Versão Inglês

Ano:  1952  Vol. 20   Ed. 2  - Março - Abril - ()

Seção: -

Páginas: 48 a 52

 

MUCOCELE DO SEIO MAXILAR

Autor(es): FABIO BARRETO MATHEUS

Os mucoceles constituem uma das afecções mais raras das cavidades para-nasais. Em ordem de frequencia se assestam nos frontais, etmoides, maxilares, e esfenoide. Estas duas ultimas localizações são excepcionais, não sendo mesmo admitida, por alguns autores, a forma maxilar. A associação fronto etmoidal é mais comum e isto em virtude da intima relação entre essas cavidades.

Os casos de mucocele maxilar publicados são poucos e entre nós Estevam de Rezende, Otacilio Lopes e Paula Assis publicaram observações fazendo revisão bibliografica.

O mucocele como o nome indica é um tumor de muco.

A causa etiopatogenica é divergente segundo a opinião dos diversos estudiosos do assunto.

Alguns (Tanturri - Luc - Manasse) admitem que traumatismos anteriores criem condições propicias á retenção e consequente ectasia.

Para outros (Collet-Killian) processos inflamatorios facilitariam o aparecimento da formação tumoral.

Ha os que admitem a sua origem congénita (Worms e Reverchon), enquanto que outros os consideram como um cisto de retenção.

Mesmo a necrose diabética e condições reumaticas já foram incriminadas como causas etiopatogenicas (citadas por Egston e Wolff).

Em ultima analise podemos deduzir que qualquer causa capaz de obliterar o osteo (traumatismos, cistos, edemas, osteomas), impedindo a drenagem do seio é causa suficiente para permitir que se produza a ectasia.

A mucosa de revestimento, em estado congestivo, portanto com capacidade hipersecretoria, secreta o muco que pela impossibilidade de se eliminar vai se coletando, pressionando e dilatando por fim, a cavidade ossea continente.

O diagnostico nem sempre é facil e muitas vezes constitue achado operatorio. Na fase de latencia, sobretudo, é possivel confundir com uma sinusite; e isto é facilmente compreensivel visto como a sintomatologia de ambos os quadros é identica.

A literatura mostra muitos casos de erro diagnostico; mostrando que a confusão com outras entidades morbidas é possivel.

Si o paciente se encontrar na fase de exteriorisação, poderemos então encontrar sinais que nos permitirão orientar o diagnostico. Quando a tumoração tiver erosado o osso, este torna-se muito fino, abaulado e a palpação pode determinar um ruido caracteristico conhecido com o nome de sinal do pergaminho. Outras vezes há deiscencia completa da táboa ossea e então encontraremos flutuação.

Na localisação frontal o desenvolvimento se dá em geral no sentido de menor resistencia, isto é, teto da orbita e a sintomatologia será então orbitaria.

No que respeita ao mucocele maxilar o diagnostico é tambem dificil, pois a exteriorisação se faz sempre à custa da parede anterior, podendo estabelecer confusão com os cistos, tumores, edemas e mesmo as sinusites.

Os dois elementos de maior valor para o diagnostico são a punção que nos revelará as caracteristicas do conteudo e a radiografia. Esta, não raro; nos fornecerá elementos valiosos para o diagnostico diferencial.

Todas as vezes que tivermos um alargamento das paredes do seio com apagamento dos seus contornos devemos pensar em mucocele. No que tange ao mucocele etmoidal vamos encontrar um afastamento da lamina papiracea. No maxilar podemos ter um deslocamento da parede nasal para o interior da fossa.

Mesmo havendo destruição ossea, quando se trata de mucocele, as bordas da perfuração estão deslocadas, o que não acontece no caso de tumores.

Em se tratando de cisto dentario, encontraremos, sempre uma limitante ossea, mesmo que seja muito delgada. Muitas vezes o diagnostico só é feito no ato operatorio.

O conteudo do mucocele é constituido por um liquido espesso, pegajoso, de cor variando do amarelo ao chocolate. É inodoro, rico em mucina, se precipitando pelo acido acetico. O exame cito bacterioscopico não revela germens e sim leucocitos, hematias e celulas epiteliais de descamação.

O exame do envoltorio do mucocele mostra que não é uma capsula autonoma, pois ela não é sinão a propria mucosa do seio.

OBSERVAÇÃO

L. S. N., branca, brasileira, 41 anos, fem., casada. Ha 20 anos fez sinusotomia maxilar direita e há 11 anos foi reoperada.

Ha 2 meses notou um inchaço da hemi face D. que tem aumentado. Cefaléa. Obstrução nasal.

Exame: Edema ao nivel da hemi face direita. Na região vestibular nota-se tumoração flutuante, levemente dolorosa á pressão.
Amigdalas com inflamação cronica.
Perfuração anterior do septo.
Diafanoscopia: opacidade do seio maxilar direito.
Radiografia: opacidade dos seios maxilares.

Nos 2/3 inferiores do seio maxilar direito nota-se limite superior arredondado, porem o contorno não apresenta aspecto de estrutura ossea. A porção inferior da parede nasal do seio acha-se um pouco deslocada para a fossa.

Pressão arterial Mx. 24 - Mn. 17. Punção revelou pequena quantidade de liquido muito espesso e escuro. Indicamos a antrotoluia com a aquiecencia do clinico.

Operação: Incisão classica para a operação de Caldwell Luc. Caimos logo sobre uma capsula distendida, tensa, azulada. Tivemos a impressão de que a tumoração ocupava todo o seio maxilar e tentamos o deslocamento. Ao atingirmos o rebordo osseo da trepanação anterior as aderencias cicatriciaes eram tantas que esse deslocamento se tornou impossivel.



Nesta fase a envolvente rompeu-se dando saida a liquido muito pegajoso e achocolatado que mandamos a exame. Completamos a limpesa do seio maxilar que se apresentava cheio de bridas cicatriciaes principalmente na porção alta.

Fizemos contra abertura e como a operação tivesse sangrado muito, tamponamos a cavidade por 24 horas.

Post operatorio normal.

Exame citologico: Frequentes celular epiteliais descamadas, frequentes, eritrocitos, numerosos filamentos de muco, raras celulas brancas constituirias por polimorfos nucleares neutrofilos.

Exame bacterioscopico: Os esfregaços praticados com o material enviado, corados pelos metodos de Ziehil Nilson e Gram, não revelaram a presença de bacilos alcool acido resistentes nem de germens gram positivos ou gran negativos.

COMENTARIOS

Diante do achado operatorio e do resultado do exame cito bacterioscopico do liquido não tivemos duvida em firmar o diagnostico de mucocele.

Naturalmente após as antrotomias feitas, ainda restou no seio parte da mucosa com capacidade secretoria. Tanto a contra abertura, como o osteo natural foram impermeabilisados pelas bridas cicatriciais, tornando-se assim possivel a coleção do liquido mucilaginoso, A exteriorisação se processou no sentido de menor resistencia, isto é parede anterior onde o osso havia sido trepanado.

RESUMO

O autor apresenta a observação de um caso de mucocele maxilar. O tumor mucoso se desenvolveu no seio maxilar direito que já havia sido trepanado por 2 vezes. (A primeira há 20 anos passados e a segunda há 11 anos).

O exame cito bacterioscopico do liquido não revelou a presença de germens e sim filamentos de muco; frequentes eritrocitos, raros polifmorfos nucleares e frequentes celulas epiteliaes descamadas.

O tratamento foi cirurgico e o post operatorio decorreu normal.

SUMMARY

The author presents a case of maxillary sinos nucocele. The mucous tumor developed in the right maxillary sinus, which had already been operated twice. The first time of that operation occurred twenty years ago, and, the second one eleven years ago.

No germs was found in the cytobacteriological examination, but were found in it mucous filaments, erithrocyts, polymorphonuclear, and epithelial cells.

The treatment was surgical.

BIBLIOGRAFIA

1 - CORREA ANTONIO - Mucocele atmoidal simulando Ca. - Comunicação verbal na secção de ORL da APM no dia 18-8-51.
2 - EGSTON A., WOLFF D. - Histo Pathology of the ear, nose and Throat - pg. 672.
3 - JOHNSON C. - Infected mucocele of the frontal simus complicated by septicemia and meningits witlh recovery. Archives of Otolaringology vol. 33, n.º 5, 1941, pg. 841.
4 - MOURA ARTUR - Lues nasal, volumoso mucocele frontal. Arquivas Brasileiros de ORL, vol. III, pg. 217, 1940.
5 - MATHEUS F. B., CORRÊA A., BARBOSA J. F., HIRCHMAN J. -Mucocele frontal - a proposito de 6 casos. Rev. Bras. ORL., vol. XVII us. 1 e 2, 1949.
6 - LOPES OTACILIO - Mucocele do seio maxilar. Rev. Oto-Laringologica de S. Paulo - vol. IV, n.º 6, 1936.
7 - PAULA ASSIS - J. E. Mucocele do seio maxilar. Rev. Bras. ORL. Vol. X, n.º 96, 1942, fis. 627.
8 - REZENDE BARBOSA - J. E. - SOUZA-M. CANDIDO - Sobre i casos de mucocele - Rev. Br. de ORL., vol. XII, n.º l, 1944.
9 - REZENDE ESTEVÃO - Mucocele fronto etmoidal, frontal e maxilar. Arquivos do 1.º Congresso Brasileiro de ORL., vol. III, 1940.
10- WEISS J. A, - Mucocele of lhe frontal sinus. Arquives of Oto Laringology, vol. 32, n.º 6, 1940.

Imprimir:

BJORL

 

 

 

 

Voltar Voltar      Topo Topo

 

GN1
All rights reserved - 1933 / 2021 © - Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico Facial