Versão Inglês

Ano:  1946  Vol. 14   Ed. 1  - Janeiro - Fevereiro - ()

Seção: Notas Clínicas

Páginas: 57 a 58

 

PEÇA DE VULCANITE COM PERMANENCIA DE QUATRO MESES NO ESOFAGO. REMOÇÃO POR ESOFAGOSCOPIA DIRETA

Autor(es): DR. CELSO MALCHER (*)

Observação:

Taiko E., amarela, japonesa, 20 anos de idade, residente em Itacoatiara, Estado do Amazonas. 26-12-45.

Historia da doença atual:Queixa-se de ter deglutido, ha quatro meses, emquanto dormia, uma chapa de vulcanite, despertando profundamente perturbada. Procurou socorro medico na região em que vive, porem em virtude da precariedade do mesmo seguiu para Manaus. Informa que desde então só se vem alimentando com líquidos. Em lá chegando consultou dois profissionais que negaram a possibilidade da deglutição do aparelho de protese, daí ter a paciente regressado a casa, porem como cada dia o seu estado se agravava voltou àquela cidade, onde o Dr. A. P. submeteu-a a exame radiologico adequado, constatando a presença do corpo extranho no esofago, na altura do estreitamento da cricoide. Não existindo em Manaus aparelhagem para endoscopia diréta, viajou a paciente para Belém, onde nos procurou, ficando internada na Santa Casa do Pará.

Antecedentes - Doenças proprias a infancia. Paludismo por diversas vezes. Os antecedentes hereditários nada revelam de anormal.

Exame geral - Jovem de raça amarela, tipo astenico, paniculo adi poso extremamente diminuido, tendencia a caquexia. Temperatura 38°.

Exame dos aparelhos - Pulso taquicardico, coração normal. Pressão arterial Max 7, Mm 4. Aparelho respiratorio normal. Rinoscopia anterior - Sem significação.

Faringe - Amigdalas palatinas intravelicas, fibroticas.

Laringe - Cordas vocais congestionadas, de mobilidade perfeita. Região aritenoidéa hiperemiada e infiltrada.

Após 24 horas de repouso, realizada a medicação pré-operatoria pelo seconal-sodico e escopolamina em dose adequada, procedemos a esofagoscopia direta, tecnica de Chevalier Jackson, utilizando o especulo esofagiano de Forbes de 25 centímetros. Não tentamos qualquer anestesia pois o estado geral da doente assim não o permitia. Imediatamente após a penetração no esofago deparamos com o corpo extranho, porem contrariamente a radiografia procedida em Manaós o mesmo apresentava-se agora em posição transversal, seus braços penetrando na espessura da mucosa, que por sua vez se mostrava bastante infiltrada, com diminuição acentuada da luz esofagiana. Com a pinça tipo "alligator" realizamos a versão indicada, procurando colocar a peça em posição adequada, capaz de permitir a retirada, versão esta bastante dificultada pela infiltração da região. Após dez minutos foi a chapa retirada, verificando-se não haver perfuração resultante das manobras executadas.

A paciente teve alta após oito dias, tendo já regressado a Itacoatiara, em perfeitas condições.

Já por diversas vezes temos removido corpos extranhos, de diversas modalidades, das vias aero-digestivas por endoscopia direta com algum tempo de permanencia, porem nunca excedendo a 40 dias. No caso presente a demora de mais de 120 dias, aliada ao volume de chapa, que nos obrigou a uma versão em região naturalmente estreitada e inflamada,como que procurando enquisitar a peça de protese, vinha obscurecendo o prognostico, dada a facilidade para perfurar a mucosa. No entanto o que se verificou foi que apesar das manobras realizadas e mesmo de certa força empregada na extração, a mucosa regional nada sofreu, tendo-se observado que a demora considerada excessiva creou condição de proteção pela hipertrofia e aumento de resistencia das paredes por reação organica de
defesa.



fig 01 - Corpo extranho (Peça dentária de vulcanite)



fig 02 pág 58





(*) Ex-interno do Serviço de Oto-laringologia do Hospital Gafrée-Guinle do Prof. David de Sanson. Chefe do Serviço de Nariz, Garganta e Ouvidos da Santa Casa do Pará.

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