com requintes de detalhes, a história da audiometria. Eis aí, portanto, uma boa fonte. GRADENIGO e STEFANINI (5) em 1934, e, recentemente, LENNART HOLMGREN (6) abordaram, também, a questão.

Como assinala BUNCH (2, 4), existe grande confusão entre os diferentes autores, tratadistas e mesmo em dicionários de têrmos médicos que trataram da questão, no que diz respeito à definição de um audiometro. Não raramente verifica-se a identidade na especificação da função de um acúmetro, acoumetro, audiometro, audiometro e sonometro. Em 1937, o Conselho de Fisioterapia da Associação Médica Americana definia o audiometro como:. "O audiometro clínico é um instrumento para medir a acuidade e extensão da audição". (cit. Fowler) (7). Atualmente, entretanto, com o fim de evitar possíveis confusões, reserva-se o têrmo de audiometro aos aparelhos destinados a medir a função auditiva, aparelhos êsses nos quais o estímulo sonoro é gerado eletricamente (BUNCH - 2-4). A última edição, de 1937, do dicionário de termos médicos de STEDMAN (8) já define o audiometro como sendo "um instrumento elétrico para registrar a percentagem de audição que permanece em uma pessoa surda".

Na audiometria consideramos, portanto, o histórico, princípios, construção, técnica de manejo e emprêgo do audiometro.

A audiometria é relativamente moderna. Si data os princípios dêste século a construção de aparelhos com dispositivos especiais para medir a intensidade do estímulo sonoro empregado, que era até então a voz, somente lá pelos fins da segunda metade do século passado é que se construiram os primeiros aparelhos de medida de precisão elétro-acústico, da audição. Fato interessante, os progressos da audiometria se acentuaram paralelamente à grande evolução observada na indústria rádio-técnica, principalmente ao grande e rápido desenvolvimento dos tubos eletrônicos e construções relativas ou afins aos mesmos.

Entretanto, após estudo da evolução histórica da medida da intensidade sonora, como fator da acuidade auditiva, verificámos que as bases, tanto fisiológica como clínica, em que repousam a elaboração e construção dêsses modernos e perfeitos instrumentos de precisão - os audiometros, como os possuimos hoje - datam de bastante tempo, mesmo do século passado.

O fim a que se propõe a audiometria é medir o limiar de intensidade de estímulo sonoro capaz de gerar, no nosso ouvido, uma sensação mínima de audição, assim como em função de uma série contínua de freqüências. Ora, a pesquiza e a determinação dêsses elementos já foram tentadas e conseguidas há anos. BEZOLD e EDELMANN (11)), em fins do século passado e princípios, dêste, lançaram as bases de uma verdadeira técnica de precisão para a medida da acuidade auditiva tanto em função da frequência sonora como de intensidade do estímulo sonoro.

Com a construção, em 1898, de seus diapasões de sons puros originando uma " série contínua de sons", FRIEDRICH BEZOLD conseguiu interrogar certas frequências audíveis, e, portanto, estabelecer a primeira noção de acumetria qualitativa. Quando ao elemento intensidade sonora, verificou BEZOLD que a mesma diminuía gradativamente após a percusão inicial do diapasão, e que um ouvido duro necessitava de um estímulo sonoro de muito maior intensidade que o mínimo exigido pelo ouvido são. E, baseando nesse fato de que a intensidade do estímulo sonoro decrescia proporcionalmente ao número de segundos, conseguiu aquele autor determinar o limiar de intensidade do estímulo sonoro para todos seus diferentes diapasões, estabelecendo a primeira noção de medida do estímulo sonoro, pois o mesmo calculava a intensidade por segundos de audibilidade. Eis aí, por conseguinte, a primeira noção de acumetria quantitativa. Até hoje, a pesquisa do limiar de audibilidade, isto é, a determinação dos diferentes limiares de intensidade sonora para cada frequência audível, constitui o nosso escopo na investigação médica, quer científica ou diagnostica.

Posteriormente a BEZOLD, inúmeros investigadores, físicos, médicos ou técnicos, introduziram modificações na maneira de se executar os diferentes metodos acúmetrico, mas tôdas elas respeitando os dois princípios básicos estabelecidos por BEZOLD, isto é, a acumetria qualitativa, em função da frequência, e a acumetria quantitativa em função da intensidade do estímulo sonoro.

As principais modificações visaram melhorar a técnica rotineira do processo original de BEZOLD, introduzindo no mesmo requisitos que lhe proporcionassem maior rigor científico. A distância do diapasão em relação ao meato auditivo externo, bem como certa estandardização do choque de percussão sôbre o diapasão, foram estudados e regulados por KAFKA e STRUYCKEN (cit. 6) inicialmEnte, e, ultimamente, por um número incontável de pesquisadores, muitos dos quais adapta ram dispositivos mecânicos ou eletromecânicos para percussão sempre uniforme dos diapasões.

A construção, em si, dos diapasões foi melhorada, não so quanto à sua não alteração, mas, também, quanto ao próprio material de construção. Atualmente preconisam-se os diapasões de liga de magnésio, inalteráveis, sendo os de frequência aguda com amortecimento prolongado, facilitando a medida da intensidade sonora.

Além dêsses detalhes técnicos ficou estabelecida a necessidade dos ambientes silenciosos adequados para exames acúmetrico rigorosos; demonstrou-se o elemento de erro que é introduzido nessas provas quando as mesmas são executadas comparativamente entre o examinador e o examinando; a possibilidade indiscutível, em surdiezes monoaurais, da audição cruzada; e, também, determinou-se, em laboratórios de acústica, a taxa de amortecimento dos diapasões e seu equivalente em unidades absolutas de intensidade sonora, isto é, em decibels, donde a possibilidade, modernamente, de se obterem audiogramas de um rigor de precisão indiscutível, com o simples conjunto de diapasões.

Apesar de todas essas inovações introduzidas no primitivo metodo de BEZOLD, o mesmo não perde em sua originalidade e nem o seu valor de ter sido a base para a construção dos audiometros atuais. Os objetivos são idênticos, isto é, ambos cogitam de determinar o limiar de intensidade do estímulo auditivo em função das diferentes frequências audíveis. Em um, êsse limiar é medido em segundos de audibilidade, no outro em unidade diferente, isto é, numa medida eletro-acústica - o decibel. Na pesquiza médica, entretanto, essa diferença nos meios de se obter e registrar êsses limiares não interessa, mas sim a execução precisa dos mesmos.

De acôrdo com MACFARLAN (1), muitos anos antes dos primeiros estudos que terminaram na construção audiometros bisavós dos aparelhos atuais, já existiam aparelhos capazes de produzir um estímulo sonoro, cuja intensidade podia ser controlada. Inicialmente surgiram os relógios ou mecanismo tipo-relógio, cujo som, transmitindo-se através de estetoscópio, era controlado por um sistema de válvula, aumentando ou diminuindo a intensidade sonora. Posteriormente, com o advento do circuito elétrico apareceram os primeiros aparelhos elétro-acústicos como fonte sonora. Sem dúvida, portanto, a aplicação da corrente elétrica na telefônia, com a invenção do telefone em 1876, por ALEXANDRE GRAHAM BELL, marca o início nessa época, por conseguinte, o emprego da corrente elétrica nos testes de audição. E' BUNCH (2,3,4,), quem nos conta que primazia do emprêgo da corrente elétrica nos testes de audição cabe a dois investigadores: A HARTMANN e D. E. HUGHES. O aparelho do alemão HARTMANN, lançado em 1878, como nos mostra a figura abaixo (fig.1), em que aparece modificado por KORTING, era constituidopelas seguintes partes:

diapasão, por meio do qual a corrente é interrompida a intervalos regulares:

um rheocord, ou aparelho do qual a intensidade da corrente pode ser variada e regulada a vontade;

3) um telefone, no qual é ouvido um som correspondente àquele do diapasão vibrante, de maior ou menor intensidade, de acôrdo com a fôrça da corrente. Apesar de ser possível, como afirma BUNCH (2, 4), executar testes de audição com facilidade e rapidez com tal aparelho, o mesmo, repudiado pelo próprio inventor, não sobreviveu muito tempo.



FIG. 1 - Audiometro de Hartmann modificado por Korting (Bunch, 4)



Em 1879, D. E. HUGHES (cit. 4) lançou seu aparelho, que podemos observar na figura abaixo (fig. 2), ao qual denominou de "sonometro elétrico".

Nesse mesmo ano B. W. RICHARDSON (cit. 4), ao comunicar alguns resultados obtidos na medida da audição com o novo instrumento de Hughes, ao mesmo se refere com grande entusiasmo, batisando-o com o nome de audiometro. Pela primeira vez aparece, portanto, a palavra audiometro, em 1879, lançada pelo inglês RICHARDSON, ao comentar o aparelho de outro inglês, HUGHES. São de RICHARDSON (cit. 4) as seguintes palavras: "... o mundo da ciência em geral, e o mundo da medicina em particular, muito devem ao Prof. Hughes pelo seu simples e belo instrumento, o qual eu crismei de audiometro, ou menos exatamente, mas mais euforicamente, de audiometro".

Em 1882, em França, dois investigadores propuzeram aparelhos adequados para os testes de audição, baseados ambos no emprêgo da corrente elétrica e receptores telefônicos: LADRIET DE LACHARRIÉRE e BOUDET DE PARIS ( cit. 2,3,4). Não existem elementos na literatura da época para se afirmar das vantagens e uso pelos especialistas de então de tais aparelhos.

O audimetro de LACHARRIÉRE póde ser visto na figura abaixo (fig. 3), por onde se verifica, como diz BUNCH (4), certa semelhança com o aparelho de Hughes e o conjunto harmônico da construção, visando, provàvelmente, fins comerciais.



FIG.2- Audiometro de Hughes. A bateria e o diapasão com interruptor estão ligados a B. Quando o indutor C encontra-se meio caminho entre F e H não se produz qualquer som. Quando o mesmo deslisa sôbre a régua P, em qualquer direção, o som no receptor telefônico aumenta, sendo a intensidade calculada em têrmos de distância no centro ( Bunch, 4 )



Em 1884, URBATSCHITSCH (cit. 2,4) lançou seu aparelho de medida de audição por meio da corrente elétrica, muito conhecido por " Elektrischer Hörprüfungs Apparat " que, com detalhe, póde ser apreciado na figura n.°4.

Como diz BUNCH ( 2,3,4 ), nos 30 anos que se seguiram, diversos estudiosos descreveram instrumentos para testes de audição, baseados todos na transformação de uma corrente direta interrompida em uma corrente alternada, e, entre os quais, devemos citar: COZZOLINO (1885), CHEVAL (1890), JACOBSEN (1895), SEASHORE (1890), TRÉTOP (1908), GRADENIGO (1907) e FOY (1916).



FIG. 3 - Audiometro de Ladriet de Lacharriére (Bunch, 4)



No aparelho de SEASHORE (cit. 2, 4), Professor de Psicologia da Universidade de Iowa, como podemos observar na figura (fig. 5), lançado em 1899, o enrolamento secundário foi colocado de tal modo que o número de voltas varia em uma razão logarítmica, proporcionando a variação do volume do estímulo, de acôrdo com a lei psico-física de Weber-Fechner que, como sabemos, regula a relação estímulo-sensação. SEASHORE (cit. 2, 4), afirma ter inventado o têrmo audiometro, mas, como estabelece BUNCH (2, 4), tal fato deve ser atribuido a RICHARDSON.

Nos anos que se seguiram, a Western Electric procurou introduzir uma certa precisão nesses aparelhos empregados para medida da audição e que lançavam mão de uma simples campainha, com sua gama de ruídos, com uma bateria alimentando o circuito que terminava em um receptor telefônico, sendo que a intensidade do ruído era atenuada ou pela intercalação de uma resistência na linha telefônica ou pela interrupção da carga da bateria para a campainha. Partindo de um aparelho dêsse tipo, a Western Electric introduziu determinada precisão ao mesmo, isto. é, adaptou um simples reostato graduado em unidades elétricas definidas de intensidade. Foi essa a primeira tentativa da Western Electric na construção de audiometro (W.E.Buzzer Audiometer - Fletcher (12).

Já nos fins do século passado e princípios dêste, os otologista sentiam a grande necessidade de uma revisão completa no instrumental empregado nos testes de audição. Os aparelhos que empregavam a corrente elétrica, receptor telefônico e diapasão intercalado entre ambos, apresentvam grande limitação e sérias imperfeições. Para se obter sons de tonalidade diferente, tornava-se necessário intercalar diapasões de diversos frequências, o que aumentava as dificuldades técnicas na construção de tais aparelhos. Além do mais, e aí reside a principal falha, devido à má qualidade dos circuitos secundários, obtinha-se, sempre, ao lado do som fundamental, ruídos adventícios. Não se tratava, por conseguinte, de aparelhos geradores de sons puros, mas sim de sons impuros, de ruídos.



FIG. 4 - O " Electrisher Hörprüfungs Apparat ", de Urbantschitsch (Bunch, 4)



E, com BEZOLD (cit. 9,11) em 1898, com a sua série de diapasões a sons puros em uma série contínua, evidenciou-se a necessidade de que os testes de audição deveriam ser executados por aparelhos que produzissem sons puros em uma cadeia contínua de frequências audíveis, sons que pudessem ser mantidos diminuidos ou incrementados a intensidades desejadas, em suma, instrumentos de precisão que proporcionassm uma acumetria qualitativa a mais perfeita possível .



FIG. 5 - Audiometro de Seashore. A figura não mostra o diapasão (Bunch, 4)



Podemos considerar como terminada, aqui, a primeira etapa da história da audiometria para a construção de aparelhos elétricos que geravam um estímulo sonoro constituído por sons impuros ou por uma simples mistura de frequência, isto é, pelos ruídos. Além disso, pouquíssimos dentre êles eram dotados de uma escala de medida da intensidade controlada cientificamente.

Na segunda etapa da história da audiometria verificaremos, então, a tendência para interrogar a capacidade auditiva de um indivíduo por meio de aparelhos que reproduzem a voz gravada em discos, sendo a intensidade da mesma passível de um contrôle perfeito. Aliás, como veremos mais adiante, êsse princípio, com algumas modificações, predomina até hoje em um tipo de audiometro empregado para exames audiométricos coletivos, isto é, nos audiometros fonográficos.

SOHIER-BRYANT (cit. 1) em 1904, seguindo as pegadas de Edson que, com seu cilindro de cera, já gravava e reproduzia a voz, apresentou à Sociedade Americana de Otologia um audiometro fonográfico no qual a voz, empregada como estímulo sonoro, após reprodução pelas rotações do cilindro, era transmitida através de tubos estetoscópios e sua intensidade controlada por um sistema de válvula. MACFARLAN (1) afirma que, infelizmente, não existe, no momento , modelo algum dêsse aparelho, mas pelas fotografias do trabalho original do Dr. BRYANT verifica-se que o mesmo nada mais é que uma reprodução fiel do cilindro de Edson.

O PROF. BRISTOL (cit. 1), de Waterbury, Conn., muitos anos depois da comunicação de Bryant, lançou um aparelho de maior precisão, um fonógrafo, com " pick-up "elétrico, transmissão da voz através de um receptor telefônico, sendo a intensidade da mesma controlada por meio de um sistema de resistências.

Após a descoberta do aparelho de BRISTOL, o fato mais importante na história da audiometria fonográfica foi o lançamento, pela Western Electric, do audiometro fonográfico 4A, e, posteriormente, do 4B,como podemos observar nas figuras (figs. 6 e 7), consta de um fonógrafo de corda com um "pick-up" magnético e um grupo de 20 a 40 receptores telefônicos, de tal modo que os exames podem ser feitos, em uma mesma unidade de tempo, em tôda uma coletividade.



FIG. 6 - Audiometro fonográfico 4B da Western Electric, com quatro caixas de receptores e malas especiais para transporte do conjunto (E. Prince Fowler, 7)



FIG. 7 - Audiometro fonográfico 4B da Western Electric em funcionamento, examinando, contemporaneamente, a acuidade auditiva de uma classe com 20 meninos. Os pequenos pacientes vão anotando em uma ficha especial os números ou palavras que forem ouvindo através dos receptores telefônicos. Na gravação a intensidade dessas palavras ou números decresce progressivamente de 30 a 3 decibels de intensidade. O exame das fichas revelará os duros de ouvido. (E. Prince Fowler, 7)



O estímulo sonoro empregado é a própria voz, ou melhor, são usados números falados, cuja intensidade já é graduada durante a gravação do disco. Êsses aparelhos são os indicados para o exame sistemático de tôdas as crianças em idade escolar, afim de selecionar e classificar os duros de ouvido em espaço mínimo de tempo. Atualmente, na América do Norte, a sua aplicação na higiene escolar é geral. Para se ter uma idéia de seu uso naquele país, basta citar o fato de que sòmente no ano de 1927 (Fletcher, 12, página 213), sob o patrocínio da Federação Americana das Organizações para os duros de ouvido, cêrca de 250.000 crianças em idade escolar foram examinadas com êsse instrumento.

Sem rigor absoluto em datas, já pela segunda década do século atual inicia-se, verdadeiramente, a terceira etapa da história da audiometria, e que se confunde com as pesquizas contemporâneas. E' difícil afirmar-se, com certeza absoluta, quem foi o percursor e construtor do audiometro a som puro, isto é, o aparelho empregado para a medida da audição interrogando-a em suas frequências audíveis e em tôdas as suas intensidades. Diversos pesquizadores, trabalhando contemporaneamente, concorreram para a construção dêsses aparelhos de precisão. Si alguns laboratórios, coadjuvados por seus técnicos e especialistas lançaram no comércio aparelhos originais, outros, com pesquizas cuidadosas na mecânica e fisiologia elétro-acústica também concorreram, decididamente, para os mesmos fins.

O que está estabelecido de definitivo, entretanto, é que a construção dêsses aparelhos só foi possível pelo estudo e trabalho conjugados dos físicos, otologistas, psicologistas e técnicos em telefone e radiofonia. Êsses aparelhos só se tornaram realidade em precisão, depois que os técnicos da indústria telefônia articularam seus conhecimentos com a parte cientifica da voz, sob os pontos de vista acústico, psicológico e pedagógico. E foram êsses estudiosos da ciência telefônica, ao lado dos progressos no equipamento mecânica, advindos com o evoluir da radiotécnica, que proporcionaram a construção de geradores de sons puros em uma escala contínua de frequências e introduziram a unidade de medida exata da sensação de intensidade do estímulo sonoro que através de um fio telefônico, alcança o receptor. A HARVEY FLETCHER (12) deve-se a introdução da unidade de medida da sensação de volume de intensidade do estímulo sonoro - o bel, e sua fração, o decibel. Os trabalhadores de FLETCHER, do Laboratório Bell da Western Electric, encontram-se enfeixados em sua monumentalobra - " Speech and Hearing ", na qual reúne os resultados de seus 15 anos de estudos, de uma maneira original e completa, sôbre todos os diferntes fatores psicofisiológicos da música, da voz e da audição e a intercorrelação entre os mesmos. Seus estudos constituem, até hoje, verdadeiros dogmas da fisiologia da percepção sonora.

Como vimos anteriormente, o emprego em acumetria da corrente elétrica interrompida ritmicamente por meio de diapasão ou qualquer outro sistema, originando sons quasi sempre impuros nos circuitos secundários, não forneceu os resultados desejados.


O uso da corrente alternada, para fins de estudo na fisiologia da audição, surge, primeiramente, em 1901, com WIEN (cit. 5) em sua sereia elétrica, cuja fotografia podemos observar na figura abaixo (fig. 8).Com êsse aparelho, mais tarde aperfeiçoado pela casa Siemens-Halske, WIEN pesquizou a medida da sensibilidade do ouvido.



FIG. 8 - Sereia elétrica de Wien (Gradenigo e Stefanini, 5)



Entretanto, foi reservado a STEFANINI (5), em 1914, com seu "alternador elétro-magnético pendular", de construir um gerador capaz de produzir uma corrente alternada com uma cadeia de frequências que podia ser conduzida a um receptor telefônico para uso nos testes de audição. Mas, como afirma o próprio STEFANINI (5), êsses aparelhos são muito custosos e necessitam, para seu funcionamento, de um motor elétrico cuja velocidade de rotação nem sempre é fácil de ser regulada e a manter-se constante. Esquemàticamente, o gerador de corrente alternada de Stefanini (fig. 9), consta de um pêndulo que suporta uma fila de dentes de ferro, os quais, com a queda do pêndulo, deslisam sôbre um campo elétro-magnético gerando oscilações magnéticas.

Com isso obtêm-se uma corrente no gerador com frequência dependendo da velocidade com que os dentes atravessam o campo magnético. Tal velocidade á graduada pela altura da queda do pêndulo. deixando cair o mesmo de 80° consegue-se 200 oscilações em cerca de 2 minutos. Segundo BUNCH (2,4), não foram publicados os resultados da aplicação clínica nos testes de audição com esse instrumento.



FIG. 9 - Pêndulo gerador de corrente alternada de Stefanini (Bunch, 4)



Ao redor de 1917, na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, sob a direção do chefe do Departamento de Oto-laringologia, S.W.DEAN (cit. 1), iniciou-se uma verdadeira transformação na maneira de se executar os diferentes testes de audição. E devemos assinalar, também, que essa renovação foi influenciada pelo professor de psicologia dessa mesma Universidade, CARL E. SEASHORE (cit 1), estudioso da questão, e que se dedicava ao estudo sôbre os testes do talento musical. Por meio de um fonógrafo e uma série de discos, conseguia SEASHORE estudar certos elementos musicais, isto é, apreciava a frequência, a intensidade, o intervalo e a consonância.

De acôrdo com MACFARLAN (1), escrevia DEAN em 1919:

". . . há dois anos decidi que os métodos de testes da escala tonal das frequências, usadas em nossa clínica, necessitavam de serem melhorados. Quando conversei sôbre o assunto com o Prof. Seashore, o mesmo sugeriu a idéia da necessidade de um trabalho conjunto entre a otologia e a psicologia, indicando a necessidade de um assistente otologista, e resolver o problema si possível."

"C. C. BUNCH foi o indicado para preencher êsse lugar, e desde essa época data o desenvolvimento da pesquiza científica nos testes da audição através do espectro de frequências."

Não resta dúvida, portanto, que os pesquizadores da Universidade de Iowa, SEASHORE, DEAN e BUNCH, psicologista e otologistas, foram os introdutores da audiometria da faixa das frequências e em função da intensidade sonora.

O alternador à alta frequência, empregado por DEAN e BUNCH, guarda muita semelhança com os construidos por ALEXANDERSON (1909), DUDDELL (1903-1905) e CAHILL (1906), capazes de gerar alta frequência e que foram empregados para rádio-comunicações e transmissão da música pelo fio, mas nenhum deles foi usado para testes de audição (cit. 2, 3, 4).

Em 1919, DEAN e BUNCH (2, 3, 4) lançaram o seu "pitch range audiometer" (fig. 10), com o qual obtinham uma corrente alternada sinusoidal sem harmônicos e de fácil controle, tanto da frequência quanto da intensidade.Com êsse aparelho conseguia-se uma série contínua de sons desde 30 até 10.000 ciclos. Suas vantagens, enumeradas por BUNCH (2, 4), eram as seguintes, em resumo:

1) o aparelho gerava todos os sons dentro do campo auditivo sem qualquer lacuna;

2) produzia sons relativamente puros, o bastante para fins práticos

3) fornecia-nos um processo adequado para variar a intensidade de qualquer tom, desde seu limiar de audibilidade até aos limites da sensação dolorosa;

4) com tal aparelho era possível anotar e medir instantaneamente, e com precisão, tanto a altura quanto a intensidade de um som;

5) conseguia-se percorrer, também, através a cadeia de frequências de um golpe a qualquer intensidade, bem como, rapidamente, percorrer tôdas as intensidades em uma frequência dada;

6) o manejo do instrumento á simples e a medida da audição pode ser feita rapidamente, em menos tempo que qualquer outro meio empregado pelos otologistas no momento.



FIG. 10 - O audiometro de Dean e Bunch. A figura mostra o motor e o quadro de controle do aparelho. A altura do estímulo é regulada pela velocidade do motor, M, o qual move dois geradores, H e L. A intensidade é regulada pelas resistências em O.A altura é registrada no dia em I, o qual encontra-se em relação com o tachometro, T. (Bunch, 4)



Com seu "pitch range audiometer", que não foi fabricado para fins comerciais, DEAN e BUNCH executaram inúmeros trabalhos de pesquiza e clínica, quasi todos publicados na literatura de língua inglesa até 1927.

Já por esta época aumenta, em todo o mundo, o interêsse popular pelo rádio. Paralelamente a êsse acontecimento progridem nossos conhecimentos sôbre acústica, bem como surgem novos mecanismos capazes de gravar e reproduzir as vibrações, assim como o emprêgo do tubo a vácuo em radiotelefonia e, posteriormente, nos testes de audição. Em seguida, dos audiometros com um certo número de frequências fixas, passaram a construir aparelhos com série contínua de frequências, lançando mão do fenômeno heterodino, isto é, do princípio da interferência, hoje empregado em quasi todos os audiometros modernos.

J. P. MINTON e J. G. WILSON (cit. 2, 4), em 1921, descreveram certos tipos de tubo a vácuo desenhados e empregados para fins de testes de audição.

Em 1921, também, mais ou menos pela mEsma ocasião, J. GUTTMAN (cit. 1, 4) apresenta aparelho mais ou menos idêntico, para fins de testes de audição, ao qual denominou de "acúmetro". Entretanto, como afirma BUNCH (4), nenhum dêsses aparelhos foi comercialisados.

Parece-nos que o primeiro audiometro lançado no comércio, e que empregava o princípio do tubo a vácuo, foi aquele do Laboratório Bell, da Western Electric, em 1922, apresentado por E. PRINCE FOWLER e R. L. WEGEL, supervisionados por FLETCHER. Trata-se do audiometro Western Electric 1A (fig. 11), que consistia essencialmente de:

1) um gerador para produzir correntes alternadas de várias frequências, mas gerador êsse constituido por um oscilador especial a tubo a vácuo desenhado para gerar sons puros;

2) um atenuador elétrico para variar a intensidade dessas correntes;

3) receptor telefônico para convertê-las em som.

O interessante dêsse aparelho é que a escala do atenuador já era calibrada de acôrdo com o metro decibel, de tal maneira que a perda de audição já era lida diretamente da escala do dial. Entretanto, êsse tipo 1A W. E. teve seu emprêgo clínico muito limitado, devido a seu alto preço de custo, cêrca de $ 1.500,00 dólares americanos (cit. 2). Logo em seguida a Western Electric lançou no comércio o tipo 2A (fig. 12), para fins práticos, mais barato, audiometro êsse mundialmente conhecido e empregado e que serviu de base para quasi tôdas as pesquizas levadas a efeito daquela época até há pouco tempo.

Daí para cá a Western Electric tem se esmerado em melhorar sempre seus tipos de audiometros, tornando-os, também, accessíveis em preço.

Ultimamente essa mesma companhia norte-americana lançou no mercado o tipo 6A e, mais recentemente, o 6B.



FIG.11- Audiometro Western Electric 1A (Fletcher, 12)



A essa altura devemos assinalar que com o primeiro audiometro mencionado na Alemanha, o Otoaudion, em 1920, verifica-se, pela primeira vez, o emprêgo do princípio da interferência nesses aparelhos para teste de audição. Em 1919, SCHARZKOPF e GRIESSMANN (cit. 13) propuzeram o emprêgo dos sons de interferência para a medida exata da acuidade auditiva. Essa idéia passou à prática com o engenheiro W. SCHWARZ, da firma Dr. F. Huth, de Berlim, que resolveu o problema da interferência, construindo o audiometro conhecido mundialmente por Otoaudion, apresentado, pela primeira vez, em 1920, ao Congresso de Otologia reunido em Nauhein, depois de ter a sua construção aprovada pelo PROF. GILDEMEISTER. O Otoaudion, em sua forma de 1926, experimentado por GRESSMANN representa a sequência direta da pesquiza de 1919 baseada no emprêgo da mesma descoberta. A evolução posterior do Otoaudion (fig.13), foi realizada, em conjunto, pelos trabalhos da Clínica Universitária de Freiburg, com KAHLER e RUF de um lado, e pelo Andron-Kraft laboratorium St. Blase, por W. SCHWARZ e H. TIGLER de outro lado (cit. 13).



FIG 12 - Audiometro Western Electric 2A (Fletcher, 12)



FIG 13 - Otoaudion. Ao lado do aparelho podemos observar o alto-falante, usado em substituição
ao receptor telefônico. (Schwarz e Tigler, 13)



Portanto, deve-se considerar o Otoaudion, de acordo com fontes credenciadas, como o primeiro audiometro a empregar o princípio da interferência, afim de se obter uma escala tonal.

Desse período em diante a história da audiometria perde-se na atualidade. Com o progresso sempre crescente da radiotécnica, a acessibilidade em preços dos equipamentos de rádio, e mesmo, uma certa facilidade na construção dêsses aparelhos, o número de novos aparelhos audiométricos cresce rapidamente. E nessa verdadeira corrida para a acumetria radiotécnica, que atualmente se observa em todo o mundo, os Estados Unidos da América do Norte destacam-se sobremaneira em todos os setores dêsse ramo da otologia.

Em 1924, KNUDSEN e JONES (cit. 2,4), um físico, outro otologista, lançam um "audioamplificador", logo em seguida modificado e produzido comercialmente pela Sonotone Copr., como o audiometro "Sonotone Knudsen-Jones, modêlo 1". Atualmente já existe o audiometro Sonotone modêlo 2.

Por essa mesma época, KRANZ e POHLMAN (cit. 2,4) anunciam novo tipo de audiometro.

Com um número sempre maior de aparelhos aparecidos no comércio, destinados a testes perfeitos da capacidade auditiva, a Associação Médica Americana foi compelida, já em 1937, a estabelecer um certo número de requisitos técnicos mínimos exigidos na construção dos audiometros, para que os mesmos fossem aceitos e recomendados pela mesma Sociedade.

Nesses últimos anos, inúmeros paises, além dos já enumerados, possuem aparelhos audiométricos construidos dentro de suas próprias fronteiras, tais como a Inglaterra, Itália, Suécia, França, Argentina.

LENNART HOLMGREN (6) apresentou, recentemente, na Suécia, um audiometro capaz de gerar sons de 62 a 15.000 ciclos e com leitura de 1 decibel a partir de 125 decibels (figura 14).

Segundo JEAN PAUL MOURE (15), em França, os primeiros audiometros aparecidos no mercado datam de 1933 a 1934..



FIG. 14 - Audiometro sueco de Lennart Holmgren (Holmgren, 6)



Em janeiro de 1941, na XIV Reunião da Sociedade Rioplatense de Otorino-laringologia, ZAMBRINI, FERRARI, HARDOY e JULIO PASSARON (16) apresentaram um audiometro fabricado na Argentina (fig. 15). Indiscutivelmente, deduz-se da leitura dêsses autores, que êsse audiometro, dotado do princípio da interferência, apresenta características singulares, inclusive interrogar o espectro tonal dentro de amplos limites, isto é, de 16 até 20.000 ciclos.

No Brasil, não fazendo exceção ao que acontecia até há pouco tempo em tôda a América do Sul, as publicações que fazem citação ao emprêgo dêsses aparelhos, são ainda, pobres. Mas seguramente, há bons anos alguns Serviços de Oto-rino-laringologia do Rio de Janeiro são dotados com os mesmos. Atualmente generalisa-se seu emprêgo nas clínicas particulares.



FIG 15 - Audiometro argentino de Zambrini Hardoye Passaron ( Zambrini, etc., 16)

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